Japão muda horários e guarda-roupa para evitar apagão

Funcionários públicos trabalham mais cedo e devem usar roupas casuais para poupar o ar condicionado

Los Angeles Times

23 Junho 2011 | 10h08

TÓQUIO - Num país conhecido por trabalhadores que passam muitas horas no escritório, muitos salarymen encontram nesta verão uma rara mercadoria: tempo livre.

Nestes dias, 7.400 funcionários do governo metropolitano de Tóquio chegam às suas mesas de trabalho, e voltam para casa, uma hora mais cedo que o normal.

É parte de um ambicioso plano para cortar o consumo de energia num momento em que o Japão encara possível escassez de energia após os devastadores terremoto e tsunami que derrubaram uma grande usina nuclear.

Começar o trabalho mais cedo significa menos funcionários no escritório ao cair da tarde, horário de pico do uso de energia.

Também significa que o funcionário público Takeshi Katoya agora pode fazer algumas caminhadas à noite, prazer que antes não conseguia encaixar em sua agenda.

“Termino o trabalho e ainda está claro lá fora”, disse Katoya, de 29 anos, que agora trabalha das 7h30 às 16h15 na maior parte dos dias. “Pensava que este novo horário podia ser difícil, mas eu gosto”.

A desvantagem: como tem de acordar às 5h30 para o transporte diário, vai para a cama mais cedo. “Essa é a única coisa, não ficar acordado até tarde”, disse.

Trabalhando de sábado à quarta

Causado por um terremoto, o tsunami de 11 março que atingiu a costa nordeste do Japão derrubou a usina nuclear de Fukushima Daiichi, prejudicando a produção de energia. Com outras usinas fechadas para manutenção, membros do governo estão preocupados com possíveis blecautes durante este verão.

Para impedir isto, oficiais pedem a empresas e casas ao redor de Tóquio e outras áreas afetadas pelo terremoto que cortem o uso de eletricidade em 15%. Para servir de exemplo, o governo de Tóquio prometeu cortar o uso de energia em 25%, desligando alguns elevadores, reduzindo a iluminação nos gabinetes e colocando os termostatos do governo em nada menos que 27 ºC.

A mensagem do governo se estende atè à moda: Ternos e gravatas pretos estão fora este verão. Em vez disso, conta-se aos funcionários, pense como um morador de Okinawa e vá de roupa casual, com camisas tropicais para fora da calça, calças leves de algodão e até tênis, se quiser.

O programa “Super Cool Biz” tem por objetivo relaxar o código de vestimenta para reuniões políticas e de negócios, de forma que a turma da camisa para dentro possa adotar o visual favorecido na ilha de Okinawa (sul) e pegar leve no ar condicionado.

As empresas do Japão também prometeram fazer a sua parte. Algumas estão permitindo aos empregados que trabalhem em casa. Indústrias como a Sony e a Canon planejam introduzir horários de trabalho durante o verão similares aos do governo de Tóquio.

Outras empresas estão estendendo seus desligamentos sazonais, e montadoras como Toyota, Nissan e Honda planejam trocar a semana de trabalho para de sábado à quarta, para aproveitar o uso menor de energia durante o fim de semana.

Indústrias de serviços se acomodam aos novos horários de trabalho. Alguns cafés abrem mais cedo, e academias de ginástica estão permitindo a clientes com planos restritos que compareçam durante a semana.

Restaurantes

Com os termostatos em temperaturas mais altas, alguns restaurantes encaram um problema: como fazer os clientes não sentirem calor quando o ar condicionado não está no máximo?

Uma cadeia de restaurantes usa o que é chamado aqui de “cortina verde”: uma barreira de plantas colocada do lado de fora de grandes janelas pretas, que bloqueiam raios solares. Hideki Jinnouchi, do grupo de restaurantes Skylark, diz esperar que as plantas, ainda em fase de crescimento, consigam esse resultado.

Enquanto isso, as famosas luzes de neon e outdoors eletrônicos de Tóquio tiveram sua luminosidade reduzida em várias partes da cidade. Escadas rolantes públicas permanecem desligadas, e até as onipresentes máquinas de venda emitem menos luz.

As sugestões do governo sobre as roupas de trabalho são uma recauchutagem de um programa de 2005 iniciado para combater o aquecimento global. Muitas pessoas inicialmente resistiam a ideia como indigna, mas hoje em dia, dizem membros do governo, camisas pólo, jeans e o visual sem paletó são aceitáveis para reuniões de negócios, e, sim, até para as de membros do governo.

O ministério japonês do Meio Ambiente patrocinou um recente desfile de moda de camisas Kariyushi, a versão de Okinawa da camisa havaiana, uma das quais foi vestida pelo ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) em visita recente.

Ainda assim, alguns dos funcionários continuam a desdenhar da roupa casual no local de trabalho, havendo ou não emergência nacional. Muitos se agarram aos velhos guarda-roupas, e trazem leques de papel para enfrentar o calor.

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