Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Maré dita as regras para tudo no recife

Duas vezes por dia, atol se enche de água, depois esvazia; paisagem passa de deserto de sal a um mar de esmeraldas

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo,

25 Setembro 2012 | 22h30

O Atol das Rocas é um ecossistema em constante transformação, tanto do ponto de vista geológico quanto biológico. Parece nunca descansar, com as cores e formas de sua paisagem mudando a cada clique do relógio. Às vezes parece um deserto de sal, em outras um mar de esmeraldas ou um aquário iluminado por lâmpadas mágicas de néon turquesa. Duas vezes por dia ele se enche de água, depois esvazia, como um pulmão oceânico. E quem não prestar atenção nesse vai e vem pode acabar perdido.

"Esse aqui é o nosso relógio", diz o biólogo Hudson Batista, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, apontando para uma folha de papel com a tábua de marés, colada na parede da base científica da reserva, ao lado da cozinha. Seja homem, ave ou tubarão, todos no atol têm de se curvar à vontade das marés. São elas que ditam as regras para tudo; para comer, caminhar, lavar a louça, pesquisar, navegar, acordar ou dormir, entrar ou sair.

O ponto mais alto do atol está apenas 3 metros acima do nível do mar. Na maré alta, as únicas partes que ficam fora d’água são duas ilhas rasteiras: a do Farol, onde está instalada a base de pesquisa, e a do Cemitério, onde pescadores, navegantes e faroleiros do passado costumavam enterrar seus mortos. Na maré baixa, pode-se caminhar quilômetros sobre um manto de areias brancas e mergulhar em piscinas naturais de um azul inacreditável, com vários metros de profundidade, formadas nas bordas mais espessas do platô recifal.

Só cuidado se estiver a pé, para não ser pego sem bote quando a maré subir.

As correntezas são fortes e arrastam areia – e eventualmente mergulhadores – para lá e cá todos os dias, moldando continuamente e metodicamente a morfologia do atol. O farol antigo, quando foi construído uns 80 anos atrás, ficava quase que no centro da ilha, com uma base de 3 metros de altura enterrada na areia. Hoje, suas ruínas estão na linha da praia, praticamente dentro d’água, com a tal base totalmente exposta e forrada de siris avermelhados, chamados aratus, que se mesclam com o tom ferruginoso da estrutura e escalam suas paredes com a agilidade de lagartixas.

A areia foi para outro lado, e os destroços submersos viraram refúgio de polvos e moreias, para infelicidade dos aratus.

A única parte do atol que fica sempre debaixo d’água é uma laguna na parte nordeste do recife, com até 6 metros de profundidade. Ela é conectada ao mar de fora por um cânion submarino cheio de corredores, túneis e cavernas, chamado Barretão, povoado por barracudas e tubarões, que também aproveitam para circular pelo resto do atol quando a maré está cheia. Da porta da base de pesquisa pode-se vê-los facilmente, cruzando como manchas escuras pelo canal de água cristalina que se forma entre as duas ilhas e que dá acesso a um outro cânion, menor, chamado Barretinha.

"Esse atol é muito louco", como gosta de dizer a chefe da reserva, Maurizélia de Brito Silva, em bom sotaque potiguar.

Inspiração

A única coisa imutável em Rocas é a admiração e a paixão que o lugar desperta em todos aqueles que o visitam. "Lembro-me de quando entrei no atol e vi aquela água supertransparente pela primeira vez; foi uma sensação indescritível", conta o oceanógrafo Paulo Oliveira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, que pesquisa tubarões e raias na reserva há mais de 15 anos, desde os tempos de graduação. "Quando pulei do bote e pisei na areia pela primeira vez, foi inevitável, as lágrimas rolaram."

"Trabalhar no atol é um deslumbramento contínuo, com momentos que beiram o conto de fadas", diz a bióloga Alice Grossman, que lá trabalhou por muitos anos com tartarugas-marinhas, pelo Projeto Tamar.

"É um ambiente totalmente único, diferenciado", diz o pesquisador Rodrigo Leão Moura, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Em que outro lugar do Brasil você vê tubarão da areia, sentado na praia?"

Moura fez seu trabalho de mestrado no atol, entre 1996 e 1998. Na época, as instalações da reserva resumiam-se a barracas, infestadas de ratos e escorpiões, e o equipamento de mergulho de Moura era um compressor de ar de pintura que ele adaptou em casa, conectado a uma mangueira e um respirador bucal.

"Eu levava o compressor no bote, conectava a manqueira e caía na água", lembra ele. O resultado foi o primeiro inventário da biodiversidade de peixes do atol, contendo 47 espécies. Hoje, sabe-se que há mais de cem, com certeza, além de várias outras ainda não catalogadas ou totalmente desconhecidas.

Diferencial

Apesar de a biodiversidade de Rocas ser relativamente pequena, comparada à de outros lugares (tem "apenas" 10 espécies de coral, enquanto que Abrolhos tem 20, por exemplo), o atol proporciona aos cientistas uma oportunidade única de pesquisar biodiversidade e ecologia marinha num ambiente verdadeiramente selvagem, sem poluição e quase que inalterado pelo homem – mesmo com a pressão da pesca e todas as tentativas de ocupar o atol no passado.

"Qualquer pesquisador vai te dizer que ter uma chance de estudar um organismo marinho num ambiente protegido como esse é um luxo", diz Alice.

O atol é especialmente ótimo para o estudo dos hábitos reprodutivos da tartaruga-verde, uma espécie que só desova em ilhas oceânicas. As águas rasas, protegidas e transparentes do interior do recife permitem observar os rituais de cópula com proximidade e nitidez inigualáveis. Também é possível coletar dados preciosos sobre jovens e machos; algo dificílimo de se fazer em outras condições, já que eles normalmente ficam em águas abertas e apenas as fêmeas adultas sobem às praias para desovar.

"É quase como um laboratório", diz a diretora técnica nacional do Tamar, Neca Marcovaldi. "Não é um lugar fácil de chegar nem de ficar, mas quando você chega lá as condições de pesquisa são únicas."

Fora da água, Rocas não perde a importância. O atol compõe, junto a Fernando de Noronha, o maior centro de reprodução de aves marinhas do Atlântico Sul.

Há cinco espécies residentes (uma de trinta-réis, duas de viuvinhas e duas de atobás), além de 25 itinerantes. E não há como não notá-las. Quem manda nas ilhas do atol são elas. Os trinta-réis e as viuvinhas-marrons, que são os mais numerosos, falam sem parar, ocupam cada metro quadrado de areia ao redor da base de pesquisa, e adoram voar pertinho de nossas cabeças, como se fossem pousar nelas, toda vez que saímos para caminhar. As varandas da casa tiveram de ser revestidas com redes, para não serem dominadas por elas.

"A sensação aqui é que a gente é que está numa gaiola", diz Leandra Gonçalves, coordenadora do Programa Costa Atlântica da SOS Mata Atlântica – que pagou pela base. "O ambiente é delas. Claramente, nós é que somos os invasores."

Todos concordam: esse atol é mesmo muito louco.

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