Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Mãe e filha têm 16 botos 'de estimação' no Rio Negro

Convívio com animais míticos da Amazônia já dura 13 anos

Karina Ninni, Especial para O Estado

05 Junho 2010 | 00h06

Na tradição amazônica, o boto é um animal mágico, que toma a forma de um homem e enfeitiça as moças do interior. Usa sempre um chapéu para esconder o furo na cabeça (por onde o mamífero respira). Diz a lenda que as meninas encantadas pelo boto nunca se casam.

 

Para Marisa Granjeiro, hoje com 21 anos, a história tem um quê de verdade. Marisa mora em Novo Airão (AM), a 115 quilômetros de Manaus, onde a mãe, Marilda Medeiros, tem uma casa flutuante no Rio Negro. O lugar virou ponto turístico até para visitantes do exterior porque atrai todos os dias 16 botos cor-de-rosa (chamados no Norte de botos vermelhos), que aparecem atrás de comida e – segundo mãe e filha – de carinho também, como se fossem bichos de estimação.

 

“Eu tinha uns 9 anos e estava na água, brincando. Eles viviam em volta, mas não se aproximavam. Até que um dia, um deles chegou perto”, lembra Marisa. “Minha mãe dizia: ‘Menina, sai de perto, eles encantam’.” Hoje as duas costumam brincar dizendo que Marilda tinha razão. Marisa já tem uma filha de quase 2 anos de idade e não se casou com o pai da menina.

 

Marisa diz que começou a alimentar os botos e eles passaram a frequentar os arredores da casa. Naquela época, o flutuante ficava em outro ponto do rio, onde Marilda mantinha um pequeno restaurante. “Minha mãe ficava meio brava, porque eu pegava os peixes do restaurante para dar para eles”, conta. Para dar de comer aos novos amigos, Marisa teve de recorrer a bicos. “Montei uma barraquinha onde vendia bala, doce, chiclete, churrasquinho. Tudo para poder comprar peixes e alimentar os botos.”

 

Hoje todos os mamíferos ganharam nomes, geralmente homenagens a conhecidos da família. Tem o boto Cauã, a fêmea Vi, um Rafinha e até um bíblico Jeremias. Marilda rendeu-se aos amigos aquáticos da filha: diz que desativou o restaurante para não jogar óleo de cozinha na água nem vende mais cerveja. “Tivemos de adaptar o flutuante a eles. A cerveja era um problema. O pessoal vinha aqui, bebia, ficava de porre e queria dar cerveja para os bichos, maltratar. Isso, não deixo”, diz.

 

A principal atividade da comerciante hoje é receber turistas, para quem vende pedaços de peixe cru com os quais os botos são atraídos. Cada visitante paga R$ 15 por um prato com aproximadamente dez pedaços de peixe, geralmente jaraqui, muito comum e barato na região.

 

Em julho – época de férias escolares e alto verão na Amazônia – o fluxo de turistas é maior. “A gente costumava fazer ‘educação ambiental’ com as crianças das escolas aqui. Trazíamos as classes, fazíamos bolo com refrigerante e a garotada aprendia um pouco mais sobre os botos vermelhos”, conta Marilda.

 

Segundo a mãe, desde que a filha começou a ter contato mais estreito com os botos, há 13 anos, a comunidade parou de maltratar e matar os animais. “Os pescadores não gostam dos botos, os bichos comem os peixes e atrapalham a pesca. Quando não matavam, as pessoas maltratavam mesmo, à toa. Colocavam toco de madeira no buraquinho que ele tem na cabeça, davam paulada, até tiro. Usam muito boto morto como isca.”

 

Especialista em mamíferos aquáticos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a pesquisadora Vera da Silva veja perfil na página 10) afirma que o uso da carne do boto cor-de-rosa como isca é algo relativamente novo. Segundo Vera, isso ocorre principalmente para a captura de uma espécie que não faz parte da alimentação dos ribeirinhos amazônicos, mas é muito apreciada no Sul e Sudeste do País: a piracatinga. “Ela é conhecida como ‘urubu do rio’, porque gosta de carne de peixe morto. O uso do boto para a captura da piracatinga tem aumentado muito. Se não encontrarmos uma alternativa para os pescadores, ainda que seja uma isca artificial, vamos condenar os botos ao desaparecimento.”

 

Vera conhece o flutuante de Marilda. Diz que o convívio da família e dos turistas com os animais é positivo, mas precisa ter regras. “Para começar, não pode ser todos os dias. Tem de regular o número de pessoas, a quantidade de peixes que se dá a eles. Os animais, quando em contato seguido com seres humanos, ficam estressados, podem até machucar alguém.”

 

Mas a maior preocupação de Marisa e Marilda agora é com o porto construído bem ao lado do flutuante – bancada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. a obra custou R$ 15 milhões. Em outubro, o Ministério Público Federal pediu a interdição do projeto. Alegou que a instalação do porto naquele local atrapalharia o turismo, já que Novo Airão é porta de entrada para o Parque Nacional das Anavilhanas. Mesmo assim, a obra foi concluída.

 

“Tanto lugar para colocar isso e tinha de ser aqui”, reclama Marilda. Pelo jeito, o flutuante vai ter de mudar de lugar novamente.

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