PEDRO IVO PRATES/ESTADAO
PEDRO IVO PRATES/ESTADAO

Interpretação do criminoso é de que Exército estava na Amazônia só para inglês ver, diz cientista

Operação militar na floresta termina em 30 de abril; Carlos Nobre vê falta de sintonia entre ação das tropas e discurso do governo federal sobre ambiente

Entrevista com

Carlos Nobre, climatologista ligado ao Instituto de Estudos Avançados da USP

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 05h00

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, anunciou nesta quarta-feira, 10, o fim da Operação Verde Brasil 2, em que militares foram levados à Amazônia para frear a alta de crimes ambientais. As tropas vão ficar na região somente até 30 de abril. A promessa agora é focar o trabalho dos agentes ambientais em 11 municípios com as taxas mais altas de desmate. O Estadão apurou que esse fim “prematuro” da operação está ligado à falta de verba federal para o Ministério da Defesa.

Na opinião do cientista Carlos Nobre, ligado ao Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), a ausência dos militares não é uma má notícia. Um dos maiores especialistas em Amazônia do Brasil, ele afirma que as tropas não tinham o mesmo treinamento que os agentes ambientais, como os do Ibama, e o combate ao desmatamento também foi atrapalhado pelo discurso da gestão Jair Bolsonaro de afrouxamento da legislação do setor

Ao falar sobre resultados da Verde Brasil 2, Mourão disse que, entre 1º de junho de 2020 e 31 de janeiro deste ano, houve redução de 19% no desmate, quando comparado ao mesmo intervalo anterior. No balanço anual, porém, de agosto de 2019 a julho do ano passado, a alta é de de 9,5%. “A interpretação do criminoso é que o Exército estava lá para inglês ver”, diz Nobre.

Qual é o balanço da ação dos militares na Amazônia?

Alguém pode até dizer que, se não fosse o Exército, o desmatamento poderia ter explodido mais. Mas não foi para isso que eles foram para lá. O Exército foi para reduzir o crime ambiental, mas teve papel pouco efetivo. Minha avaliação é de que explodiu a boiada do enfraquecimento da legislação ambiental a partir da fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (na reunião ministerial de abril de 2020). Havia uma mensagem caótica do governo federal. Por um lado, a ação no campo dos militares; por outro, uma ação infralegal de enfraquecimento da legislação ambiental. Esta última ganhou a guerra. O criminoso que grila terra, desmata área ilegal e usa fogo quando é proibido se sente empoderado. A interpretação do criminoso é de que o Exército está lá para inglês ver, dar resposta de melhoria da imagem do País no exterior, mas não melhorou.

O que podemos tirar de lição?

Não adianta utilizar pessoas não capacitadas e não experientes em fiscalização no lugar de pessoas com dezenas de anos de efetividade de fiscalização.

Agora que os militares saem de cena, e os profissionais da fiscalização voltam ao protagonismo, a situação pode melhorar?

Sim, vão melhorar. Mas é preciso investir mais em recursos para que os profissionais do Ibama e dos Estados tenham recursos para fazer a fiscalização. 

O que é preciso fazer daqui para frente?

Se o vice-presidente de fato for sério a respeito (sobre combater o desmate), tem de aprender com o enorme sucesso que o País teve de 2004 a 2014. Se corrigirmos os valores para hoje, eram mais de R$ 300 milhões só em fiscalização. Os dados do Inpe alimentavam os sistemas de fiscalização, Ibama, ICMBio, polícias federais, estaduais, militares; eles iam e pegavam (o bandido) no ato.

Em 2019, desmataram 2.500 hectares na floresta nacional do Jamanxim. Isso levou um mês e meio. O Inpe mandava 15 alertas por dia sobre esse desmatamento. O desmatamento não é algo que se faz em um segundo, leva semanas ou até meses. O satélite enxerga aquilo diariamente. É muito trivial mandar uma força do Ibama para interromper aquilo. Isso foi a razão do sucesso para reduzir o desmatamento em 80% de 2004 a 2012. O Brasil atingiu protagonismo internacional, foi o país que mais reduziu a emissão de gás de efeito estufa pela redução do desmatamento. Ficou muito custoso financiar o crime ambiental.

O Brasil estava indo na direção de zerar o desmatamento em poucos anos, mas infelizmente isso parou em 2015 por causa da recessão, depois houve uma pressão política muito grande da bancada ruralista. E, nos últimos anos, há o discurso político de voltar para o modelo de desenvolvimento 50 anos atrás, para um modelo sem floresta, porque “floresta atrapalha o desenvolvimento”.

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