REUTERS/ Yana Paskova
REUTERS/ Yana Paskova

Sem Brasil, Macron lança na ONU aliança para proteger florestas tropicais

Presidente francês criticou nesta segunda-feira, 23, ausência brasileira na iniciativa, mas insistiu que o País é 'bem-vindo'

Beatriz Bulla, Giovana Girardi* e Paulo Beraldo**, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2019 | 15h26

Nova York - Um encontro entre diversos líderes internacionais no âmbito da Cúpula do Clima da ONU debateu nesta segunda-feira, 23, os rumos das florestais tropicais no mundo, Amazônia sendo a maior delas, sem a presença do governo brasileiro. O encontro, liderado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, contou com apenas o governador do Amapá, Waldez Góes, como representante brasileiro, mas mesmo ele, que tinha chegado a ser convidado por Macron a se pronunciar, acabou não tendo espaço de falar após oposição feita pelo governo da Colômbia.

Conforme o Estado apurou, houve uma pressão do Itamaraty para que Góes não falasse visto que o governo federal não estaria presente. O evento ocorreu de manhã, e o presidente Jair Bolsonaro só chegaria à tarde. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, porém, está em Nova York, assim como o chanceler Ernesto Araújo, que preferiu participar de um evento do Grupo de Lima e depois de uma reunião sobre liberdade religiosa.

Macron, que disse se sentir no direito de comentar sobre a Amazônia por causa da Guiana Francesa, criticou a ausência do Brasil, que detém mais de 60% de todo o bioma amazônico, dividido com outros 8 países.

“Riscos? Francamente, tem um primeiro... Todo mundo pergunta: como vai fazer sem o Brasil? O Brasil é bem vindo, eu acho que todos devem trabalhar com o Brasil, com os Estados da região. É bom que isso aconteça de forma respeitosa. As próximas semanas permitirão uma solução política que será um avanço.”, afirmou. 

Depois o francês, que vem se indispondo desde a reunião do G7 com Bolsonaro, questionou o posicionamento do País em relação ao Fundo Amazônia: "A gente se reúne, tem números, palavras, mas nada de resultado. Quando eu olho para as coisas, o que me inquieta é o Fundo Amazônia, que foi suspenso porque o Brasil não cumpriu a integralidade dos critérios que foram definidos”, disse se referindo à suspensão de parte dos repasses por Noruega e Alemanha, os dois principais colaboradores do fundo.

Depois, Macron ainda questionou o posicionamento do País em relação ao Fundo Amazônia: "A gente se reúne, tem números, palavras, mas nada de resultado. Quando eu olho para as coisas, o que me inquieta é o Fundo Amazônia, que foi suspenso porque o Brasil não cumpriu a integralidade dos critérios que foram definidos”, disse se referindo à suspensão de parte dos repasses por Noruega e Alemanha, os dois principais colaboradores do fundo.

Ao Estado, Góes, que estava representando os Estados da região como presidente do Consórcio da Amazônia Legal, disse achar uma “pena” não ter tido chance de se pronunciar. “É um debate importantíssimo, vimos pessoas do mundo inteiro se posicionando sobre a Amazônia e não teve ninguém do governo brasileiro falando. E nós, que vivemos na floresta, que temos responsabilidade sobre a floresta, não pudemos ser ouvidos”, afirmou.

"Discutir aquecimento global, clima, o papel da Amazônia nisso e não ter a voz do Brasil quando havia a oportunidade de falar e foi dificultado de alguma forma é uma pena. Não é assim que se constrói soluções para os problemas", disse.

No evento, falaram pela região os presidentes da Colômbia, Iván Duque, da Bolívia, Evo Morales. Antes, alguns pesquisadores que estudam florestas e biodiversidade também se manifestaram, mas tampouco havia algum cientista brasileiro. O ator Harisson Ford, que é vice-presidente da ONG Conservação Internacional, também pediu pela floresta. “Estamos falando sobre salvar a Amazônia faz 30 anos, há 30 anos teve o concerto do Sting aqui em Nova York e ainda estamos falando disso. A floresta é crucial para qualquer solução para as mudanças climáticas por sua capacidade de sequestrar carbono, por sua biodiversidade, por sua água fresca. E está pegando fogo. Quando um quarto nas nossas casas está pegando fogo não dizemos que é o quarto, mas a casa está pegando fogo. E nós só temos uma casa. A ganância está ganhando a batalha na Amazônia”, disse.

Também tiveram espaço a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente do Chile, Sebastião Piñera, que preside a próxima Conferência do Clima da ONU, em dezembro. Apesar das muitas declarações, houve apenas um anúncio concreto – de liberação de recursos de US$ 500 milhões do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da ONG Conservação Internacional para ajudar a proteger as florestas tropicais do mundo.

O ministro Ricardo Salles, que não se manifestou até o momento sobre a ausência do Brasil no encontro, apenas comentou sobre o anúncio da nova verba: “É por semana ou por mês que irão pagar isso?”.

*viajou a convite da Organização No Peace Without Justice

**viajou a convite da ONU

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