WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Manguezais perdem 20% de sua área em 15 anos

Mapeamento inédito revela alterações sofridas por todos os biomas do Brasil no século 21; perdas no Pantanal e no Cerrado também chamam a atenção

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2017 | 02h00

Um mapeamento inédito que será lançado nesta sexta-feira, 28, mostra como evoluiu, nos primeiros 15 anos deste século, a cobertura e o uso do solo em cada pedacinho do Brasil. Outros monitoramentos feitos por satélite já mostram a evolução anual do desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica, mas pela primeira vez será possível ver as variações que vêm sofrendo, a cada ano, todos os biomas do País, e as transformações do território brasileiro.

O trabalho, apelidado de MapBiomas (Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil), revela que os manguezais, sensível ecossistema costeiro que serve de berçário para espécies de peixes, crustáceos e moluscos, perdeu de 2001 a 2016 20% de sua área, em parte por causa da expansão urbana. 

O Pantanal, considerado o bioma brasileiro mais preservado, perdeu 13% da sua área nativa com a conversão de seus campos naturais, historicamente usados pela pecuária tradicional, e considerada mais sustentável, por pastagens plantadas com grama exótica para a intensificação do gado.

Já o Cerrado, entre 2001 e 2013, perdeu em savanas e florestas 6.700 quilômetros quadrados por ano, em média. É uma taxa três vezes mais rápida do que na Amazônia, quando se leva em conta o total remanescente do bioma (o Cerrado que ainda existe tem cerca de um terço do tamanho da Amazônia).

Essa perda no Cerrado acaba tendo efeito também no Pantanal, explica Marcos Rosa, da ArcPlan, responsável por Mata Atlântica e Pantanal no MapBiomas. Segundo ele, isso porque os rios do bioma úmido nascem todos ou no Cerrado ou na Amazônia. O desmatamento no entorno desses rios acaba fazendo com que mais sedimentos desçam para o Pantanal, alterando o sistema hidrológico tradicional de cheias e secas. Tem áreas que ficam muito mais tempo cheias do que o normal. Outras que antes enchiam, agora não enchem mais. "Nessas que ficaram secas, tem muito fazendeiro tirando os campos naturais para colocar pastagem exótica", afirma.

A única boa notícia ficou por conta da Mata Atlântica. Bioma sistematicamente devastado desde o início da colonização do Brasil, e que hoje se espalha por apenas cerca de 12,5% de sua área original, teve um ganho de 2,5 milhões de hectares neste período, principalmente por causa de programação de restauração florestal e regeneração natural de áreas que, com o tempo, foram sendo abandonadas. É quase uma Bélgica recuperada.

O MapBiomas - resultado de um esforço de 18 instituições, entre ONGs, universidades e empresas de tecnologia, capitaneadas pelo Observatório do Clima - tem como objetivo mostrar como evoluiu a cobertura vegetal e o uso do solo neste começo de século.

Google. Alimentando com imagens de satélite de 2000 a 2016 uma plataforma do Google chamada Earth Engine, a mesma que faz o Google Earth e o Waze, o grupo conseguiu identificar o que é cada pedaço (ou pixel) de 30 x 30 metros no Brasil - se é floresta, ou pasto, ou cultivo agrícola, por exemplo.

"Temos um mapa para cada ano mostrando o que é cada um dos 9,5 bilhões de pixels do Brasil. Estamos contado uma história de cada um deles", explica o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas. Segundo ele, é o primeiro mapeamento do tipo em todo mundo.

A mágica, explica ele, é que a ferramenta permite uma classificação automatizada para identificar o que é cada pixel - o computador é treinado para identificar o que é cada local e se contou com um sistema de processamento gigante de 1 milhão de servidores do Google. Outros mapeamentos que existem com essa proposta trabalham com uma classificação visual e com uma capacidade de processamento muito menor, e, portanto, muito mais demorada. 

A ferramenta, que estará disponível na internet para quem quiser trabalhar com esses dados, vai permitir calcular, por exemplo, a taxa de perda de cobertura florestal (primária e secundária) em todo o Brasil ao longo do período de 2001 a 2016. A expectativa é, com o tempo, ampliar esse banco de dados incluir mapas desde 1985, com atualizações anuais.

"A ideia original era ter dados para calcular com mais precisão as emissões de gases de efeito estufa por mudança do uso do solo, mas será possível calcular uma série de coisas, como o nível de restauração das florestas (para ver se o Brasil está cumprindo suas metas), a expansão da desertificação no Nordeste ou calcular a intensidade de animais por pastagem. Isso para cada município brasileiro e ao longo do tempo, o que vai mostrar quem está intensificando a pecuária ou diminuindo, o que pode indicar uma transição para outros locais", afirma Azevedo.

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