Antonello Veneri/AFP
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Marinha considera crise do óleo estabilizada e deve desmobilizar parte das equipes nas praias

'Basicamente o que toca a praia hoje são vestígios. A quantidade é pequena', disse o almirante Marcelo Francisco Campos; de acordo com o Ibama, porém, número de localidades atingidas desde o fim de agosto continua subindo e chegou a 803

Mateus Vargas e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2019 | 13h02
Atualizado 30 de novembro de 2019 | 17h37

BRASÍLIA - A Marinha informou nesta sexta-feira, 29, que considera estabilizada a crise pelo avanço do óleo sobre o litoral brasileiro e deve enviar de volta ao Rio de Janeiro, a partir de 20 de dezembro, tropas que reforçam o combate ao desastre ambiental. 

"Basicamente o que toca a praia hoje são vestígios (das manchas de óleo). A quantidade é pequena. O que nos leva a falar que estamos vivendo período de estabilização", disse coordenador operacional do grupo de acompanhamento e avaliação da Marinha, almirante Marcelo Francisco Campos.

O monitoramento feito pelo Ibama, porém, aponta que o número de localidades atingidas continua subindo. Balanço desta quinta, 28, indica que já são 803. Ao todo, ao menos 126 municípios de todos os nove Estados do Nordeste, do Espírito Santo e do Rio de Janeiro foram afetados por fragmentos ou manchas de petróleo cru desde 30 de agosto. 

Em 20 de dezembro começará a segunda fase da Operação Amazônia Azul, com foco em ações de manutenção e controle, conduzidas por equipes locais da Marinha e agentes de Estados e municípios. As equipes do Rio, no entanto, devem seguir em alerta para retornar às praias em casos de emergências.

"Diria que situação hoje é controlada, maior parte das áreas atingidas hoje estão limpas. E quantidade de óleo que tem aparecido, é cada vez menor", afirmou o Campos. 

Com a decisão de desmobilizar tropas, devem retornar ao Rio os dois maiores navios da Marinha: o Bahia e o Atlântico.

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No começo de 2020, a Marinha deve começar a 3ª fase da operação Amazônia Azul, com ações de monitoramento nas praias. O governo usará equipes da "Operação Aspirantex", com agentes da Esquadra Brasileira, e da tradicional Operação Verão, que fará ações de prevenção da poluição hídrica. Nesta fase serão mobilizados 5 mil funcionários militares e civis.

Segundo o almirante Campos, há 19 dias não são encontradas manchas no mar. Na última semana, 99% das ocorrências são de vestígios do óleo, afirmou.

O almirante não descartou, porém, o retorno de grande volume de óleo às praias. "Em face do ineditismo dessa grave ocorrência, estamos nos preparando para tudo", disse.

Segundo Marcelo Amorim, do Ibama, a "área de interesse" das ações de combate ao óleo se estende por 4 mil quilômetros, sendo que em 800 quilômetros houve pontos atingidos.

O almirante Campos disse que segue como "uma das hipóteses" que o olho tenha sido derramado pelo navio grego Bouboulina. "Estamos até analisando naufrágios da época da 2ª guerra. Mas o mais provável é o trânsito de embarcações com derramamento desse óleo acidentalmente ou não", disse.

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Especialistas consideram prematura a decisão da Marinha de desmobilizar o efetivo de homens mantidos no nordeste para combater o derramamento de óleo na região. 

“Acho que é prematuro”, afirmou o ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc, deputado estadual no Rio de Janeiro. “A origem do vazamento ainda não foi identificada e a extensão do vazamento continua se ampliando. Além disso, o comitê do plano de contingência, tardiamente instalado, não fez o balanço de atividades, erros, omissões e falta de integração. Não há qualquer justificativa formal para a desmobilização. É mais um erro grave.”

O pesquisador Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), concorda com o colega. “Espero que pelo menos a parte científica não seja desmobilizada”, disse. “Acredito que o caso não está ainda finalizado, há muita coisa para se entender; não dá para sair enquanto o processo não estiver completamente elucidado do ponto de vista científico.”

O biólogo marinho Mauro Rebelo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem uma opinião diversa. “Para tudo existe um custo de oportunidade, e eu sempre gosto de me perguntar qual seria esse custo”, afirma Rebelo. “A gente fica indignado com as imagens das aves atingidas pelo petróleo, mas as duas principais causas evitáveis de morte de aves no mundo são o gato doméstico e a janela de vidro, que não deixam as pessoas indignadas. Então, se a questão for, por exemplo, proteger as aves, no que valeria mais investir?”

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