Maias tentam superar mudanças climáticas

Com aumento das secas e da temperatura, comunidade mexicana tem enfrentado problemas para plantar e garantir sustento

Afra Balazina - enviada especial a Cancún, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2010 | 19h11

A base da alimentação da comunidade maia em Tabi, no Estado de Quintana Roo, no México, é o milho. Muitos dos indígenas chegam a comer o cereal até três vezes por dia, puro ou na forma de tortillas. Mas tem ficado cada vez mais difícil para eles trabalharem no campo, por causa do calor excessivo e da incerteza das chuvas.

 

FOTOS: AINHOA GOMA/OXFAM

 

Não há irrigação no local e não se usa maquinário nem animais na produção agrícola – em razão do alto preço e porque o solo da região é muito pedregoso. Parte do grupo vive em casas de madeira cobertas de palha. Outra parte tem moradias de alvenaria. A rotina dos homens na comunidade sempre foi ir para a plantação por volta das 7 horas e retornar às 15 horas. Agora, os índios afirmam que não conseguem aguentar o sol forte e, por isso, têm iniciado mais cedo o trabalho, às 4h30, e voltado entre 11 horas e meio-dia.

 

Em 2010 as chuvas foram boas, mas nos anos anteriores eles sofreram ou com as secas ou porque a precipitação ocorria fora do período em que precisavam semear.

 

Os membros da comunidade acreditam – até mesmo os mais velhos, que falam apenas a língua nativa e não sabem espanhol – que são vítimas das mudanças climáticas. A dona de casa Araceli Batisda Be, de 31 anos, diz que ouviu falar de aquecimento global pela primeira vez há cerca de dois anos, na televisão. E que, para ela, só essa pode ser a explicação para as alterações observadas. De acordo com Araceli, os homens começaram a ter muita dor de cabeça e alguns até vomitavam ao trabalhar no período da tarde, o que não acontecia antes.

 

Tabi fica a cerca de três horas de Cancún, onde ocorreu a Conferência do Clima da ONU (COP-16). Na semana passada, alguns dos índios participaram de uma manifestação de agricultores para cobrar dos negociadores dos diversos países respeito aos direitos dos indígenas que dependem da terra e da floresta para sobreviver.

 

Adaptação. Para tentar aumentar a produtividade e agora mais conscientes da questão ambiental, 40 famílias das 105 existentes na área mudaram a forma de plantar. Adeptos da tradição de derrubar a floresta e queimar as árvores para limpar o terreno, hoje eles evitam fazer isso. Era comum, por exemplo, usarem a terra por dois anos e depois deixarem o terreno descansar por oito – o que gerava a necessidade de abrir mais uma área de mata.

 

Victoria Santos, diretora técnica da União Nacional das Organizações Regionais Campesinas Autônomas (Unorca), ensinou a eles uma maneira diferente de plantar. Ainda que bem básica, o método tem dado resultado positivo a quem experimentou.

 

Com o auxílio de ferramentas simples, eles revolvem o solo, fazem sulcos e usam matéria orgânica como fertilizante. Junto com o milho, plantam feijão, abóbora e pimenta. A reportagem viu a diferença no tamanho do milho – onde é feita a chamada milpa maya mejorada (campo de milho maia melhorado), a espiga fica bem maior. “É um trabalho pesado, porque é tudo feito com as nossas mãos”, diz Candelario Beh Pat, de 64 anos.

 

Porém, se não houver chuva no momento e na quantidade certa, a colheita é perdida. Francisco Tun Poot, de 48 anos, teve de semear duas vezes em 2009 por causa disso. O problema maior para eles é quando não chove em maio: felizmente, não foi o caso neste ano.

 

 

Clima. Apesar de não haver um registro histórico grande, os dados meteorológicos da Comissão Nacional de Água corroboram a sensação dos indígenas. No caso da chuva, a média mensal de precipitação em 2009 foi de 87 milímetros, enquanto em 1993 foi de 145 milímetros. Já a temperatura máxima em 2009 foi de 33,5°C, e a mínima, de 21,8°C. Em 1993, a máxima foi de 31,9°C e a mínima, de 20,2°C.

 

“Antes, as chuvas eram mais suaves e duravam várias horas. Agora, são torrenciais e rápidas”, conta Victoria. A comunidade também teme que os eventos extremos se tornem mais comuns. A região foi alvo do furacão Dean em 2007, classificado como de categoria 5 (a máxima na escala). Cancún, por exemplo, sofreu com o furacão Wilma, em 2005.

 

Para Antonio Hill, da ONG Oxfam, as comunidades indígenas, que geralmente estão entre as mais excluídas, precisam de mais apoio para se preparar para as mudanças climáticas. Ele ressalta que medidas simples causam grande efeito. “Eles podem não conhecer a ciência, mas sabem que algo está mudando. Apesar de tentarem impactar menos o ambiente, não têm um agrônomo para explicar o que devem fazer nem têm apoio do governo para irrigar.”

 

Por isso, diz Hill, é tão importante que reuniões como a COP-16 tenham resultados tangíveis. “As mudanças climáticas não esperam as lentas negociações para aparecer.”

 

Índios vendem chiclete, mel e madeira

 

Os maias têm como atividade principal a agricultura, mas também se mantêm com outros afazeres. Um deles a produção de chiclete. A goma de mascar é feita a partir do látex retirado da árvore Manilkara zapota, chamada de chicozapote. A espécie é abundante no Estado de Quintana Roo. A atividade de extrair o látex mantém a árvore em pé e é pouco danosa ao ambiente.

 

O chiclete natural teve seu auge em décadas passadas – as fibras sintéticas fizeram com que ele tivesse uma queda no mercado. Nos últimos anos houve um aumento da demanda, porém ainda não no volume da capacidade de produção. Tanto que, apesar de terem permissão de fazer a extração, muitos extrativistas desistem, porque o preço não compensa.

 

Uma parcela dos maias em Tabi há quase 25 anos faz manejo sustentável da floresta – eles exploram com autorização do governo apenas algumas das árvores em cada hectare. Dessa forma, a mata consegue se manter viva. A selva que circunda as moradias dos indígenas é menos imponente que a nossa Mata Atlântica e a Amazônia e tem árvores de menor porte, mas possui grande riqueza. É impressionante a quantidade de borboletas das mais variadas espécies e cores no local.

 

Além de vender madeira, alguns índios produzem mel orgânico – mas não têm dinheiro suficiente para certificar o produto como sendo livre de agrotóxicos. Ainda criam galinhas e porcos, têm árvores de frutas e quase nunca vão ao mercado fazer compras – a não ser quando ocorre alguma festa importante. (A.B.)

 

A repórter viajou a convite da Conferência do Clima da ONU

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