TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Lixo jogado no mar vira árvore de Natal em Ubatuba

Obra elaborada pelas equipes do Aquário de Ubatuba, do Instituto Argonauta e do Projeto Tamar alerta sobre a poluição no mar, em especial do plástico

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2017 | 03h00

UBATUBA - A árvore de Natal de Ubatuba neste ano não tem tronco, mas um poste. Não tem folhas – são redes de pesca que lhe dão a estrutura. Tampouco tem papais-noéis, bonecos de neve, renas, estrelas ou outros enfeites típicos. Mas tem chinelos, baldinhos, canudinhos, embalagens de alimentos, copos, garrafas pet, apetrechos de pesca. A exceção natalina são as bolinhas características. Essas não faltam, e são muitas. Tudo oferenda devolvida pelo mar ao longo do ano.

A obra foi elaborada pelas equipes do Aquário de Ubatuba, do Instituto Argonauta e do Projeto Tamar como um alerta sobre o problema do lixo, em especial do plástico, no mar. Todo o material usado na sua decoração foi coletado nas praias do litoral norte, como parte de um trabalho de monitoramento que busca entender a quantidade e a qualidade dessa sujeira.

As bolinhas deram o toque que faltava. Eles são provenientes de um dos 46 contêineres que estavam no navio Log-In Pantanal, no Porto de Santos, e foram lançados ao mar durante uma forte ressaca em 11 de agosto deste ano. Nas semanas que se seguiram, essas bolinhas começaram a aparecer nas praias do Litoral Norte e até hoje ainda dão o ar da graça. Até a última contagem, no dia 16, já eram mais de 3,2 mil.

Não se tem ideia de quantas permanecem boiando no mar ou podem ter ido parar no estômago de algum animal. É um tipo de acidente com o qual os biólogos do aquário já se habituaram a ver pela região. É o caso do golfinho que apareceu morto, boiando na praia, com um chinelo de borracha engastalhado na boca. Ou o peixe-espada que ficou com a boca presa num carretel de linha de pesca e acabou morrendo de fome e hoje está exposto no aquário como um alerta.

“Um pinguim achado em janeiro estava enrolado em um ramalhete de flor. Já encontramos tartarugas com mais de 25 bexigas no estômago”, conta a bióloga Carla Beatriz Barbosa, do Instituto Argonauta.

A árvore de Natal chama atenção para um problema que mereceu destaque duplo da Organização das Nações Unidas neste ano, tanto na Conferência dos Oceanos, em junho, quanto na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente. A organização estima que 8 milhões de toneladas de lixo plástico entram nos oceanos por ano. Que de 60% a 80% de todo o lixo nos oceanos é plástico. E que até 2050 pode haver mais plástico do que peixes no mar.

Isso traz prejuízo não só para a biodiversidade, mas para a saúde das pessoas (pesticidas e outras toxinas podem aderir aos microplásticos e acabam consumidos por organismos marinhos, caindo na cadeia alimentar até chegar aos seres humanos) e para a própria economia, diante de aumento de gastos com limpeza das praias, destinação dos resíduos.

Estudo da Universida de São Paulo (USP) publicado no ano passado, por exemplo, estimou que 75% dos mexilhões da Enseada de Santos e do porto tinham evidência de ingestão de microplástico.

Na assembleia, que tinha como tema a luta por um planeta livre de poluição, governos, empresas, sociedade civil fizeram uma série de compromissos. Se todos forem atendidos, 480 mil quilômetros (ou cerca de 30%) das costas litorâneas serão limpas. No documento final do evento, 193 países (Brasil inclusive) se comprometeram a eliminar os microplásticos dos oceanos e adotar ações para prevenir e reduzir significantemente a poluição marinha até 2025.

Contribuição nacional. Internamente, o Brasil ainda precisa conhecer o tamanho do seu desafio. Um trabalho ,publicado na revista Science em fevereiro de 2015 por pesquisadores dos Estados Unidos e da Austrália, que trouxe a primeira estimativa sobre a quantidade de plástico que entra nos oceanos por lixo gerado em terra, colocou o Brasil como o 16º maior contribuinte do problema, à frente dos Estados Unidos, que é o 20º. A China, como era de se esperar, é o primeiro.

Os autores, liderados por Jenna Jambeck, da Universidade da Georgia, fizeram o cálculo tomando como base dados sobre produção de resíduos sólidos, densidade populacional e status econômico de 192 países costeiros em 2010. Pela conta, essas nações produziram naquele 275 milhões de toneladas de plástico, das quais de 4,8 milhões a 12,7 milhões de toneladas foram parar nos oceanos.

Faltam, porém, estudos nacionais que apontem com precisão quanto lixo e de que tipo chega nos nossos mares e como essa quantidade está variando ano a ano. Indicadores oficiais sobre a balneabilidade das praias não levam em conta esse tipo de lixo difuso que agride praias e oceanos. Pelo índice de balneabilidade da Cetesb, por exemplo, as praias de São Paulo estão ótimas. Das 173 analisadas, apenas 14 (8%) estavam impróprias no último balanço, divulgado no último dia 17.

É que o monitoramento só leva em conta as contaminações por bactérias fecais – padrão seguido em todo o mundo.

Um dos principais trabalhos sobre plástico no País foi conduzido pelo biólogo Alexander Turra, da USP, junto com a organização Plastivida, que monitorou por quatro anos praias do Nordeste e do Sudeste para checar a ocorrência de macrolixo e o acúmulo dos chamados pellets (pequenos grãos de resinas termopla´sticas, mate´ria prima da maior parte dos produtos usados no mercado).

