Merenda de lata pode ser substituída por comida da floresta

Ideia é aproveitar lei que determina a compra de produção agrícola de comunidades extrativistas locais

Giovana Girardi - O Estado de S.Paulo,

19 Fevereiro 2013 | 22h30

CALHA NORTE (PARÁ) - Na região de peixes fartos e onde é possível plantar mandioca, banana, abacaxi - fora a castanha, que é abundante, e alimentos nutritivos da flora local -, ao chegar numa vendinha na comunidade de Cachoeira Porteira, no Rio Trombetas, para comprar o nosso jantar, o que encontramos são latas. De feijoada, de sardinha, de legumes. Nada fresco. Sem combustível suficiente para manter refrigeradores ligados o tempo todo, a solução são os enlatados, que abastecem até mesmo a merenda escolar.

Pensando em melhorar essa situação e ao mesmo tempo oferecer uma alternativa de geração de renda em bases mais sustentáveis, o Imaflora, uma das entidades que compõe o Consórcio Calha Norte (formado, entre outros, também por Imazon Conservação Internacional e Museu Paraense Emílio Goeldi), iniciou um trabalho para melhorar a merenda que é enviada para as comunidades quilombolas de Oriximiná aproveitando os produtos cultivados por elas mesmas. A cidade, que concentra a maior quantidade de remanescentes quilombolas do Estado do Pará, soma 34 comunidades.

"Os alimentos para chegar em Cachoeira Porteira, por exemplo, vão em barcos que levam até 14 horas para fazer o trajeto desde Oriximiná e não têm refrigeração. Então o jeito é ir mesmo em latas, mas podemos pensar em algumas alternativas", comenta Leo Ferreira, do Imaflora.

A ideia foi aproveitar a lei que criou o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Ela estabelece que na compra dos produtos da merenda, ao menos 30% seja adquirido pelos municípios da produção agrícola de comunidades extrativistas locais.

Mas num município tão grande como Oriximiná (107,6 mil km², o segundo maior do País), em que as comunidades ficam distantes e isoladas, o produtor encontra dificuldade até em acessar a chamada pública.

O primeiro passo foi, então, fornecer assistência técnica e apoiar as comunidades a ofertarem seus produtos. E ao mesmo tempo articular com a Secretaria de Educação do município o processo para abrir as chamadas públicas para esses produtos.

"Chegou a se temer que os quilombolas não teriam produção suficiente. Mas um levantamento mostrou que algumas até perdem cará, abóbora, melancia, banana, porque não têm mercado", conta Ferreira. Cada comunidade tem uma característica. Algumas são mais dependentes da castanha do pará, como é o caso de Cachoeira Porteira, e outras têm perfil mais agrícola. "Checamos com as lideranças quem tinha algo para oferecer", diz.

Também foram investigados os hábitos alimentar dessas comunidades, seus pratos típicos, suas receitas. "Vimos que dava para pensar até em chá com produtos da floresta, substituir biscoitos por biju, por exemplo."

A primeira chamada pública deve acontecer até março para a 1ª venda - de produtos in natura, principalmente frutas e legumes. A ideia mais para frente é incluir produtos como peixes e polpa de açaí, mas por causa das condições de transporte, eles terão de passar por algum processo de beneficiamento.

Também se discute a inclusão da castanha. Enviar com casca, como hoje os quilombolas costumam vender, daria muito trabalho para as merendeiras. Antes talvez seja necessário alcançar uma outra etapa do desenvolvimento das comunidades, que é a instalação de usinas de beneficiamento da castanha nessas próprias regiões, avanço que também está sendo articulado pelo Imaflora.

A farinha de mandioca é outro ingrediente na lista. Hoje ela já entra na merenda das escolas na área urbana. Pode entrar na das comunidades já neste semestre. "A venda deve melhorar a renda das comunidades. Só vamos conseguir garantir a conservação da Calha Norte, se der a essas pessoas boas condições de vida", defende.

A repórter viajou a convite do Imazon.

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