Japão compra votos de nações pequenas na Comissão da Baleia

Delegados de países pobres africanos e pequenas ilhas recebem ajuda financeira, verba para reuniões da comissão e garotas de programa

estadao.com.br

14 Junho 2010 | 15h39

O Japão estaria comprando votos de pequenas nações para ganhar apoio na reunião do dia 21 da Comissão Internacional de Baleia, em Agadir, no Marrocos, de acordo com informações do Sunday Times. No encontro anual, os 88 Estados membros vão votar uma proposta da comissão de permitir a caça controlada, com uma quota permitida de baleias.

 

A matéria diz que países como São Cristóvão e Nevis, Grenada, ilhas Marshall, Kiribati, Guiné e Costa do Marfim se mostraram interessados em negociar seus votos na comissão. Eles estariam recebendo ajuda financeira do Japão em troca de seus votos favoráveis à caça. Alguns países alegaram que o Japão também dá dinheiro para gastarem nas despesas da reunião da comissão e até mesmo oferece garotas de programa para ministros e diplomatas. O Ministério de Relações Internacionais do Japão negou as acusações.

 

Reportagem disfarçada

Os rumores sempre existiram sobre essas conversas de bastidores na IWC, mas elas nunca antes tinham sido capturadas em vídeo. A lobista era, na verdade, uma repórter disfarçada do jornal Sunday Times.

 

Para descobrir os acordos secretos da aliança do Japão com países da África, Ásia, Pacífico e Caribe, o jornal Sunday Times abordou os ministros-chave e funcionários da pesca desses países numa operação disfarçada. Dois repórteres fingiram ser lobistas que teriam sido contratados pelo Dr. Hans Kruber, um filantropo suíço bilionário fictício, criador do fundo de desenvolvimento para a pesca na Europa.

 

A proposta do jornal foi pensada para copiar as supostas táticas usadas pelos japoneses. Os funcionários dos governos eram informados de que os 'lobistas' estavam reunindo uma coalisão de países que iriam votar contra a caça às baleias. A cada um deles foi oferecido 25 milhões de libras - US$ 36,8 milhões - em recursos por dez anos, provenientes do fundo de Kruber, e tudo o que tinham que fazer seria votar contra as quotas de baleias na reunião de Marrocos.

 

Seis países indicaram que tinham intençao de considerar a proposta e levaram o assunto para ser discutido com ministros e altos funcionários. Esses países foram São Cristóvão e Nevis, as ilhas Marshall, Kiribati, Grenada, Costa do Marfim e Guiné. As revelações dos funcionários sobre a relação entre seus países e o Japão foram ainda mais surpreendentes.

 

Nas gravações do jornal de negociações nos bastidores de reuniões preparatórias em Barcelona, os representantes dos países a favor da caça de baleias revelam uma operação de secreta de compra de votos pelo Japão que Tóquio sempre negou. Isso também levanta sérias questões sobre a credibilidade da comissão baleeira.

 

A notícia aparece enquanto o Japão tenta acabar com a moratória de 24 anos da caça comercial de baleias com a proposta de introduzir quotas de pesca que será discutida na reunião da IWC dentro de uma semana, de 21 a 25 de junho, em Agadir, no Marrocos.

 

Japão, Noruega e Islândia mataram 35 mil baleias desde que a moratória começou. No caso japonês, a matança foi justificada como "pesquisa científica" mesmo que se saiba em todo mundo que a carne de baleia é utilizada em pratos típicos do país como o sashimi.

 

Se a proposta votada no Marrocos for bem-sucedida, as nações que caçam baleias terão direito a caçar um total de 1,8 mil baleias por ano, incluindo duas espécies ameaçadas de extinção, Fin e Sei. A caça científica será proibida, mas ambientalistas temem que as novas quotas abrirão caminho para a volta da caça generalizada que quase destruiu algumas espécies nos anos 80. Para o Japão, é o ápice de uma longa campanha de apoio à caça de baleias recrutando pequenas nações pobres da IWC.

 

Acredita-se que o Japão tenha o suporte nos bastidores de 38 dos 88 membros da IWC, incluindo três países sem litoral. Os japoneses precisam de 75% dos votos, mas poderiam ser ajudados pela desunião da União Europeia, onde alguns países predominantemente contrários à caça às baleias podem se abster da votação se não conseguirem um acordo unânime.

 

Suborno

O delegado da República da Guiné mal piscou quando uma suposta 'lobista inglesa' lhe fez uma proposta durante o café num hotel em Barcelona. Ela queria comprar o voto da Guiné em prol da proibição da caça na próxima reunião da Comissão Internacional da Baleia (IWC, na sigla em inglês) com um pacote de ajuda financeira.

