Marylise Vigneau/The New York Times
Marylise Vigneau/The New York Times

Maior traficante de pássaros exóticos do mundo se arrepende e busca vida nova

Johann Zillinger conta sobre as particularidade desse comércio multibilionário, suas prisões e afirma: as aves são um vício, ‘como fumar, como tomar café ou álcool’

Denise Hruby, The New York Times

01 de dezembro de 2020 | 10h00

WEIDEN NA DER MARCH, ÁUSTRIA – Em uma noite úmida no aeroporto de Fortaleza, Johann Zillinger, traficante de animais silvestres, estava de olho no seu novo subordinado. Um trabalhador braçal de 24 anos, que promovera a contrabandista alguns dias antes, prometendo-lhe uma viagem de graça para a Europa e US$ 2 mil em dinheiro.

Mas o jovem suava muito, e Zillinger ficou com medo de que ele pudesse despertar suspeitas. Por fim, decidiu seguir em frente. “Dei para ele duas carreiras de cocaína e falei: ‘Vamos lá’ ”.

Zillinger não precisava de drogas. Sempre em trajes de homem de negócios, ele passava sem problemas pelo controle dos passaportes e da segurança, dezenas de vezes, os milhares de aves exóticas que contrabandeava sem despertar suspeitas.

Mas naquela noite de 2002, os policiais alfandegários de Fortaleza, encontraram depois de uma denúncia anônima, 47 ovos de araras ameaçadas de extinção enfiados em meias de náilon e enroladas na cintura dos dois. Os agentes descobriram também 20 aves vivas na bagagem de um terceiro cúmplice.

Uma foto publicada em um jornal local mostra o jovem ajudante cobrindo o rosto, enquanto Zillinger olha diretamente para a câmera. No artigo respectivo, agentes da Interpol o descrevem como um dos maiores traficantes de animais silvestres do mundo, um austríaco corpulento que, somente naquele dia, admitiu querer contrabandear animais por um valor superior a US$ 350 mil.

O comércio multibilionário de animais silvestres é a razão fundamental da extinção de algumas espécies, segundo um estudo realizado por cientistas americanos e britânicos. Mas Zillinger disse que nunca trabalhou pelo dinheiro. Ao contrário, ele queria criar as aves mais difíceis de apanhar. As aves são um vício, “como fumar, como tomar café ou álcool”, afirmou.

O vício não se modificou durante os quatro meses passados em uma prisão no Brasil rural, depois da prisão, onde o seu conforto estava reduzido a um balde. Retornou ao seu comércio ignóbil e disse que parara só recentemente; agora estava se dedicando à criação de espécies raras e construindo um zoológico.

Na primeira vez em que nos encontramos em sua modesta casa no interior da Áustria, Zillinger pegou uma pequena xícara em uma cristaleira e improvisou um ninho para um filhote ainda implume. A avezinha gritava para ser alimentada manualmente. Cuidar de aves foi algo que lhe foi inculcado pelo pai, que fazia telhados e era um ávido criador de pombos correio, e lhe dera duas cacatuas brancas quando era ainda adolescente.

Ele começou a contrabandear aves raras por acaso. Quando adolescente e amante de aventuras, ele estava ansioso por conhecer as mulheres bronzeadas da praia de Copacabana quando um encontro com um aficionado por papagaios da Suíça mudou a sua trajetória.

Zillinger lembrava da proposta: Contrabandeando aves para a Europa, suas viagens se pagarão sozinhas, e você poderá ficar com algumas para criar. Negócio feito.

Subiu nas árvores até os ninhos de araras azuis no Pantanal e convenceu comunidades nativas da árida caatinga do nordeste do Brasil a mostrar-lhe as últimas araras de lear do mundo. Às vezes, ele cavava um buraco, entrava nele e cobria-o de bambus, folhas e frutas doces. “Quando a ave pousava sobre ele, a agarrava e a puxava para baixo”.

Nos primeiros anos, Zillinger conseguiu passar pela alfândega brasileira com as aves, subornando alguns funcionários. Com o tempo, entretanto, as exigências das autoridades do aeroporto subiram demais, disse Zillinger, e ele se concentrou nos ovos. Presos no seu corpo, os ovos se mantinham aquecidos cruzando o oceano até Portugal, onde ele os transferiria da incubadora humana para a convencional.

