Liberação de metano no Ártico pode piorar efeito estufa

Pesquisadores da Universidade do Alaska dizem que fenômeno já é realidade, mas estudo não é conclusivo

Cornelia Dean, The New York Times

04 Março 2010 | 17h30

Cientistas do clima sempre alertaram que as mudanças climáticas poderiam liberar grandes quantidades de metano, presos em reservatórios sob a camada de gelo permanente do Ártico. O metano é um dos gases que geram o efeito estufa, o que poderia potencializar o aquecimento global.

 

Pesquisadores da Universidade do Alaska, em Fairbanks, e de outras instituições afirmam que esse fenômeno pode estar em andamento numa área pouco estudada, a East Siberian Arctic Shelf, ao leste do Estreito de Bering.

 

Uma cientista da universidade e líder do estudo, Natalia Shakhova disse que é muito cedo para dizer se a descoberta sugere uma liberação perigosa de metano. Por telefone, ela comentou que os pesquisadores estão apenas começando a monitorando o movimento do metano para a atmosfera à medida em que o gelo permanente derrete.

 

Mas especialistas em questões climáticas que têm familiaridade com este novo estudo disseram que, mesmo que isso não sugira uma catástrofe climática eminente, não deixa de ser importante devido ao papel do metano como gás causador de efeito estufa. Apesar do dióxido de carbono ser uma gás muito mais abundante e persistente na atmosfera, uma tonelada de metano aprisionado é 25 vezes mais poderosa para o aquecimento do que uma tonelada de CO2.

 

A camada de gelo permanente vinha sendo pouco estudada, mas os trabalhos existentes até agora revelam que já estão sendo liberadas quantidades surpreendentes de metano na atmosfera, de acordo com Shakhova e outros pesquisadores.

 

No ano passado, cientistas da Grã-Bretanha e da Alemanha reportaram a detecção de metano sendo liberado do leito oceânico do Ártico na região de Spitbergen do Oeste, no norte da Escandinávia. Na época, eles explicaram que deram início ao trabalho esperando reunir dados para prever emissões futuras e não esperavam encontrar evidências de que esse processo já está em andamento.

 

O pesquisador do Max Planck Institute na Alemanha Martin Heimann disse que é "indispensável" continuar monitorando o metano na região. Até hoje, as contribuições do metano do Ártico foram "negligenciadas", ele escreveu. "Mas será que isso pode persistir no futuro sob ameaças do aquecimento? Nós não sabemos."

 

Por e-mail, Euan Nisbet da Universidade de Londres, um especialista em metano atmosférico, alertou que a situação "precisa ser analisada com cuidado".

 

As concentrações atmosféricas de metano mais do que dobraram desde os tempos pré-industriais, escreveu Heimann. A maior parte vem da atividade humana, incluindo a produção de energia, a pecuária e o cultivo de arroz. Mas aproximadamente 40% dessa concentração tem causa natural, incluindo a decomposição de material orgânico em regiões úmidas ou sob o gelo permanente.

 

Shakhova disse que o gelo permanente na região de East Siberian Arctic Shelf está se degradando em partes porque os rios que alimentam o Oceano Ártico estão mais quentes do que no passado. A região é composta por turfeiras que foram inundadas quando o nível dos oceanos subiu, na última era glacial.

 

Ela estimou que as emissões anuais de metano da região agora totalizam 7 teragramas (uma teragrama é equivalente a 1,1 milhão de toneladas). Estimativas mostram que as emissões globais totais de metano no mundo somam cerca de 500 teragramas por ano.

 

Shakhova, que também é afiliada da Academia de Ciências da Rússia, disse que o metano passa por oxidação quando sobe à superfície e é liberado como dióxido de carbono. Mas, na região, como se encontra abaixo de uma camada de 50 metros de profundidade, o gás liberado é mesmo o metano.

 

Como resultado, segundo ela, os níveis atmosféricos de metano sobre o Ártico são de 1,85 partes por milhão, quase três vezes mais alto que a média global, de 0,6 ou 0,7 partes por milhão. A concentração sob a camada de gelo é de 2 partes por milhão ou até mais alta.

 

Mas "eu não sou a pessoa certa para julgar" se as descobertas no Ártico sugerem que as estimativas de mudanças climáticas nas próximas décadas devam ser reescritas, adicionou a pesquisadora. "Estamos ainda no ínicio das pesquisas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.