 

Em vez de protestar contra o flagrante de suborno, o diretor nacional da pesca da Guiné, Ibrahima Sory Sylla, ligou imediatamente para o ministro da sua pasta. "Eu falei com ele [o ministro] postivamente sobre a sua proposta", respondeu mais tarde naquele mesmo dia. "O tempo corre, temos que tomar a nossa decisão."

 

Isso não era garantia de sucesso. A lobista tinha um rival formidável: a agência da pesca do Japão, que foi por anos aliada da Guiné na IWC. Sylla já tinha sublinhado a extensão da generosidade japonesa a Guiné em termos de recursos pagos ao ministério da pesca. Ele previu que o Japão faria uma boa contra-oferta.

 

Sylla, um veterano no departamento de pesca da Guiné, explicou que o seu país tinha pouco interesse em baleias, mas foi convencido a se tornar um membro da IWC pelo Japão há dez anos.

 

Ele disse que a Guiné votou ao lado do Japão em parte por medo de que as baleias se proliferem e consumam muito peixe, afetando os estoques oceânicos, um argumento dúbio que é utilizado por cientistas japoneses para defender a caça.

 

Uma razão igualmente importante para o apoio do seu país é financeira. "O Japão apoia nossa posição comercialmente", disse. E ele não estava apenas se referindo aos milhões em ajuda à pesca que o Japão repassou à Guiné ao longo dos anos.

 

Os repórteres do Sunday Times perguntaram a Syllas que outros pagamentos teriam que providenciar para corresponder à assistência financeira provida pelo Japão. E existiam vários. Sylla revelou que o Japão paga à Guiné 7,9 mil libras anuais - cerca de US$ 11,6 mil - para seus gastos como membro da comissão da baleia, assim como financia as viagens e a permanência dos delegados do país nas reuniões. Viagem, hotel e refeições foram todas pagas e cada um dos delegados recebia US$ 300 por dia. O salário médio anual na Guiné é de US$ 1 mil.

 

Nas coasiões em que os ministros da Guiné compareciam como representantes na IWC, eram providenciados carros e dinheiro para gastar pelo Japão. "Mínimo, entende, o mínimo era mil [dólares] por dia", disse Sylla.

 

O dinheiro é entregue em envelopes pelos representantes japoneses durante as reuniões. Sylla afirmou que, em algumas reuniões, o dinheiro lhe foi entregue pelo próprio ministro japonês.

 

Confira a transcrição de uma parte do diálogo, disponibilizada na internet pelo Sunday Times:

 

"Repórter: E então você entrega ao seu ministro?

Sylla: Sim. Mas não diretamente para o ministro.

Repórter: Por que não?

Sylla: Você sabe, você sabe, o ministro é um homem político.

Repórter: Então eles não querem fazer parecer que o ministro está sendo corrupto.

Sylla: Isso. Exatamente."

 

O delegado disse que três organizações japonesas foram utilizadas para canalizar os pagamentos ao seu país: a agência da pesca, a agência da ajuda e a Fundação de Cooperação para a Pesca Oceânica.

 

Na sexta-feira o ministro da pesca da Guiné negou que o Japão tenha dado dinheiro aos seus delegados e alegou que Sylla não estava envolvido nos assuntos da IWC. Eles chamaram Sylla ao telefone rapidamente para que confessasse que tinha inventado as informações.

 

No entanto, um repórter que havia telefonado ao ministro mais cedo para checar as credenciais de Sylla foi informado que ele comparecia às reuniões da IWC e que tinha estado recentemente às conversas preliminares para a reunião de Marrocos como representante na IWC.

 

O Ministério de Relações Internacionais do Japão disse que "o governo do Japão não cobre nenhum custo de qualquer outro membro da IWC."

 

No entanto, outros países parecem ter acordos com o país. O diretor do Ministério da Pesca de Kiribati, pequeno arquipélago do Pacífico que sempre votou ao lado do Japão na IWC, Michael Bootii também esteve na reunião em Barcelona.

 

Ele concordou em se reunir com os repórteres para um café depois de checar com seu ministro. Bootii descreveu como "atrativa" a oferta dos repórteres de comprar o voto de Kiribati com ajuda financeira.

 

Ele disse que o ministro do país iria "pesar" a proposta em contrapartida com a providenciada pelo Japão, que está construindo frigoríficos para armazenar peixe em cada uma das 33 ilhas de Kiribati. A decisão não parecia ter quase nada a ver com caça às baleias, mas exclusivamente com dinheiro. "Acho que teremos que ver o que conseguimos. No fim do dia, é o benefício, sim."