A parte mais difícil, contou, era não quebrá-los. “Perdíamos 10%, mas apesar disso, o esquema funcionava perfeitamente”.

O problema para a lavagem de animais, disse Zillinger com ironia, é a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES, na sigla em inglês), adotada em 1975 para garantir que o comércio legal de animais silvestres não leve à extinção das espécies. Estas podem ser comercializadas somente quando obedecem a uma das várias exceções. A exceção crucial para os traficantes é a criação em cativeiro.

Zillinger e ouros traficantes descobriram que poderiam obter um documento deste tipo válido para disfarçar os animais como criados em cativeiro. Eles precisavam apenas afirmar que eram, e, depois de tantas declarações mais incríveis, os agentes emitiriam a papelada que declarava as aves contrabandeadas nascidas como em cativeiro. Os agentes do CITES admitiram que estes documentos foram emitidos de maneira ilegal.

Com a retirada das fronteiras da Europa no início de 1995, Zillinger disse, “isto abriu as comportas”.

Ele declarou que o seu trabalho era financiado em grande parte por um próspero médico vienense que adorava as cacatuas das palmeiras e as araras azuis, enquanto ele servia de correio para clientes e intermediários de toda a Europa, todos dispostos a pagar dezenas de milhares de dólares pelas araras raras.

Ele riu da comparação com outros tipos de contrabando. “Para quê iria contrabandear drogas ou armas? São uns idiotas. Com os animais silvestres, os lucros são muito maiores, e não há risco nenhum”.

Ou quase nenhum. Há cinco anos, em uma rodovia de Portugal, Zillinger foi parado em uma operação aparentemente de controle do trânsito aleatória, que na realidade era o ápice de uma investigação que levara meses.

Por causa da vigilância que vinha sendo exercida, os policiais sabiam que ele estava transportando duas araras de lear, presas em uma caixa enganchada ao seu isqueiro, à temperatura estabelecida  de 38ºC. Como restam apenas 250 destas araras na natureza, o preço de mercado é estabelecido pela oferta mais alta. Zillinger as adquiriu a cerca de US$ 8 mil cada uma, mas disse que seriam revendidas a várias vezes o valor.

Em telefonemas grampeados à sua namorada da época, que acabaram sendo reveladas no processo seguinte, Zillinger exibiu uma variedade de sentimentos, desde confusão a tédio até a solene afirmação de que  ele estava “definitivamente acabado”. Deu instruções para alertar os seus sócios, então encerrou o último telefonema do banco de trás da viatura policial. “Beijos e adeus”, ele disse, humilhado e entristecido.

O tribunal de Lisboa o considerou culpado por tráfico, juntamente com três sócios portugueses. Depois de passar quase um ano na cadeia em Portugal, ele decidiu sair do ramo. Mas, disse Zillinger, isto se mostrou mais difícil do ele pensava. O seu financiador exigiu que ele devolvesse ou pagasse US$ 35 mil em custos operacionais.

Foi então que Zillinger se tornou informante.

“Ele estava muito abatido, e queria sair”, disse Thomas Engel, um agente rodoviário da alfândega austríaca. Foram necessárias seis horas para transcrever o depoimento de Zillinger, que deu origem a várias outras investigações amplas – mandado de busca em diversas propriedades; quase 100 confiscadas, araras de grande valor; gravações, e mais de 50 calhamaços de arquivos sobre o caso.

O seu ex-financiador, que não respondeu aos pedidos de comentários da reportagem, foi preso segundo a lei austríaca sobre tráfico de animais silvestres e contrabando de espécies protegidas, e multado em US$ 43,2 mil. “Acha que isto preocupa uma pessoa que ganha meio milhão de dólares ao ano?”, perguntou Zillinger.

No recurso, a multa baixou para US$ 41 mil, mas a sentença foi mantida. Na maior parte dos dias, Zillinger se mantém ocupado com o seu mais recente empreendimento: a criação de um pequeno zoológico. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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