Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Isolamento cria poupança de peixe

Experiência pioneira isola área dentro de unidade de uso sustentável e promove proliferação de animais

Giovana Girardi, enviada especial* - O Estado de S.Paulo,

30 Outubro 2012 | 22h30

Tamandaré (PE) - Há cerca de 15 anos, os pescadores da região de Tamandaré estavam aflitos com a diminuição da oferta de pescado, que era farta 40 anos antes. "O peixe fugiu", queixavam-se a Mauro Maida, oceanógrafo do sul do País, que, depois de ter feito doutorado na Austrália, aportava em Pernambuco para estudar a segunda maior barreira de recifes de corais do Atlântico Sul.

A situação que encontrou era igualmente ruim. Embora em algumas áreas a cobertura viva dos recifes fosse abundante, assim como a presença de peixes e crustáceos, em outras a estrutura estava quase despovoada, com cobertura média de menos de 20% – em alguns casos, menos de 10%. "O pessoal coletava para fazer calcário, tirava para vender para turistas. E bastava alguma coisa viva se mexer para ser capturada", conta o pesquisador.

Os pescadores mais experientes sabiam que naqueles recifes se criavam muitos peixes de interesse comercial, mas achavam que era a pesca de arpão que estava afugentando os bichos.

Quando entenderam que na degradação daquele ambiente estava a explicação, foi possível desenvolver uma experiência pioneira no Brasil, que isolou uma área do mar de qualquer tipo de impacto humano, seja de pesca, turismo ou navegação.

Cenários isolados assim existem em outros cantos do País, mas, em geral, são casos em que um local é transformado em unidade de conservação de proteção integral, como ocorre com o Atol das Rocas e Abrolhos. No litoral de Pernambuco, a situação era bem diferente.

Em 1997, um trecho de 135 km de costa entre Tamandaré e Paripueira (AL) havia sido transformado pelo governo federal na Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, categoria que permite o uso sustentável. Dois anos depois, com base nas pesquisas de Maida e de sua mulher, a bióloga Beatrice Padovani, ambos da Universidade Federal de Pernambuco, e em acordo com a população local, uma pequena área de 400 hectares, que representa 0,1% da APA, foi fechada como reserva marinha.

O ponto, conhecido como Ilha da Barra, passou a ser monitorado diariamente, assim como recifes vizinhos, para checar os efeitos do isolamento na comparação com o uso contínuo. Após 13 anos, a experiência mostra bons resultados. E, se sozinha não foi capaz de aumentar os estoques de peixes a ponto de atender a todos os pescadores, já serve de modelo para ser replicado.

Coral-de-fogo

Segundo Maida, houve uma recuperação de 90% da cobertura viva dos recifes da área fechada, principalmente pelo coral-de-fogo Millepora alcicornis, que é uma espécie de rápido crescimento. O tempo ainda é curto para a observação de outras espécies que possam estar repovoando o local. Algumas crescem à lenta velocidade de 3 a 4 milímetros por ano – contra 10 centímetros do coral-de-fogo.

Outro sinal de melhora é a diminuição de ouriços do mar, um indicador de estresse ambiental. Quando os corais morrem, eles ocupam os recifes e vão raspando o substrato para se alimentar de algas, o que deixa a estrutura cheia de buracos. "Quando a Ilha da Barra foi fechada, a abundância de ouriços era, em média, de 60 indivíduos por metro quadrado. O recife estava sendo erodido. E, se ele reduz muito de tamanho, perde a função de proteger a costa das ondas", diz Maida.

Com o isolamento, populações de peixes e lagostas voltaram a crescer na área, controlando a população de ouriços, que caiu para 4 por metro quadrado, o que deu espaço para os corais reocuparem os recifes. Também há, em média, seis vezes mais lagosta dentro que fora e quatro vezes mais polvos.

É a mesma abundância média verificada entre peixes, sendo que para algumas espécies a vantagem passa de dez vezes dentro da Ilha da Barra, segundo Beatrice. Ela está finalizando também dados sobre aumento da biomassa, em artigo que vai analisar dez anos de monitoramento. "O aumento de indivíduos por metro quadrado foi rápido, progressivo e então se estabilizou, até porque a área é limitada. Mas o aumento da biomassa, que é o peso dos bichos, é contínuo", afirma a pesquisadora.

"Hoje, quando um pescador pega um polvo grande, de 1 kg, 1,5 kg, sabe que ele vem da área fechada. Do lado de fora, já vi um pescador pegar um polvo de 12 gramas", acrescenta Maida.

A tridimensionalidade do ambiente forma uma estrutura ideal para os animais crescerem. Vários peixes passam ao menos uma etapa do seu ciclo de vida abrigados pelos recifes. Se o local fica muito degradado, os peixes não têm onde ficar. Por isso a reserva funciona como um banco de peixes. Se eles têm tranquilidade para ficar no local crescendo, quando saem para povoar outros locais, estão maiores.

Alguns pescadores já perceberam essa melhoria e começaram a se posicionar no entorno da Ilha da Barra, esperando pegar os animais no transbordo, diz Maida. Questionado se os peixes lá sabem qual é a fronteira e a hora certa de sair, ele arremata com uma história de pescador. "A área fechada está cheia de tainha. Os pescadores ficam com as redes do lado de fora, esperando. Pois eles contam que a tainha chega à borda, olha e volta. O peixe sabe!", brinca.

*Repórter e fotógrafo viajaram a convite da SOS Mata Atlântica

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