Medidas para cortar CO2 da indústria do aço tiveram efeito inverso

Estudo mostra que estratégias utilizadas em siderúrgicas renderam créditos de carbono, mas acabaram dobrando as emissões

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2015 | 18h05

Uma pesquisa internacional concluiu que fracassaram, no Brasil, os esforços de mitigação das mudanças climáticas feitas pela indústria do aço. Em vez de reduzir a poluição por gases de efeito estufa, os programas realizados para cumprir as metas do Protocolo de Quioto dobraram as emissões de dióxido de carbono relacionadas às siderúrgicas.

O estudo foi publicado na revista Nature Climate Change e teve participação de cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade de Vermont (Estados Unidos), da Universidade de Queensland (Austrália).

"Na tentativa de reduzir as emissões de CO2, a indústria siderúrgica brasileira está fazendo uma transição do carvão convencional para o carvão vegetal neutro em carbono, proveniente de florestas plantadas", disse a autora principal do estudo, Laura Sonter, cientista da Universidade de Vermont.

"Nosso estudo concluiu que o aumento global da demanda por aço, combinada a uma falta de florestas plantadas disponíveis no Brasil, aumentaram o uso industrial do carvão vegetal extraído de florestas nativas, que não é neutro em carbono e emite até nove vezes mais CO2 por tonelada de aço que o carvão convencional", explicou a cientista da Universidade de Vermont.

O artigo mostra que o aumento do uso de carvão vegetal nativo na produção de aço dobrou as emissões de CO2, que passaram de 91 milhões para 182 milhões de toneladas entre 2000 e 2007 - mesmo com a diminuição do carvaão convencional nesse período. De acordo com os autores, a indústria siderúrgica gera cerca de 7% das emissões globais de CO2 produzidas pelo homem.

A iniciativa de trocar o carvão convencional por carvão vegetal proveniente de florestas plantadas na produção siderúrgica do Brasil foi realizada, a partir de incentivos financeiros, no âmbito do Protocolo de Quioto - o tratado climático global assinado pelo Brasil em 1998. Esses incentivos, por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) estabelecido no tratado, rendeu ao Brasil créditos de carbono por conta das florestas plantadas usadas na produção de aço.

Embora a conquista tenha sido comemorada no Brasil, o resultado só foi positivo quando se olha a indústria siderúrgica isoladamente, mas, ela não existe em um "vácuo político e econômico", segundo os cientistas. De acordo com eles, a produção de aço é parte de um sistema mais amplo, envolvendo outros usuários da terra geram emissões de CO2.

O estudo aponta que outros países produtores de aço também enfrentam riscos semelhantes de distorção da contabilidade de carbono. A China produziu cerca de metade do aço do mundo em 2012 e, assim como no Brasil, a produção siderúrgica chinesa também se qualifica para créditos de carbono sob o Protocolo de Quioto.

Os cientistas afirmam que, embora a estratégia de uso de carvão vegetal produzido a partir de florestas plantadas seja eficaz na redução de emissões de CO2, as políticas públicas precisam levar em conta todas as emissões - em especial as que são provenientes das mudanças de uso do solo - e não ser aplicadas a indústrias específicas de forma isolada.

No artigo, os pesquisadores sugerem a adoção de uma contabilidade de carbono "parede a parede", a fim de capturar todas as fontes de carbono nas paisagens - de forma que as reduções de emissões pelas indústrias não levem ao aumento de emissões em outros lugares.

Os pesquisadores destacam ainda que a descoberta vem um momento importante, já que que os tomadores de decisão estão se preparando para a 21a sessão da Conferência das Partes das Nações Unidas (COP-21), no âmbito da Convenção das Mudanças Climáticas, que será realizada este ano em Paris. Durante a conferência, espera-se que metas rigorosa de emissões sejam estabelecidas, a fim de evitar que a temperatura global aumente dois graus acima dos níveis pré-industriais.

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