Lula responsabiliza imprensa por divergências do governo

Discurso do presidente procurou evitar abordar motivos políticos da saída de Marina Silva do ministério

Leonencio Nossa, Agência Estado

27 de maio de 2008 | 20h56

Para não tratar dos problemas políticos que levaram a senadora Marina Silva (PT-AC) à demissão da pasta do Meio Ambiente e fazer apenas elogios na hora da despedida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou nesta terça-feira, 27, na posse do sucessor, Carlos Minc, um discurso em que responsabilizou a imprensa pelas divergências dentro do governo. Em alguns casos, Lula chegou a negar divergências que ele mesmo assumiu em público. No meio do discurso, o presidente caiu em contradição e admitiu que os dois tiveram momentos de grande divergência. Veja também:Minc diz que não será 'carimbador maluco' de licençasDesmatamento da Mata Atlântica caiu 69% até 2005Minc quer aumentar poder do Ibama na fiscalização ambientalSem poupar elogios a Marina, Lula chega a compará-la a PeléEstudo aponta redução na destruição da mata atlântica Inpe suspende divulgação de dados sobre desmatamentoEspecial: Amazônia - Grandes reportagens  Para amenizar essa lembrança, e não perder a estratégia do discurso, que era acusar o noticiário por escalar e demitir ministros, Lula disse o que sentia nos momentos de "maior divergência" com Marina: "O carinho, o respeito e a nossa relação de amizade fizeram com que, nos momentos que tivemos as maiores divergências, a nossa amizade permaneceu inabalável." E acrescentou: "Houve até quem escrevesse que 'parece que a relação Marina-Lula estava abalada'". A relação ficou abalada seriamente, pelo menos uma vez, quando Lula pediu a Marina para não divulgar os dados preliminares do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais), em janeiro passado, Marina divulgou e os dados, e o presidente reclamou publicamente da atitude: no Itamaraty, disse que a ex-ministra tratou o assunto de maneira escandalosa, como se fosse um câncer, quando se tratava apenas de um caroço suspeito. Lula chegou a comparar a ministra a Pelé. O presidente lembrou a contusão de Pelé, no segundo jogo da Copa de 1962, o que não impediu o bicampeonato. "Os brasileiros, otimistas como sempre, disseram: 'acabou, o Brasil perdeu'. E aí colocaram um menino chamado Amarildo, que fez os dois gols brasileiros", lembrou, referindo-se ao terceira partida da Seleção, contra a Espanha. "Faz de conta que você está entrando no lugar do Pelé", disse Lula a Minc, sob aplausos. "Agora, é importante lembrar que o Pelé não era insubstituível, o Santos também foi campeão do mundo sem o Pelé." Sem esconder o desconforto com a demissão da petista influente na área ambiental e que travou brigas com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e com a atual ocupante do cargo, Dilma Rousseff, Lula fez elogios a Marina. No discurso, o presidente reclamou que "lamentavelmente" a imprensa não deu destaque para ações de revitalização do São Francisco e o Programa Amazônia Sustentável. "Os ouvidos moucos não quiseram retratar a força daquilo que aqui foi apresentado", disse. "A companheira Marina sabe como ninguém o quanto ela apanhou." Lula relatou ter lido poucas colunas jornalísticas favoráveis à ex-ministra. "E depois que ela anunciou que iria sair, algumas pessoas resolveram falar dela o que poderiam ter falado antes." O presidente, num segundo momento de contradição, lembrou das divergências no governo causadas pelo processo de licença para iniciar as obras do complexo hidrelétrico do rio Madeira, em Rondônia. A briga do "bagre", com o episódio foi chamado, envolveu de um lado Marina e o então secretário executivo da pasta, João Paulo Capobianco, e de outro, Dilma Rousseff, coordenadora do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. "Muitas vezes se vende facilidade: 'Ah, é fulano de tal que não quer dar licença ambiental. Muitas vezes o que não aparece é que o pedido não está completo, a rima não foi bem feita", disse. "Tem caso de empresas públicas que não fazem as coisas direito." Em seguida, Lula foi enfático ao negar uma briga entre Marina e Dilma por causa do complexo do Madeira. "Lembram das brigas que criaram entre Dilma e Marina? Era o desenvolvimentista a qualquer custo e o ambientalista a qualquer custo", disse. "Eu que participava das reuniões com as duas não conseguia ver a briga publicada no jornal no dia seguinte", ressaltou. O presidente responsabilizou, em tom de ironia, um "anão" que ficava embaixo de sua mesa pelos relatos dos bastidores do governo. "Tantas vezes eu fui dormir pensando quem era a tal fonte que passava a informação que não tinha acontecido", disse. "Eu sei do tormento que você viveu, Marina." Analista Lula disse que a demissão de um "companheiro" é o "pior momento" no exercício do cargo. "Sempre a saída de um companheiro ou companheira nos deixa muitos sensibilizados e tristes e, ao mesmo tempo a entrada de um novo companheiro é motivo de alegria", disse. Num raro relato de quem tem a auto-estima como marca, o presidente contou que "às vezes fica um pouco deprimido". "Meu analista é o dia seguinte", disse. "Olhar para a tua cara é olhar para a cara do meio ambiente deste País, é olhar na cara das pessoas que querem preservar o meio ambiente", disse, dirigindo-se a Marina. "Não existe nada que possa dizer o Lula está magoado com a Marina. Não existe. E não ficarei contrariado se o contrário não for verdadeiro." Ele aconselhou Carlos Minc, o novo ministro a não ter vergonha e telefonar para Marina sempre que tiver dúvidas no comando da pasta. Ele brincou com o número de entrevistas dadas por Minc. "Em uma semana ele já falou mais do que a Marina em cinco anos e meio", afirmou, chamando a atenção para o colete verde usado pelo ministro. "A política ambiental do governo é aquela que está no programa que me fez ganhar as eleições em 2002 e 2006 e ela tem que ser cumprida", afirmou o presidente. "A lei será cumprida sempre", completou. "Seremos duros com quem cometerem erros e justos com aqueles que cumpram as regras estabelecidas."  O presidente disse que nem Marina é uma ambientalista radical e nem Minc é um "carioca que quer destruir a Amazônia" ou um "estranho" na pasta. O presidente observou, porém, que o novo ministro tem uma origem diferente de Marina. "Um levantava de manhã, abria a janela e via a floresta do Acre. O outro, a praia de Copacabana", disse, arrancando risos da platéia, formada por assessores do governo, parlamentares e aliados de Minc. "As duas precisam ser preservadas."

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