 

Quando perguntando se o ministro usaria a oferta como contrapartida de barganha com o Japão, ele respondeu: "É isso que vai acontecer". Assim como Sylla, ele confirmou que o Japão paga pelo hotel, pelos voos em classe executiva, taxas de subsistência e até mesmo o visto de entrada para o delegados de seu país na IWC. Os japoneses já haviam oferecido essas facilidades para os delegados que irão ao Marrocos na semana que vem.

 

A despeito das negativas japonesas, Bootii confirmou na sexta depois de ser confrontado com o Sunday Times, que o Japão bancou as despesas da delegação do Kiribati durante as viagens da Comissão Internacional da Baleia. “A assistência dada ao Kiribati pelo Japão é parte de uma ajuda japonesa ao nosso país que está em curso e que inclui os custos de viagens para qualquer conferência internacional”, escreveu ele em um e-mail. Durante o encontro ele foi mais além, e disse que a maioria das ilhas do Pacífico que são membros da IWC são financiadas pelos japoneses. Ele citou Tuvalu e as Ilhas Marshall.

 

Algumas semanas antes, em Londres, os repórteres haviam jantado com Panapasi Nelsone, o comissário de Tuvalu na IWC. Nelsone disse que o fato de seu país ser a favor da caça de baleias não tinha nenhuma conexão com as 10 milhões de libras - US$ 14,7 milhões - que Tuvalu recebe por ano de pescadores japoneses como ‘auxílio’. Mas, quando o assunto resvalou na oferta do Japão para pagar pelos custos das viagens com as conferências da IWC, ele foi claro: “Se o Japão quer que nós votemos em uma questão em que temos posições similares, por que não poderiam nos pagar por isso?... Se você quiser que nós votemos com você, tem de me ajudar a atender o seu pedido...”.

 

Doreen de Brum, a conselheira-chefe da política pesqueira nas Ilhas Marshall, foi o próximo oficial a encontrar os repórteres. Acompanhe parte do diálogo:

 

"Repórter: Você acha… que votar contra a caça poderia criar um problema com o Japão e talvez até fazer com que a ajuda parasse?

De Brum: Eu não sei, sinceramente, mas eu acho que é por isso que temos a posição que apresentamos. É por causa do auxílio.

Repórter: Quer dizer que vocês apóiam a caça por causa da ajuda que o Japão dá a vocês?

De Brum: Sim. Nós apoiamos o Japão por causa do que eles nos oferecem. "

 

Ela seguiu dizendo que outras ilhas do Pacífico também apóiam a posição pró-caça do Japão por conta do auxílio financeiro que recebem. “O auxílio, o dinheiro, é isso”, disse ela.

 

Depois de ser informada de que os “lobistas” eram na verdade repórteres disfarçados do Sunday Times, ela retomou o discurso “público”, divulgando uma nota em que dizia que “a posição das Ilhas Marshall sobre a questão baleeira não é decidida com base na ajuda japonesa ou proveniente de qualquer outro país”.

 

Um outro bloco pró-caça são os estados-ilha caribenhos Grenada, Federação de São Cristóvão e Nevis,  Sta. Lúcia, São Vicente, Antígua e Barbados e as Grenadines.

 

São Cristóvão e Nevis, um dos menores países do mundo, tem uma população de 50 mil pessoas. A colônia britânica depende muito de auxílio externo e a indústria açucareira entrou em colapso.

 

Timothy Harris, o ministro de recursos marinhos do País, que também é o comissário da IWC, encontrou-se mais de uma vez com os repórteres. O primeiro encontro aconteceu nas dependências oficiais do governo em Basseterre, capital da ilha. Com um servidor tomando nota, Harris explicou que o Japão financiou vários projetos de infra-estrutura relacionados a pesca e estava pagando por um novo mercado de peixe em São Cristóvão. Ele prometeu levar a proposta dos repórteres de compra do voto de São Cristóvão para as instâncias superiores, mas salientou que poderia surgir a preocupação de que o Japão retirasse sua ajuda caso seu país “mudasse de lado”.

 

"Harris: Neste momento, estamos trabalhando em um projeto de um novo complexo... então, se quisermos fazer algo, nós temos de nos assegurar de que não comprometerá o projeto.

 

Repórter: Comprometer? Por que?

 

Harris: Ele está sendo financiado pelo Japão. "

 

Pouco tempo depois do encontro, Harris ligou para os repórteres e os convidou para um almoço. Em um restaurante de frente para o mar, ele parecia mais cândido. Na frente de seu funcionário,no primeiro encontro, ele tinha desfiado o discurso pró-Japão de que as baleias estariam comendo “proporções significativas” do estoque pesqueiro do País. Agora, o discurso era outro: “Eu não tenho certeza sequer se temos baleias em nossa costa, ao menos algumas”.

