Carol Quintanilha / ISA
Carol Quintanilha / ISA

Indígenas coletam sementes nativas para salvar águas e floresta na Amazônia

Grupo, com cerca de 600 integrantes, é um dos maiores do tipo no Brasil e já serviu de inspiração para iniciativas semelhantes

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

25 de abril de 2022 | 10h00

A íntima relação que etnias como a Juruna e a Xavante têm com a natureza mostra que o desmatamento é o grande vilão da queda da qualidade da água em bacias hidrográficas como a do Rio Xingu, entre o Pará e o Mato Grosso, na Amazônia. Qualquer solução ambiental, portanto, passa pelo ato de refazer partes da floresta.

A Rede de Sementes do Xingu é um desses exemplos. A iniciativa reúne grupos de coletores de sementes nativas, entre indígenas e agricultores familiares que vivem em assentamentos, com o objetivo de recuperar áreas do Cerrado e da Amazônia. Além disso, é uma oportunidade para geração de renda. 

“Estamos na rede de sementes desde o começo. Precisamos trabalhar contra as pressões que existem sobre as terras indígenas (áreas federais protegidas)”, afirma Tawaiku Juruna, um dos coletores e organizadores da Rede de Sementes do Xingu na Aldeia Tuba Tuba, em Mato Grosso

Aos 35 anos, Tawa, como é mais conhecido, acompanha desde o início o processo de criação do coletivo. “As matas preservam as florestas. Por isso, decidimos replantá-las”, acrescenta o representante da etnia Juruna.

Em 2007, quando surgiu a Rede de Sementes do Xingu, se percebeu que a demanda por sementes seria crescente e, por isso, era preciso contar com muitos coletores em campo para trazê-las da natureza. A rede é atualmente uma das maiores do Brasil e já serviu de exemplo para outras iniciativas semelhantes. A região tem uma importância fitogeográfica essencial, por estar na transição entre a Amazônia e o Cerrado. 

A ideia se expandiu, como explica Bruna Ferreira, diretora da Rede de Sementes do Xingu, que reúne agora 600 coletores (aproximadamente 65% são mulheres). Os números compilados ao longo de quase 15 anos da Rede mostram resultados robustos. Os coletores, desde 2007, forneceram 220 espécies diferentes de sementes para a restauração de áreas degradadas, gerando renda total de R$ 5,3 milhões, repassada diretamente às comunidades de coletores. 

As 294 toneladas de sementes que foram comercializadas até hoje fizeram crescer por volta de 25 milhões de árvores em 7,4 mil hectares.  “Temos aproximadamente 25 grupos de coletores. Além dos indígenas, temos os assentados e os coletores urbanos”, explica Bruna. Na outra ponta da cadeia, os principais clientes da Rede são os fazendeiros e projetos ambientais ligados ao terceiro setor.

​As sementes coletadas no âmbito do programa são usadas por proprietários rurais que precisam, por lei, ou querem recuperar parte de suas propriedades com vegetação nativa. Depois de dois anos, em média, os chamados serviços ambientais da floresta costumam a ser contabilizados (a preservação dos recursos hídricos da região, por exemplo). Nos caso dos grandes rios, como o Xingu, essa melhoria também é percebida nas terras indígenas. “Agora temos uma novidade também, impulsionada pela campanha que a (modelo) Gisele Bundchen fez. A indústria da moda também está nos procurando”, continua a diretora da rede. 

A coleta das sementes na natureza, segundo Tawa, ocorre principalmente sob demanda. Também precisa, no entanto, respeitar o ciclo da natureza. “Este ano não deu (muita semente) de jatobá. Por isso, o ano que vem deverá dar”, explica o indígena da etnia Juruna ou Yudja, como eles preferem. As outras quatro etnias que fazem as coletas dentro da Terra Indígena Xingu são Kawaiwete, Wauja, Matipu e Ikpeng. Entre outras espécies envolvidas no trabalho do grupo, estão o caju, a copaíba e o buriti. 

Segundo Bruna, a renda varia muito e depende das diárias trabalhadas nas coletas. Algumas famílias, segundo ela, podem levantar até R$ 50 mil por ano. Enquanto outras não chegam a tirar 1% disso. No caso dos indígenas, a programação das coletas pode durar o ano inteiro, de acordo com a época de produção de sementes de cada uma das espécies. A mata, para essas etnias, sempre foi sinônimo de sobrevivência.

Depois da coleta, o material é estocado nas chamadas casas de sementes, em pontos estratégicos da região. No momento do plantio, tudo é feito a partir de técnicas embasadas pela ciência. 

“Usamos a muvuca (técnica para plantar as sementes). Apesar do nome, as misturas feitas não são ao acaso e seguem padrões botânicos”, explica Bruna. Nesse tipo de plantio, uma determinada quantidade de sementes, de espécies diferentes, é misturada previamente. Todas elas, juntas, são plantadas ao mesmo tempo no solo das áreas degradadas, seja manualmente ou com o uso de máquinas. Outras iniciativas que também usam a muvuca: quilombolas do Vale do Ribeira e associações que trabalham com a Mata Atlântica no sul da Bahia.

“A grande importância desse trabalho é ajudar a floresta a permanecer em pé”, sintetiza Tawa, fazendo referência ao desmatamento que vem ocorrendo principalmente além dos limites das terras indígenas. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, mostram que, entre 2018 e 2020, ao menos 513,5 mil hectares de desmate foram detectados na bacia hidrográfica do Xingu. Dessa cobertura vegetal perdida, 66,5 mil hectares estavam dentro de reservas indígenas. 

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