Reprodção/Facebook
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'Já se fala em desenvolvimento sem crescimento econômico'

José Eli da Veiga conta a história do conceito de desenvolvimento sustentável e fala sobre a agenda 2030 da ONU

O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2017 | 17h28

Sustentabilidade é uma palavra da moda, mas que não tem uma definição única. Para José Eli da Veiga, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), quando algum termo “pega” e se populariza, é porque ele veio atender a algum tipo de anseio da sociedade. Segundo Veiga, começou-se a falar mais de sustentabilidade, em decorrência da expressão desenvolvimento sustentável, com a declaração de 1987 das Organizações das Nações Unidas (ONU) chamada “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório Brundtland.

O documento fala sobre os conflitos entre desenvolvimento sustentável e os padrões de produção e consumo vigentes. No relatório, desenvolvimento sustentável é definido como atender às nossas necessidades atuais sem comprometer o atendimento das necessidades das gerações futuras. De acordo com Veiga, o entendimento a respeito dessa definição mudou um pouco nos dias atuais, porque a palavra “necessidades” é muito restrita. Mas a ideia central permanece a mesma. Alguns anos depois veio a Rio 92, conferência que ganhou muita visibilidade na mídia e consagrou o uso do termo “desenvolvimento sustentável”. Porém, mesmo com todo o destaque, levou um certo tempo para a sociedade assimilar esse conhecimento.

A agenda dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), estabelecida pela ONU em 2001, enumerava oito metas a serem alcançadas até o final de 2015 e tratava o desenvolvimento sustentável de maneira rudimentar. Foi só na Rio+20, conferência realizada em 2012, que foi definido que a ONU deveria se encarregasse de, ao reformular sua agenda, inserir e entender o desenvolvimento sustentável em sua plenitude. Essa nova agenda é a que estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a serem alcançados até 2030. Durante a elaboração da agenda 2030 houve muita participação de organizações da sociedade civil, o que nunca tinha acontecido antes. Juntou-se muitos grupos de pressão, cada um com sua agenda específica. “Isso cria a dinâmica da ‘árvore de Natal’: cada grupo quer ir lá pendurar seus ‘enfeites’, diz Veiga. Essa dinâmica fez com que o número de objetivos mais que dobrasse, indo de 8 para 17. Para alguns deles existem indicadores e metas. Para outros, não.

Crescimento x desenvolvimento

Para José Eli da Veiga, é importante diferencias os conceitos de crescimento e desenvolvimento para entender melhor os objetivos da agenda 2030. Segundo o professor, há algumas décadas não havia diferença entre os dois conceitos. Mas, nos anos 1950 começou-se a notar que muitos países, como o Brasil e outras nações ex-coloniais, tinham crescimento de riqueza, mas não melhoravam seu desenvolvimento, por não investir em objetivos qualitativos, como educação e saúde, por exemplo. “Hoje pensamos que desenvolvimento é a expansão das liberdades humanas, e o crescimento econômico é um meio para atingir esse fim”, diz Veiga.

Em países mais ricos e avançados, como os escandinavos, debate-se se é realmente necessário aumentar a produção de riqueza para se desenvolver. “Já se fala em prosperidade sem crescimento econômico”, diz Veiga. Claro que essa dinâmica não funciona para qualquer país, mesmo para alguns dos desenvolvidos, como Alemanha e França, que ainda precisam crescer para se desenvolver mais. Por outro lado, nos países pobres, classificados como a ONU como menos desenvolvidos, o crescimento econômico é necessário até para a população poder se alimentar adequadamente. Entre os dois extremos, faixa onde o Brasil se situa, o crescimento econômico pode ser seletivo, escolhendo-se onde colocar mais recursos. Por exemplo, investir em energias renováveis em detrimento de outros setores.

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