Mianmar conta 22,5 mil mortos por ciclone; 41 mil desaparecem

O violento ciclone no delta doIrrawaddy, em Mianmar, provocou uma gigantesca onda que deixouas pessoas sem ter para onde fugir, matando pelo menos 22,5 mile deixando 41 mil desaparecidos, disseram autoridades naterça-feira. "Mais mortes foram causadas pelo maremoto do que pelatempestade propriamente dita", disse o ministro de Auxílio eRecolocação, Maung Maung Swe, em entrevista coletiva nadevastada Yangon, antiga capital do país, onde já começa afaltar água e comida. "A onda tinha até 3,5 metros de altura e inundou metade dascasas em aldeias baixas", disse ele, oferecendo a primeiradescrição detalhada do ciclone do fim de semana. "(Osmoradores) não tinham para onde fugir." Foi o pior ciclone na Ásia desde 1991, quando 143 milpessoas morreram em Bangladesh. O ministro da Informação, Kyew Hsan, afirmou que as ForçasArmadas estão "fazendo o seu melhor", mas analistas viram natragédia um golpe para o regime militar da antiga Birmânia, quese orgulha da sua capacidade de lidar com qualquer problema. "O mito que eles projetaram de serem bem preparados foitotalmente varrido", disse o analista político Aung Naing Oo,que fugiu para a Tailândia depois da brutal repressão a umarebelião em 1988. "Isso pode ter um tremendo impacto políticoem longo prazo." Por causa do desastre, a Junta Militar decidiu adiar para24 de maio um referendo constitucional nas áreas mais atingidasde Yangon e do vasto delta do Irrawady. De acordo com a TVestatal, no resto do país o referendo está mantido para o dia10. O objetivo é aprovar um "mapa para a democracia", muitocriticado nos países ocidentais, especialmente depois dasangrenta repressão a uma rebelião liderada por monges budistasem setembro passado. ARROZ O governo de Mianmar, que há 50 anos era o maior exportadormundial de arroz, disse ter estoques suficientes do cereal paraalimentar a população, apesar dos estragos nos armazéns dodelta. O chanceler da Tailândia, Noppadol Pattama, reuniu-se emBangcoc com o embaixador birmanês, que lhe disse haver 30 mildesaparecidos por causa do ciclone Nargis. "Os prejuízos foram muitos maiores do que esperávamos",disse o chanceler. O embaixador Ye Win não quis falar ajornalistas. Fontes da ONU dizem que centenas de milhares de pessoasficaram desabrigadas por causa dos ventos de até 190quilômetros por hora e do maremoto subseqüente. Habitualmente recluso, o regime militar desta vez aceitou aajuda internacional, ao contrário do que fez depois do tsunamide 2004 no oceano Índico. Bernard Delpuech, funcionário humanitário da União Européiaem Yangon, disse que a Junta Militar enviou três navios comcomida à região do delta. Quase metade dos 53 milhões debirmaneses vive nos cinco Estados atingidos pela tragédia. A mídia, controlada pelo regime, não se cansa de mostrarsoldados em atividades heróicas e simpáticas, mas, numapopulação ainda marcada pela repressão de setembro, há umainevitável sensação de revolta. "O regime perdeu uma oportunidade de ouro para enviar ossoldados assim que a tempestade parou, para conquistar ocoração e a alma das pessoas", disse à Reuters um funcionáriopúblico aposentado. "Mas cadê os soldados e a polícia? Forammuito rápidos e agressivos quando houve protestos nas ruas noano passado." A ONG humanitária World Vision disse na Austrália terrecebido vistos especiais para enviar pessoal para ajudar osseus cerca de 600 funcionários em Mianmar. "Isso mostra como na cabeça do governo birmanês isso égrave", disse Tim Costello, diretor da organização. Uma lista de mortos e desaparecidos em cada cidade, lidapelo general-ministro Nyan Win, cita 14.859 vítimas fatais nodelta do Irrawady e 59 na Grande Yangon, a maior cidade dopaís, com 5 milhões de habitantes. Quatro dias depois dociclone, a antiga Rangum continua sem eletricidade, e osmoradores fazem fila para comprar água engarrafada Os preços dos alimentos, dos combustíveis e dos materiaisde construção dispararam. Velas e pilhas se esgotaram namaioria das lojas. Um ovo custa três vezes mais do que custavana sexta-feira.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.