Lêmures estão em risco iminente de extinção em Madagascar, alertam cientistas

Expansão da agricultura, retirada ilegal de madeira, mineração e caça de outros animais selvagens ameaçam os primatas que só vivem naquele país

Will Dunham, Reuters

20 Fevereiro 2014 | 20h01

Crédito: Nora Schwitzer / Divulgação

WASHINGTON - Alguns dos principais especialistas do mundo em lêmures soaram um alarme nesta quinta-feira sobre uma ameaça iminente extinção destes primatas primitivos que vivem apenas em Madagascar. Segundo os pesquisadores, os lêmures são agora o grupo mamífero mais ameaçado do mundo.

A destruição e a fragmentação de seu hábitat causadas pela queima e corte ilegal de árvores para a agricultura, extração de madeira de pau-rosa e ébano, mineração e a caça de animais selvagens pela empobrecidas populações locais são as principais ameaças aos lêmures, segundo os cientistas, que divulgaram o alerta na revista Science.

Eles disseram ainda que uma crise política que já dura cinco anos no país e um amplo colapso da aplicação da lei ambiental pioraram a situação para as cerca de 100 espécies de lêmures que vivem em Madagascar.

“As extinções podem começar muito em breve se nada for feito”, disse Christoph Schwitzer, chefe de pesquisa da Sociedade Zoológica de Bristol, na Grã-Bretanha, que liderou uma equipe de 19 cientistas. O grupo elaborou um plano de emergência de três anos para a preservação dos lêmures.

Segundo Schwitzer, a espécie mais rara – o lêmur esportivo do norte – já foi reduzida a uma população de somente 50 indivíduos distribuídos em um ou dois fragmentos florestais pequenos.

“Um ciclone ou outro desastre natural poderia acabar com toda a população. Na verdade, qualquer pessoa que decida ir à caça destes lêmures pode levar a espécie ao seu limite”, acrescentou o pesquisador.

O plano de preservação identificou 30 áreas prioritárias para a conservação dos lêmures e sugeriu que elas se tornam áreas protegidas. Também sugere o estabelecimento de pesquisas de longo prazo em pontos chave, assim como a expansão do ecoturismo focados em lêmures para atrair dinheiro para a causa.

Os cientistas argumentam no artigo que uma quantidade significativa do hábitat natural desses primatas poderia ser conservado ao custo relativamente pequeno de US$ 7,6 milhões – e que o ecoturismo poderia ajudar a pagar esse custo. O grupo apela para que governos estrangeiros e fontes privadas ajudem nesse financiamento.

Crise política. A crise nesta ilha do Oceano Índico localizada próxima à costa leste africana começou com um golpe de Estado em 2009. Desde então, o crescimento econômico de Madagascar desacelerou acentuadamente e aprofundou a pobreza. Em janeiro deste ano, um novo presidente, Hery Rajaonarimampianina, tomou posse, um mês depois de vencer a primeira eleição desde o golpe.

Os lêmures são um dos tipos mais primitivos de primata, bem menos avançados evolutivamente do que os macacos, símios e seres humanos. O grupo tem tamanhos variados. A menor espécie, conhecida popularmente como lêmur-rato de Madame Berthe, pesa somente 30 gramas. É o menor primata vivo. Já a maior é o Indri, que pesa 9 quilos.

Criaturas arbóreas, eles comem folhas, frutos e insetos e têm membros longos, dedos dos pés e das mãos flexíveis e narizes longos.

Eles apareceram no início da evolução dos primatas, cerca de 62 milhões de anos atrás, não muito tempo depois que os dinossauros foram extintos. Primatas mais avançados nunca chegaram a Madagascar, permitindo que os lêmures prosperassem e evoluíssem para muitas espécies diferentes.

Mas a maior parte das florestas de Madagascar já foi desmatada e 94% das espécies de lêmures são agora consideradas vulneráveis, em perigo ou criticamente em perigo.

“Eu certamente não gostaria de dizer aos meus filhos em 10 ou 20 anos, quando eles tiverem idade suficiente para viajar para Madagascar: ‘Olha, esta ilha já foi habitada por criaturas chamadas lêmures, mas eles foram extintos porque seu pai, junto com muitos outros, não foi capaz de evitar a sua extinção no momento’”, disse Schwitzer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.