Friedemann Vogel/EFE
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Mesmo sem Brasil, China e EUA, pacto para acabar com produção de carvão é importante para o clima

Professora do departamento de Ecologia da Universidade de Brasília destaca que acordo inclui boa parte dos países que consomem esse combustível, considerado um vilão no aquecimento global

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 05h01

Sem a presença do Brasil e com 48 países signatários, foi firmado na Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (COP-26), que está sendo realizada em Glasgow, na Escócia, um pacto para acabar com a produção de carvão e fortalecer a transição energética para fontes renováveis. A intenção é fazer esse processo até 2030 em nações com economia desenvolvida e até 2040 nas nações em desenvolvimento.

Entre os que assinaram o acordo estão Polônia, Reino Unido, Alemanha e França. Já algumas ausências importantes são Estados Unidos, Japão, Índia e China, responsável por metade do consumo de carvão no mundo. Até por ter esse combustível como central em sua cadeia produtiva, os chineses optaram por não entrar no acordo neste momento, mas se comprometeram a não financiar mais minas de carvão em outros países.

"O pacto cobre uma parte importante dos países que consomem carvão. A China não entrou e ela precisa viabilizar em como fazer essa transição, pois o consumo de carvão lá é muito alto. Não é só na geração direta de energia, mas também tem a ver com a cadeia de produção em um país que exporta produtos para o mundo inteiro. Na pandemia vimos como essa cadeia de suprimento foi muito impactada. Então a questão é sobre como o corte do carvão vai afetar a indústria chinesa e o impacto disso no mundo como um todo", explica Mercedes Bustamante, professora do departamento de Ecologia da Universidade de Brasília (UnB).

Ela lembra que seria muito importante contar com China e Índia no acordo, pois são grandes consumidores do carvão, que atualmente é considerado o grande vilão no aquecimento global. "O carvão é utilizado para gerar energia elétrica, mas tem impacto tanto na questão da emissão de CO2 quanto em materiais particulados, que são outros aspectos da poluição atmosférica. Também tem efeito na poluição da água e precisa de áreas muito grandes de extração. É uma indústria que precisa ter uma transformação radical. Então é necessário achar o substituto e fazer essa transição. O desafio é muito grande, mas já há essa percepção em muitos países", continua.

A especialista aponta que é preciso fazer a substituição do carvão por energias renováveis e não apenas trocar pela exploração de outras energias fósseis. "O carvão é parte importante da equação de controle da mudança do clima, pois é o combustível fóssil que está mais associado à emissão de CO2. Depois dele, temos de olhar para os outros combustíveis fósseis, como gás natural e petróleo", comenta.

Mercedes Bustamante lembra que o fato de​ a​ Polônia, ​o segundo maior consumidor de carvão​ da Europa​, ter entrado no acordo, é um bom sinal. Mas também vê países que ainda não deram um passo adiante. "Tem resistência da Austrália, que é grande exportadora de carvão. Já os Estados Unidos não assinaram, mas a dependência do carvão já vem diminuindo gradualmente lá. O mundo já está se movendo nesse caminho. Então a preocupação agora está nos países em desenvolvimento na Ásia, que fizeram suas economias muito baseadas no carvão", afirma.

Cientistas do Global Carbon Project revelaram que as emissões por carvão aumentaram dramaticamente neste ano, não apenas em comparação com 2020, marcado pela pandemia de covid-19, mas também em 2019. Segundo dados deles, o mundo expeliu 16,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono com a queima de carvão, 5,7% a mais que no ano passado, impulsionado por um crescimento da China.

Eles entendem que apesar do cenário sombrio, o acordo mostra uma luz no fim do túnel. Para a professora Mercedes Bustamante, o pacto traz um pouco de otimismo. "Temos de ver como essas peças vão se mover. São cartas de intenção, mas que mostram que precisamos reduzir isso drasticamente em 10 anos. Se isso ocorrer, será uma revolução enorme de sistemas de energia para muitos países", avisa.

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