Júlio César Bicca-Marques/Divulgação
Júlio César Bicca-Marques/Divulgação

Medo de febre amarela provoca morte de macacos no RS

Embora não seja transmissor da doença, macaco está sendo perseguido e morto por pessoas mal informadas

Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo,

28 Abril 2009 | 19h18

Biólogos gaúchos lançaram uma campanha para proteger os bugios. Vários relatos de violências contra os animais surgiram desde o início do surto de febre amarela no Estado, no fim do ano passado. "Falta informação", aponta o pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Júlio César Bicca-Marques. "Algumas pessoas pensam que os macacos trouxeram a doença."

 

A campanha, intitulada "Proteja seu anjo da guarda", pretende mostrar que os animais prestam um importante auxílio no combate à doença. "A descoberta de animais mortos serve de alerta para que o Estado promova campanhas de vacinação e imunize a população", explica o biólogo. "Sem os macacos, isso só aconteceria depois dos primeiros casos em seres humanos."

 

Segundo Bicca-Marques, houve relatos de agressão nas proximidades de Antonio Prado (RS), Santa Maria (RS), Uruguaiana (RS), Passo Fundo (RS) e Dois Irmãos (RS). A maioria dos animais seria vítima de envenenamento, método mais discreto do que o uso de armas de fogo.

 

Até agora, 18 pessoas contraíram a doença no Rio Grande do Sul. Sete morreram. Estima-se que 1,5 mil bugios apareceram mortos desde o fim do ano passado. "Muitas vezes, é difícil identificar a causa da morte: pode ser febre amarela, envenenamento ou outra razão qualquer", considera o biólogo.

 

RESERVATÓRIO

 

"Os macacos não são reservatórios naturais do vírus da febre amarela", afirma Ricardo Lourenço de Oliveira, especialista em transmissão de parasitas do sangue e vice-diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz). "Os mosquitos só se contaminam quando picam os bugios durante a infecção viral, que dura apenas três ou cinco dias: depois os macacos morrem ou se tornam imunes." Sendo assim, as agressões atingem quase sempre animais sadios que não tiveram contato com o vírus ou que já estão imunizados.

 

Ainda não se sabe com certeza quais são os reservatórios naturais do vírus da febre amarela. "Pesquisas mostram que o vírus da dengue pode ser transmitido verticalmente por várias gerações de mosquitos Aedes aegypti", aponta Oliveira. "Como o vírus da febre amarela pertence ao mesmo gênero (Flavivirus), talvez ocorra algo semelhante com ele."

 

O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB), ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), publicou uma nota técnica no início do ano passado para sublinhar que os macacos "têm um papel fundamental no controle da febre amarela em humanos, desempenhando o papel de 'sentinelas' sobre a circulação do vírus". No mesmo documento, recordam o relato de uma epidemia da doença na Colômbia, durante a década de 40. Não havia macacos na região: apenas marsupiais foram identificados com anticorpos de combate ao vírus.

 

O desaparecimento dos primatas tem ainda outro efeito indesejável. Os mosquitos do gênero Haemagogus, principais responsáveis pela transmissão da forma silvestre da doença, não gostam da escuridão e umidade do chão da floresta. Preferem o ambiente claro e seco das copas, onde encontram seu principal alimento: o sangue dos macacos. Mas, quando a fonte de nutrientes torna-se escassa, os insetos descem a procura de outros animais. Em tais situações, encontram o homem. O desmatamento também força uma mudança de hábito nos mosquitos, podendo aproximá-los das regiões habitadas.

 

Thaïs Leiroz Codenotti, da organização não-governamental Associação para Conservação da Vida Silvestre (Convidas), recorda o testemunho de professoras do ensino fundamental: alguns alunos da zona rural contaram que os pais pretendiam eliminar os bugios para afastar a ameaça da doença.

 

PROJETO PILOTO

 

Uma rede para sistematizar os dados de agressões a macacos durante epidemias de febre amarela será criada, afirma o biólogo Leandro Jerusalinsky, chefe do CPB. Em um levantamento preliminar, que reúne dados veiculados pela mídia desde 2007, o CPB reuniu 13 ocorrências de violência aos primatas durante surtos da doença, que resultaram em sequelas ou morte de 150 animais em oito Estados: Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pará, Tocantins, São Paulo, Goiás, Bahia e Distrito Federal.

 

"Mas os números estão bastante subestimados", pondera Jerusalinsky. Segundo o biólogo, a criação de mecanismos de notificação que possibilitem dimensionar o impacto da perseguição aos primatas é uma das prioridades da rede que o CPB pretende criar. Outras duas ações seriam identificar (e punir) os agressores e realizar campanhas de conscientização.

 

"Nosso projeto piloto será no Rio Grande do Sul, onde este processo já começou", afirma Jerusalinsky. "Também iniciamos contatos com o Instituto Florestal de São Paulo. Conversaremos com os demais Estados quando surgirem surtos locais de febre amarela."

 

VACINAÇÃO

 

A capital gaúcha passou a fazer parte da área de risco de febre amarela, que abrange 290 municípios do Rio Grande do Sul. A Secretaria Estadual da Saúde confirmou, por meio de testes de laboratório, que dois macacos encontrados mortos na vizinha Guaíba (RS) contraíram a doença. O secretário da Saúde, Osmar Terra, recomendou a vacinação a todos os moradores de Porto Alegre e cidades próximas, de forma preventiva.

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