Lula surpreende e Obama decepciona na reta final da COP-15

Imprensa mundial avalia atuação dos líderes no último dia de conferência da ONU sobre as mudanças climáticas

Ricardo Gozzi, da Agência Estado,

18 Dezembro 2009 | 13h02

Dos principais líderes mundiais que discursaram até o momento em Copenhague, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi o único a apresentar alguma novidade na complicada busca por um novo acordo global sobre o clima. Ele manifestou nesta sexta-feira, 18, a disposição brasileira de, em caso de acordo, destinar dinheiro para ajudar países mais pobres a combaterem os efeitos das mudanças climáticas.

 

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No entanto, a 15ª conferência climática patrocinada pela Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Copenhague, aproxima-se de seu fim e a aparição de novidades é uma exceção. Os Estados Unidos e a China, maiores poluidores do planeta e principais atores da conferência sobre o clima, não foram um milímetro além do que já haviam proposto anteriormente.

 

Segundo o jornal britânico The Guardian, o presidente norte-americano, Barack Obama, nestas caóticas horas finais da cúpula de Copenhague, se declarou convencido de que o mundo pode agir "com ousadia e decisão", mas seu discurso não trouxe nenhum sinal de que os EUA estão prontos a adotar medidas audaciosas para combater as mudanças climáticas.

 

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, discursou antes de Lula. Obama falou aos demais líderes logo depois do presidente brasileiro. E ambos frustraram ainda mais as expectativas de que as negociações terminem em um acordo legalmente vinculante em Copenhague. Nem Obama nem Wen apresentaram novos compromissos capazes de romper o persistente impasse entre os países industrializados e as nações em desenvolvimento.

 

Nos últimos dias da COP-15, os principais chefes de Estado e de governo do mundo entraram pela madrugada negociando frente a frente as questões mais espinhosas em debate. E tudo o que conseguiram, segundo um esboço de acordo que circulava pela manhã em Copenhague, foi um documento sem metas específicas de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa.

 

O rascunho até diz que as partes envolvidas apoiam a meta de arrecadar conjuntamente US$ 100 bilhões por ano até 2020 para ajudar os países mais pobres a mitigarem os efeitos do aquecimento global e reconhece o ponto de vista científico segundo o qual a elevação da temperatura do planeta não deve exceder os 2 graus Celsius em comparação com os níveis anteriores à Revolução Industrial.

 

Entretanto, as partes do documento onde deveriam estar escritas as metas de redução das emissões de poluentes continuavam em branco, segundo uma fonte do periódico americano Wall Street Journal que teve acesso ao documento.

 

Além disso, segundo o Guardian, um documento da Secretaria-Geral da ONU vazado na noite de ontem sugere que os cortes de emissões propostos até aquele momento provocariam uma elevação de 3 graus centígrados na temperatura do planeta, acima do estipulado pelo esboço que circulava hoje pela manhã.

 

Lula já havia discursado ontem. Uma nova fala de Lula não estava prevista para hoje, mas ele foi chamado de última hora e aparentemente surpreendeu a todos ao manifestar a disposição de, em caso de acordo, alocar dinheiro do Brasil em um fundo internacional para ajudar países pobres a combater os efeitos das mudanças climáticas. O discurso de Lula, a partir deste ponto, foi aplaudido diversas vezes.

 

Segundo o presidente, aquela seria a primeira vez em que ele falaria sobre o plano de ajuda. "Vou dizer, de público, uma coisa que eu não disse ainda no meu país, não disse à minha bancada e não disse ao meu Congresso: se for necessário fazer um sacrifício a mais, o Brasil está disposto a colocar dinheiro também para ajudar os outros países", disse.

Palavras mais usadas por Lula no discurso de sexta-feira, dia 18. Foto: Reprodução/ManyEyes

 

Antes de apresentar a nova proposta, ele lembrou que a reunião iniciada na noite anterior havia se estendido até as 2h30 locais e enfatizou que o dinheiro "não resolveu (a questão climática) no passado, não resolverá agora e não resolverá no futuro".

 

"O Brasil não veio barganhar. As nossas metas não precisam de dinheiro externo. Nós iremos fazer com os nossos recursos, mas estamos dispostos a dar um passo a mais se a gente conseguir resolver o problema que vai atender, primeiro, a manutenção do desenvolvimento dos países em desenvolvimento. Nós passamos um século sem crescer, enquanto outros cresciam muito. Agora que nós começamos a crescer, não é justo que voltemos a fazer sacrifício", disse Lula.

 

Já o presidente americano e o primeiro-ministro chinês disseram-se comprometidos com as metas autoestipuladas por seus governos antes da conferência do clima, mas não fizeram nada além de marcar as posições já sabidas de seus países.

 

Barack Obama conclamou os líderes mundiais reunidos em Copenhague a aceitarem nesta sexta-feira um novo acordo climático global, mesmo que seja imperfeito. Wen Jiabao disse não haver justificativa para que os países em desenvolvimento assumam metas além de suas obrigações e de sua capacidade e que isso equivaleria a negligenciar a história, uma vez que as nações desenvolvidas são responsáveis por 80% de todas as emissões de gases causadores do efeito estufa ao longo dos últimos dois séculos.

 

Depois de discursarem, Obama e Wen reuniram-se e assessores disseram ter havido avanços.

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