Lacunas comprometem contabilidade de redução de emissões de países ricos

As brechas incluem as emissões com aviação e navegação, além da compensação feita através de mecanismos de desenvolvimento limpo

The Guardian

05 de agosto de 2010 | 00h01

Os países em desenvolvimento estão com o pé atrás com os países do Anexo 1 do protocolo de Quioto (industrializados) depois que uma nova pesquisa mostrou que as promessas de corte de emissão de gases causadores de efeito estufa  do países ricos podem ser anuladas por brechas no tratado de mudanças climáticas esboçado em Copenhague no ano passado.

 

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Os países em desenvolvimento argumentaram arduamente em prol de um mínimo de 40% de cortes de emissões por parte dos países industrializados até 2020. Mas novas análises do Instituto Ambiental de Estocolmo e da Rede do Terceiro Mundo divulgadas nas últimas conversas sobre o clima, em Bonn, mostraram que as promessas atuais somam de 12 a 18% de reduções aos níveis de 1990 se as brechas não forem contabilizadas. Se forem levadas em conta as lacunas no tratado, as emissões podem crescer em até 9%.

 

A pesquisa categorizou as lacunas em quatro grupoes separados - que todos sabem que existem, mas que os países ricos deixaram de abordar nas negociações. São eles: uso da terra e créditos florestais, compensação em créditos de carbono oriundos de mecanismos de desenvolvimento limpo, permissões de emissão excedentes acumuladas por países da ex-União Soviética e emissões relativas à aviação e navegação, que não estão incluídas nos esquemas de redução de emissões propostos pelos países ricos.   

 

"Os países industrializados prometeram uma redução modesta nas emissões em Copenhague no ano passado, mas essas lacunas na verdade permite a eles que aumentem as emissões no futuro", disse Sivan Kartha, cientista sênior no Instituto de Estocolmo.

 

"Isso significa que as nações mais ricas não precisam fazer nada para reduzir emissões. Eles poderiam acumular uma quantidade imensa de créditos para continuar no esquema 'business as usual'", disse ele.

 

"Quanto mais atentamos para as brechas do acordo, pior parece a situação. A coisa toda começa a parecer uma farsa", afirmou Lim Li Lin, uma especialista em leis da Rede do Terceiro Mundo.

 

Numa apresentação separada que fez para representantes de diversos governos, Pablo Solon, embaixador da Bolívia nas Nações Unidas, reclamou que os países industrializados estavam enchendo a atmosfera com poluição, e impedindo os países pobres de se desenvolverem. Ele citou uma pesquisa do cientista Jim Hansen, da Nasa, e do Conselho para Mudanças Climáticas do governo da Alemanha, que teria mostrado que o planeta tem um "orçamento" de 750 gigatoneladas de CO2 nos próximos 40 anos caso mantenha a temperatura mundial em até 2º. Mas o mundo teria um "orçamento" de emissões menor (de 420 gigatoneladas de CO2) se quisesse manter a temperatura abaixo dos 1,5°, como foi solicitado por mais de 100 países.

 

"Com as promessas vigentes hoje, calculamos que os países do Anexo 1 vão gastar em dez anos todo esse 'orçamento' projetado para quarenta anos", disse Solon. "O acordo que está na mesa não tem relação com nenhuma meta que os países ricos estabeleceram. É como receber salário. Se você gasta todo o dinheiro na primeira semana, não vai ter nada para passar o resto do mês", compara.

 

"Copenhague demosntrou níveis desastrosamente baixos de ambição de redução de emissões, e os países ricos estão tentando, vergonhosamente, escapar dos compromissos tênues que assumiram", declarou Asad Rehman, diretor internacional de campanhas de mudanças climáticas da Amigos da Terra."A ciência é clara. Os países desenvolvidos devem parar de tentar se esconder atrás de detalhes técnicos das negociações", completou.

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