Indicadores do IBGE mostram um País ecologicamente paradoxal

Brasil mostra muitos avanços, mas ainda está entre líderes mundiais na emissão de gases estufa

Wilson Tosta e Felipe Werneck, de O Estado de S. Paulo,

04 Junho 2008 | 18h26

Sob cobrança global por fracassar no combate ao avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia - que o colocam entre os líderes mundiais na emissão de gases estufa -, o Brasil se antecipou no cumprimento das metas internacionais de redução de substâncias que destroem a camada de ozônio, protetora contra radiações solares. O paradoxo no meio ambiente se destaca na pesquisa "Indicadores do Desenvolvimento Sustentável Brasil 2008", divulgada nesta quarta-feria, 4, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra que a poluição atmosférica brasileira mudou de perfil. As emissões industriais caíram, mas o ar é afetado negativamente pelo aumento da frota de veículos, fruto do crescimento econômico, e pela queima de matas, no Norte e Centro-Oeste, e de cana-de-açúcar, no Nordeste, em Minas Gerais e em São Paulo, para limpar plantações para produção de etanol.   Veja Também: Único bioma exclusivo do Brasil é o menos preservado, diz IBGE Desenvolvimento sustentável está longe da meta, diz IBGE  Brasil não consegue ampliar proteção ao Pantanal, diz IBGE  Consumo de energia no país cresceu 37,37% entre 1995 e 2006  Uso de fertilizantes no País dobrou entre 1992 e 2006  Minc quer restrições de crédito da Amazônia em outros biomas  Acompanhe a trajetória do desmatamento na Amazônia; abril teve mais desmate  Leia a edição online da Revista da Amazônia   Fórum: é possível salvar a floresta amazônica?    "O Brasil vem reduzindo aceleradamente o consumo de substâncias destruidoras da camada de O3 (ozônio),superando, inclusive, as metas estabelecidas para o País no Protocolo de Montreal", assinala o estudo. "Observa-se, especialmente a partir do final dos anos 1990, uma forte redução no consumo de HALONs, CTC, CFCs e brometo de metila, compostos com maior potencial de danos à camada de O3." De acordo com dados do Núcleo de Ozônio do Ministério do Meio Ambiente, citados no estudo, a queda nas substâncias foi de 11.198 para 1.431 toneladas, de 1992 a 2006.   No gás carbônico, um dos causadores do efeito estufa, contudo, a situação brasileira se inverte. "No caso do Brasil, a principal fonte de emissão de CO2 é a destruição da vegetação natural, com destaque para o desmatamento na Amazônia e as queimadas no cerrado (...)", diz o estudo.   "Essa atividade responde por mais de 75% das emissões brasileiras de CO2, sendo a responsável por colocar o Brasil entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa para a atmosfera." O estudo mostra que o problema é antigo: em 1990, das 978.583.000 toneladas de CO2 emitidas, 77,48% (758.281.000) foram causadas pelo item "Mudança no uso da terra e florestas" (derrubada e queimada de matas). Em 1994, houve queda na proporção, mas pequena: do 1.029.706.000 emitidos, 75,3% (776.331.000) tiveram essa origem. A situação não melhorou até hoje, avaliam os técnicos do IBGE.   Para o responsável pelos Indicadores Ambientais do estudo, biólogo Judicael Clevelario Junior, a IDS mostra um quadro contraditório do meio ambiente no País. "Há indicadores mostrando uma direção muito boa, mas desmatamento e queimadas ainda têm dados muito ruins", disse ele. "Precisamos desfazer essa contradição."   O diagnóstico do IBGE congrega 60 indicadores produzidos ou reunidos pelo instituto, na terceira edição da IDS - as duas anteriores foram feitas em 2002 e 2004. Os dados foram distribuídos por quatro Dimensões: Ambiental, Social, Econômica e Institucional.   Os técnicos do órgão tiveram como parâmetro o conceito de desenvolvimento sustentável cunhado em 1987 pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento: o atendimento das necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades.   Estabilidade   Em relação à qualidade do ar nas cidades, o estudo aponta estabilidade e até redução em alguns poluentes, com exceção do ozônio. "De forma geral, em média, a qualidade do ar nas cidades brasileiras tem melhorado", diz Judicael. "No ano passado, não melhorou tanto, pelo aumento da frota de veículos. Os principais emissores são os veículos automotores."   Combustíveis com óxido de enxofre em grande quantidade e veículos ainda com emissões excessivas estão na origem desse tipo de poluição atmosférica, de acordo com o pesquisador. Segundo ele, o problema no Brasil não está mais concentrado nas grandes cidades, "mas nas pequenas, médias e grandes cidades das áreas de fronteira agrícola, devido às queimadas, no chamado Arco do Desmatamento: Rondônia, Mato Grosso e leste do Pará." Ele também destaca como fonte de emissões as queimadas de plantações de cana-de-açúcar, necessárias para "limpar" o terreno para a colheita manual do produto.   Paradoxalmente, o uso do etanol de cana, na outra ponta, é apontado pelo coordenador técnico e de planejamento global da IDS, Wadih João Scandar Neto, como um dos motivos para relativa melhoria na qualidade do ar urbano no País, além dos veículos novos, que já saem de fábrica dotados de catalisadores, e alguma melhoria na qualidade dos combustíveis.   Outro, segundo Judicael, é a redução relativa da poluição industrial, pelo controle das emissões e pela mudança das indústrias dos grandes centros urbanos. "As emissões industriais, hoje, não são mais, de forma geral, grande fonte de poluição", diz o pesquisador. "A gente ainda tem um grande caminho a percorrer, mas a coisa tem melhorado."

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