Anamma-PB/Divulgação
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Inundações em Recife podem ter causado ondas de lixo em praias do Rio Grande do Norte e Paraíba

Material recolhido inclui objetos de uso pessoal e doméstico, como chupetas, fraldas, chinelos, vasilhas e garrafas plásticas

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2021 | 15h10

SOROCABA - O lixo doméstico e hospitalar que atingiu as praias do Rio Grande do Norte e da Paraíba nos últimos dias pode ter sido levado para o mar pelas inundações que atingiram a área urbana de Recife, a capital de Pernambuco, na segunda semana de abril. De acordo com o presidente da Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anamma), Welison Silva, que é também secretário do Meio Ambiente de João Pessoa, materiais com identificação de procedência no lixo, como uma mochila escolar, santinhos de um candidato a vereador e restos de correspondência com endereço de Recife, reforçam a hipótese.

Entre os dias 9 e 14, a capital pernambucana registrou chuva acumulada de 343 milímetros de chuva, mais que a média prevista para o mês, de 326 mm, segundo a Agência Pernambucana de Água e Clima. Foi o maior índice de chuvas do Estado, e a cidade sofreu fortes inundações. Houve alagamentos e queda de barreiras em toda a região metropolitana. No bairro Cohab, na zona sul da capital, um homem foi levado pela correnteza - o corpo foi encontrado no último domingo, 25.

Conforme Silva, não houve outro evento que possa explicar a chegada de aproximadamente 40 toneladas de lixo nas praias do litoral. “Fizemos inspeções aéreas e marítimas, incluindo a foz de rios, e nada foi encontrado que pudesse indicar a origem dos resíduos em território paraibano”, disse. Ele acredita que os alagamentos podem ter carregado lixo urbano da região metropolitana de Recife para o mar e as correntes marítimas teriam levado o material flutuante para pontos mais distantes da costa. As marés e as ondas empurraram o lixo para as praias.

O material recolhido inclui objetos de uso pessoal e doméstico, como chupetas, fraldas, chinelos, vasilhas e garrafas plásticas, além de lixo hospitalar, incluindo seringas descartadas, tubos para coleta de sangue e embalagens de medicamentos. Os resíduos foram recolhidos nas praias do Bessa, Manaíra e Tambaú, em João Pessoa, e nas orlas de Lucena, Conde e Cabedelo. Também foi encontrado lixo nas praias do Rio Grande do Norte, próximas da divisa entre os dois Estados. Praias badaladas de Tibaú do Sul, como a da Pipa, ficaram cobertas por resíduos.

Conforme o secretário, já houve contato com órgãos ambientais e da prefeitura de Recife para análise conjunta das amostras colhidas nas praias. Praticamente todo o lixo já foi recolhido por equipes das prefeituras e voluntários. Relatórios sobre a poluição serão encaminhados aos ministérios públicos estadual e federal.

A Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) da Paraíba informou que técnicos vistoriaram as praias e trabalham para identificar a origem dos resíduos. Segundo a agência ambiental, em relação aos banhistas, a balneabilidade das praias não foi afetada. Conforme a Superintendência do Ibama no Estado, o instituto pediu relatórios aos municípios sobre as ocorrências.

A Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco informou que está em contato com os órgãos ambientais do Rio Grande do Norte e da Paraíba para auxiliar na identificação da origem do lixo. A pasta pediu amostras do material recolhido nas praias para análise.

Sobre as chuvas em Recife, a Secretaria de Infraestrutura da capital informou que, desde o início do ano, investiu mais de R$ 90 milhões em ações para prevenção e monitoramento das áreas de risco, além de limpeza de canais e eliminação de pontos de alagamento. No total, foram retiradas 3,7 mil toneladas de resíduos de 50 canais e 168 vias públicas, galerias e canaletas para prevenir enchentes.

Consórcio de Estados do Nordeste decide investigar origem de lixo nas praias da região

O Consórcio do Nordeste, integrado pelos nove Estados da região, decidiu nesta terça-feira, 27, enviar especialistas para contribuir com o Rio Grande do Norte e Paraíba na identificação da origem do lixo que atingiu as praias da região. Os técnicos trabalharão no mapeamento, perícia, análise quantitativa e qualitativa do material encontrado, “com o objetivo de encontrar o causador do dano ambiental”.

Segundo o consórcio, serão firmadas parcerias com universidades e instituições de pesquisa para aprofundar a investigação. Os Estados decidiram agir conjuntamente e de forma emergencial contra ameaças ambientais como o lixo urbano e hospitalar que chegou às praias do Rio Grande do Norte e da Paraíba, naquela região do País. 

A decisão foi tomada após reunião da câmara temática de Meio Ambiente do Consórcio Nordeste, com membros de todos os Estados. Os integrantes não descartam a possibilidade de o lixo atingir outras praias da região.

Entre as medidas, está a formação de uma rede de apoio para contribuir com Estados e municípios para o enfrentamento do lixo do mar, “sem se restringir a Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, uma vez que o lixo marinho é um problema mundial” e o fenômeno “pode atingir os demais Estados da região”, segundo nota divulgada pelo consórcio.

Será criado um protocolo de procedimentos para orientar os municípios litorâneos sobre como agir diante do aparecimento de resíduos sólidos nas praias. O documento será elaborado de forma cooperada pelos Estados membros, prezando “pela preservação de indícios, vestígios e provas que possam levar à identificação do autor do dano ambiental e a devida destinação do material encontrado”. O documento prevê orientação aos municípios para reforçar a fiscalização junto às empresas prestadoras de serviços de limpeza urbana, transporte e destinação de resíduos sólidos.

Constituído em 2019, o Consórcio Nordeste é uma autarquia interfederativa que reúne os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, todos da região nordeste do Brasil.

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