 

O interesse de São Cristóvão na caça às baleias era mínimo, mas o país participava da IWC porque poderia ter “benefícios diretos” e também por solidariedade a São Vicente, que ainda permite uma quota mínima de pesca para comunidades indígenas.

 

Harris disse que ele havia sido escolhido para falar em nome de seus companheiros dos países caribenhos numa reunião importante em Grenada no último mês, como comissário do Japão na IWC. Ele revelou que as ilhas estavam descontentes porque estavam sofrendo “danos de reputação” por apoiar o Japão em sua cruzada pró-caça às baleias. Harris foi instado a argumentar com os japoneses, caso fizessem uma proposta de compensação após o voto no Marrocos. As ilhas mandaram o recado de que queriam que o Japão se comprometesse com outros projetos de desenvolvimento – e não só os pesqueiros.

 

"Repórter: E a ilhas estavam ameaçando não apoiar o Japão na conferência da IWC?

 

Harris: Não, eles não colocaram as coisas assim, porque não acho que seria algo diplomático. Mas se você diz a um país ou algum parceiro que este é um assunto importante para você... e eles se recusam a ajudá-lo, então eles estão te deixado sem opção..."

 

De maneira similar, Grenada estava considerando a proposta dos repórteres marcando um encontro Michael Lett, ministro da pesca e comissário da IWC, e Daniel Lewis, da agricultura. Algum tempo depois, Lewis escreveu em um e-mail: “Eu estou feliz que a sua coalisão considerou Grenada como um receptor potencial de uma oferta de auxílio.”

 

Na África, a Costa do Marfim se mostrou interessada na oferta dos jornalistas e estava discutindo isso na última semana. Seydou Coulibaly, ministro da pesca de Mali, não estava tão convencido. Ele disse que as baleias estava ameaçando o suprimento de alimentos do País, pois consumiam muitos peixes. Como isso é possível é um mistério: Mali não tem litoral.

 

Havia uma dúvida a respeito da Tanzânia mudar sua tradicional lealdade ao Japão. Durante um jantar em Barcelona, Geoffrey Nanyaro, o comissário do País na IWC, explicou que cinco das sete pessoas chave em seu departamento de pesca falavam japonês porque haviam sido educadas lá. Ele disse que o Japão pagou 22 mil libras - ou US$ 32,4 mil - por ano a funcionários do setor pesqueiro da Tanzânia em auxílio educação e custeio da estada deles no País. Mais: ele afirmou que o Japão deu ao País 80 mil libras - US$ 117,8 mil - em auxílio nos últimos dois anos.

 

Nanyaro disse que a ajuda dada à Tanzânia não estava conectada ao voto na Comissão Baleeira, mas que temia que o País perdesse os fundos caso votasse contra os japoneses. Contudo, ele afirmou que outros países africanos pró-caça estariam sendo influenciados mais diretamente.

 

"Repórter: O que os Japoneses fazem aos outros países africanos para mantê-los “leais”?

Nanyaro: É auxílio. "

 

Ele disse que o Japão paga as passagens e os hotéis para os delegados desses países “secretamente”. Segundo Nanyaro, os comissários desses países africanos também colocam na conta do Japão as despesas com visitas pagas de garotas. Ele afirma que sempre as recusou.

"Repórter: Então você acha que osrepresentantes de outros países são ‘agraciados’ com prostitutas japonesas?

Nanyaro: Sim… Você sabe… Sim. Começa assim: ‘você quer uma massagem’?... É gratuita. Você está sozinho? Quem alguma companhia?’"

 

Um a menos

A ilha do Oceano Pacífico do Sul Palau está cancelando seu apoio ao programa de caça às baleias com 'fins científicos' do Japão. A cota só será implementada se houver aprovação unânime de todos os membros, incluindo o Japão. Ainda não há indícios do que poderá acontecer, mas a força de votação de outras propostas na reunião do ano passado permaneceram equilibradas entre países a favor da caça e seus oponentes.

 

O presidente de Palau Johnson Toribiong disse nesta segunda-feira que não acredita que a decisão possa afetar os laços diplomáticos do seu país com o Japão, o segundo maior benfeitor de Palau depois dos Estados Unidos. "Acredito que o Japão é um país maduro e responsável e tem a capacidade de aceitar a nossa posição quanto à caça às baleias", disse.

 

Na semana passada, o enviado japonês Kenro Iino visitou Palau em busca de apoio na reunião da Comissão de Baleias. Iino disse que os atuais níveis de caça não acabariam com nenhuma espécie de baleia e que esse mamíferos marinhos consomem mais peixe que os humanos, o que poderia significar uma ameaça para o estoque de peixes no mar.

Mais conteúdo sobre:
planeta sustentabilidade baleia japão

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.