Para o macrolixo, foram feitas coletas em seis praias em São Paulo (Ubatumirim, Boracéia, Itaguaré, Una, Juréia e Ilha Comprida), em três na Bahia (Imbassaí, Jauá e Taquari) e três em Alagoas (Ipioca, Francês e Toco). Uma área de 500 metros de extensão paralela à linha d’água foi delimitada e nos 100 metros centrais, todos os itens maiores que 2,5 centímetros foram identificados, quantificados e armazenados em sacos para posterior pesagem.

Do material coletado ao longo de dois anos, de modo amostral – 1,4 tonelada de lixo marinho,  a maioria no Sudeste –, 94% eram itens plásticos dos mais variados. Enquanto no Nordeste há muita embalagem de comida, fragmentos não identificados e tampinhas, no Sudeste há de tudo um pouco, de fragmentos de isopor a bitucas de cigarro e hastes flexíveis.

“O que percebemos neste trabalho é que o tipo de lixo e a quantidade variam muito de uma praia para outra, de modo que as soluções para resolvê-lo também são diferentes. Para resolver o lixo da pesca é um caminho diferente da embalagem de alimento que está numa praia mais turística”, afirma Turra, que defende a participação dos setores econômicos na discussão de soluções.

Em junho, na Conferência dos Oceanos, o Brasil se comprometeu voluntariamente a elaborar um Plano Nacional de Combate ao Lixo nos Mares, justamente para lidar com a questão. Uma parte do plano envolve produzir mais conhecimento sobre o assunto. O estudo das praias da USP, por exemplo, foi descontinuado, segundo Turra, por não permitir avaliar com precisão mudanças na quantidade do lixo que chega no mar. Novas metodologias estão sendo estudadas para ajudar a fornecer um quadro mais informativo.

Outra parte visa envolver os setores para atuarem de modo tanto a diminuir a produção do lixo gerado quanto melhorar o seu descarte. A expectativa do Ministério do Meio Ambiente, que conduz essa discussão, é ter um desenho do plano até o final do ano que vem.

'Garimpo' na areia vai de bitucas de cigarro a brinquedos esquecidos 

Nas areias de Ubatuba, tão logo o dia amanhece, Carlos Alberto Chagas, o Beto, caminha cabisbaixo, por uma linha imaginária pré-definida, enquanto realiza um garimpo sistemático. Tampinhas de garrafa e garrafas, canudos, bitucas de cigarros, chinelos, brinquedos esquecidos, linha de pipa, sacolas plásticas, lixos em suas mais variadas formas são recolhidos em um saco. Beto não faz parte da equipe de limpeza de Ubatuba, mas de um grupo que busca entender a quantidade e a qualidade da sujeira que acaba indo parar no mar.

É um trabalho que começou há dois anos, aproveitando a estrutura que foi montada para fazer um outro monitoramento de potencial distúrbio do mar: os possíveis impactos da exploração do pré-sal.

O chamado Projeto de Monitoramento de Praias é uma condicionante do licenciamento ambiental da exploração do pré-sal. É conduzido pelo Ibama e coordenado pela Univale. Pelo projeto, todas as praias entre Santa Catarina e Rio de Janeiro tem de ser monitoradas em busca de animais mortos ou feridos. Todos que são encontrados são analisados para checar se há algum impacto da exploração do petróleo.

No litoral norte de São Paulo, o responsável pelo monitoramento é o Instituto Argonautas. “Já que estamos andando por todas as praias, aproveitamos para também investigar a questão do lixo”, explica a bióloga Carla Beatriz Barbosa. No ano passado, de maio a dezembro, os monitores que rastreiam as 228 praias da região já tinham coletado cerca de uma tonelada de lixo. Neste ano, foram mais de cinco toneladas. Não significa, porém, que a sujeira quintuplicou de um ano para o outro, mas que os pesquisadores aprimoraram a técnica de modo a traçar um retrato melhor do que está acontecendo nas praias.

Beto, em sua caminhada, vai relatando o drama. “Olha aqui, uma área de apenas 3 metros quadrados e tem mais de 40 bitucas de cigarros. A onda vai levar pro mar e isso vai parar no estômago de algum bicho. Estamos agredindo nossa casa, dando um tiro no pé”, lamenta.

Outro item frequente são as tampinhas. “Em Alcatrazes, os ninhos das fragatas são cheios de tampinhas. Elas pegam na superfície da água e levam embora”, conta.

Em menos de meia hora, mais de quatro quilos já foram recolhidos. “É um monte de lixo e olha que isso aqui é só uma amostra”, diz.

No meio do garimpo, Beto é chamado por uma banhista, que traz um baldinho e uma pazinha de criança que estavam no mar. “Isso tava no fundo, veio parar no meu pé enquanto a gente estava se banhando. Meu filho já tava quase jogando de volta, mas expliquei que a baleia vai acabar engolindo isso”, conta, didática, a dona de casa Laura Fernanda da Silva, de 40 anos, que saiu de Taubaté para passar o fim de semana em Ubatuba.

Não é todo mundo, porém, que se comove com o trabalho. Enquanto se abaixa para pegar mais algumas bitucas, Beto olha com desalento para a linha de guarda-sóis, onde turistas ou moradores da região continuam calmamente fumando seus cigarros e descartando-os na areia. 

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