Norman Gall
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Mais grandes muralhas

Ao longo dos séculos, o assoreamento levantou leito de rio chinês cerca de 10 metros acima de sua planície de inundação

Norman Gall, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2012 | 09h18

"O que fazer se as águas do Rio Amarelo se elevarem?", perguntou o presidente Mao à sua comitiva, de pé sobre uma colina com vista para o grande rio, chamado de Mãe da Civilização Chinesa, em 1952, em seu primeiro tour de inspeção do país após décadas de guerra e revolução.

O Rio Amarelo é quase único, por causa da enorme carga de sedimentos transportada dos Planaltos de Loess ao norte da China (mais de 1 bilhão de toneladas ao ano), que aumentou com o tempo. Ao longo dos séculos, o assoreamento levantou o leito do rio cerca de 10 metros acima de sua planície de inundação a jusante em alguns lugares. Inundações frequentes e mudanças no seu curso levaram à construção de diques extensos a partir do século 7 a.C., agora chamados de "a segunda Grande Muralha da China", que se estendem por várias centenas de quilômetros.

Cortar florestas para limpar terrenos para culturas intensificou a erosão e adicionou mais sedimentos aos rios. Durante séculos, canais e aterros foram reforçados muitas vezes, acumulando mais sedimentos. Quando o rio subia após chuvas pesadas ou os diques falhavam por falta de reparos, as águas transbordaram o canal assoreado para inundar a paisagem do entorno, um drama que se repetiu muitas vezes na história da China.

Em sua grande obra, Science and Civilization in China, Joseph Needham observou que "a engenharia hidráulica chinesa aprendeu na difícil escola dos vales do Rio Amarelo, enfrentando problemas que mesmo a tecnologia moderna ainda não resolveu".

Desde 1949, tanta água foi desviada do Rio Amarelo por projetos hidráulicos que o fluxo se enfraqueceu e não conseguia mais carregar sedimentos corrente abaixo. Em anos secos, começando em 1972, o grande rio falhou em alcançar o mar. Em 1997, foi estabelecido um novo recorde quando o canal do Rio Amarelo permaneceu seco por 226 dias, ao longo de 700 quilômetros desde sua foz na Baía de Bohai.

Segundo Vaclav Smil, analista da ecologia da China, "inundações e secas destrutivas moldaram o curso da civilização chinesa tanto quanto a irrigação extensiva e a dependência do transporte de água".

Na Bacia do Rio Yangtze, graves inundações acontecem aproximadamente a cada década nos últimos 2 mil anos, produzindo cenas como a descrita em 1950 pelo governador da província de Anhui, em um relatório para Mao: "Milhares de pessoas não têm como escapar. Algumas subiam nas árvores, mas depois caíam na água e se afogavam. Outras foram mordidas por cobras venenosas, que também buscaram segurança nas árvores. Algumas subiram em barcos que foram rapidamente virados pela força das águas de inundação e pelas ondas enormes."

A resposta à pergunta de Mao veio rapidamente de Wang Huayun, chefe da Comissão de Conservação do Rio Amarelo, que propôs um grande esquema alinhado com o entusiasmo da China por grandes projetos: "Se as 30 usinas previstas para a corrente principal forem concluídas, a capacidade total de reservatório deve ter entre 200 bilhões e 300 bilhões de m³. Nessas condições, se pouco ou mesmo nenhum esforço for colocado para controlar a erosão do solo e se nenhum reservatório for construído sobre os afluentes, as grandes barragens podem funcionar por elas mesmas por mais de 300 anos".

Barragem. As complicações embutidas na resposta à pergunta de Mao vieram com a construção da Barragem de Sanmenxia, em um desfiladeiro que abraçava corredeiras criadas por duas ilhas de granito logo abaixo da curva grande do Rio Amarelo, perto de Xi’an, quando o rio começa sua descida para o mar. A construção começou com a realocação de 870 mil pessoas em 1958, junto com o lançamento do Grande Salto de Mao.

A sequência tipo "escada" de 29 barragens na Bacia do Rio Amarelo, para controle de cheias, irrigação e energia elétrica, foi projetada por engenheiros soviéticos que subestimaram o volume de sedimentos que se acumulariam. Em 1964, quatro anos depois da conclusão da barragem e antes que a eletricidade fosse produzida, acumulou-se uma "barriga" de 2 bilhões de toneladas de sedimentos. O leito do rio subiu dramaticamente, ameaçando inundar Xi'an e a planície em volta. Alarmado, Mao disse ao premiê Zhou Enlai: "Se nada funcionar, exploda a barragem". Foram quatro décadas de reparos para evitar a inundação de cidades vizinhas e da paisagem circundante.

O assoreamento e o sobrefluxo da Barragem de Sanmenxia foi apenas o começo dos problemas de água de Xi’an. Alastrando-se muito além de suas antigas muralhas, a população de Xi"an triplicou nos primeiros 25 anos após a fundação da República Popular, em 1949, e mais que dobrou novamente desde 2000 para abraçar quase 9 milhões de pessoas.

Poluição. O Rio Wei, que passa por Xi’an antes de desaguar no Amarelo, tradicionalmente a maior fonte de água superficial da cidade, tornou-se tão poluído que a água de 9 das 13 estações de monitoramento foi classificada como imprópria para qualquer uso. Por isso, a população de Xi’an tem cavado poços tão intensivamente que as perfurações levaram a um afundamento de terra, notado pela primeira vez na década de 1960, que tem se intensificado desde então.

Com o Amarelo e seus afluentes secos, o governo municipal perfurou milhares de poços para extrair água subterrânea e criou túneis nas Montanhas Qin da Província de Shaanxi para desviar as águas de outros rios. Os milhares de poços causaram fissuras e crateras superficiais e funis e cones subterrâneos, danificando edifícios, tubulações, instalações elétricas, pontes e calçadas. A terra afundou mais de 2 metros em vários locais numa área de 155 km².

Enquanto a cidade crescia de forma espetacular, o problema da água atingiu duramente a Planície Norte da China, como observa Ma Jun, autor de China’s Water Crisis (2004): "Os projetos de desvio de água foram construídos desenfreadamente com pouco ou nenhum respeito pelo custo, enquanto a destruição das florestas, que ofereciam a maior proteção dos recursos hídricos, não foi observada. A erosão do solo em Shaanxi hoje afeta quase metade da quantidade total de terra erodida no país. Também produz 920 milhões de toneladas de sedimentos por ano, um quinto da erosão do solo no país. A situação foi agravada pelas secas que assolaram Shaanxi ao longo das últimas décadas.

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