Mercado de CO2 fica mais rentável e eficiente

Países e empresas buscam novos projetos para cumprir meta até 2012

Giovana Girardi,

05 Junho 2008 | 00h00

Neste ano, começou para valer a contagem do tempo para o cumprimento das metas acordadas no Protocolo de Kyoto. De agora até 2012, os países que se comprometeram em reduzir as emissões de gás carbônico (do chamado Anexo-1), e que ratificaram o acordo, têm de diminuir em 5,2% suas emissões de carbono em relação aos níveis de 1990. Talvez por que o relógio já esteja rodando, ou porque existe uma maior consciência de que as mudanças climáticas são iminentes, o mercado de carbono vem experimentando um real crescimento. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) teve um salto do ano passado para cá. Braço de Kyoto, o mecanismo permite que empresas e países comprometidos com o protocolo comprem créditos de carbono, gerados em projetos de países em desenvolvimento, para alcançar suas metas de redução. Apesar de os primeiros projetos serem de 2005, até meados de 2007 havia pouco mais de 500 registrados. Na última segunda-feira, porém, esse número havia duplicado para 1.078 projetos, fora outros 3.000 em avaliação. Do ponto de vista econômico, o mercado global de carbono se consolidou como um excelente negócio. De acordo com levantamento do Banco Mundial, a movimentação financeira em 2007 foi de US$ 64 bilhões, mais que o dobro da registrada no ano anterior (US$ 25 bi). O que se questiona, no entanto, é o quanto esses projetos trarão de benefícios reais ao clima. Por estarem atrelados a Kyoto, suas reduções de emissão já não são muito altas e alguns projetos estão ligados a empresas tão sujas na sua base que mesmo com algumas alterações não chegam a representar uma mudança significativa. Essa situação parecia ainda mais frágil no ano passado, quando havia poucas propostas. Na ocasião uma equipe de consultores das Nações Unidas que analisam as metodologias usadas para gerar créditos de carbono avaliou cem projetos e concluiu que 50% podiam estar "maquiados" de alguma forma. O pesquisador Roberto Schaeffer, da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esteve envolvido na análise e se assustou com o balanço. "Na época a coisa não estava boa, não, e ficamos pessimistas sobre o seu impacto. Mas agora que é para valer e a exposição é muito maior, os projetos estão passando por um escrutínio mais rigoroso", explica. O problema gira em torno da chamada adicionalidade. Ao se inscrever no MDL, o pleiteante – por exemplo, uma termelétrica – diz que, se não tivesse um incentivo financeiro, continuaria funcionando do jeito que sempre funcionou, emitindo uma quantidade enorme de carbono. Mas, com o projeto, trocaria o uso de carvão por gás natural, por exemplo, que emite bem menos. Ocorre que é impossível provar o que a empresa de fato faria ou deixaria de fazer. "Mas notamos muitas justificativas frágeis", conta Schaeffer. Com o susto, ele diz que os projetos registrados passaram a ser examinados com mais cuidado e o índice de reprovação aumentou. "Os proponentes hoje se queixam que o calvário é mais longo, mas isso garante a integridade do mecanismo. Com as 1.078 propostas registradas, há uma expectativa de reduzir as emissões até 2012 em 1,28 bilhão de toneladas de carbono. "Não é o que vai resolver o problema, claro. Mas não é tão pouco assim. É praticamente o que o Brasil emite por ano." MERCADO VOLUNTÁRIO Paralelamente ao MDL, começam a pipocar pelo mundo mercados voluntários, que negociam créditos de carbono desatrelados ao Protocolo de Kyoto. Ou seja, quem compra ainda não tem obrigações, mas já está se antecipando para quando as tiver. O mais significativo é a Bolsa do Clima de Chicago (CCX, na sigla em inglês), que também vem batendo recordes de preços e de volumes. No ano passado foram negociados 23 milhões de toneladas. Só nos primeiros cinco meses deste ano já foram 37 milhões. E o preço da tonelada subiu de uma média de US$ 3,50 para US$ 7,40. "Ainda está bem abaixo dos  15 (cerca de US$ 23) do mercado europeu, o principal negociador dos créditos gerados no MDL, mas lá é obrigatório reduzir, e as empresas estão pagando o que for", diz Walfredo Schindler, diretor-superintendente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, que presta consultoria sobre o mercado. No CCX têm participado em especial empresas americanas capazes de antecipar a hora que o país vai assumir, mesmo que internamente, metas de redução. Elas assumem um compromisso voluntário e, se não conseguem cumprir, têm de comprar créditos. Menos rigoroso que o MDL, o CCX aceita projetos que reduzem mesmo sem ter a tal adicionalidade. "As empresas americanas sabem que mais cedo ou mais tarde um sistema regulatório será implementado no país. Elas acreditam que quem estiver fazendo a lição de casa primeiro poderá depois ser recompensado pelo esforço." No futuro próximo, pós-Kyoto, é possível que ocorra uma fusão de todos os mercados. Essa é a expectativa de especialistas que trabalham com créditos de carbono, como Antonio Lombardi, gerente de Produtos para Sustentabilidade do Banco Real. "Para ser um mercado efetivamente global, esse negócio tem de ser uma coisa só. Apesar de tudo trabalhar com carbono, hoje as metodologias são diferentes." Ele acredita que desse modo haverá espaço para projetos de mais impacto na conta total das emissões. "Hoje eles miram nas metas de 5,2% de Kyoto, mas têm condições de ampliar isso. O mercado que vai existir além de 2012 pode ser mais forte, com metas mais amplas", defende.

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