Kemal Jufri/The New York Times
Kemal Jufri/The New York Times

Incêndios e óleo de palma ameaçam macacos na Indonésia

Fogo usado por agricultores para limpar a terra já matou pelo menos nove orangotangos nativos das florestas de Bornéu e Sumatra

Joe Cochrane, The New York Times

20 Abril 2016 | 11h43

NYARU MENTENG - Quando a dócil Katty caiu da árvore, a professora rapidamente a pegou, limpou o bumbum da pequena, ajustou a fralda descartável branca e a colocou de volta em um galho a mais de 2 metros do chão.

Katty é uma orangotango com cerca de nove meses de idade, cuja família pode ter sido morta pelos enormes incêndios no final do ano passado, nas regiões indonésias de Bornéu e Sumatra. As chamas são uma ocorrência anual, quando os agricultores limpam a terra através de queimadas, muitas vezes para plantar óleo de palma, mas os incêndios do ano passado foram os piores já registrados, e os cientistas culparam a seca prolongada e os efeitos do El Niño.

O fogo destruiu quase 26 mil quilômetros quadrados de florestas, cobrindo grande parte do Sudeste Asiático com uma névoa tóxica por semanas, revoltando centenas de milhares de pessoas e, de acordo com o Banco Mundial, causando perdas de US$ 16 bilhões.

Também mataram pelo menos nove orangotangos, macacos nativos das florestas de Bornéu e Sumatra, ameaçados de extinção. Mais de 100 deles, encurralados pela perda de habitat ou vistos vagando perto de aldeias, tiveram que ser transportados para outros lugares. Sete órfãos, incluindo cinco pequenos, foram resgatados e levados para centros de reabilitação da região.

"Este é o maior centro mundial de reabilitação de primatas, não só de orangotangos, mas não temos orgulho disso. O número de orangotangos aqui é um indicador da enorme destruição da floresta devido à falta de aplicação da lei e à distribuição de concessões de plantio feita pelo governo local", disse Denny Kurniawan, diretor do programa do Centro de Reabilitação de Orangotangos Nyaru Menteng, que supervisiona os cuidados a 480 animais em sete locais na província de Kalimantan Central, na Ilha de Bornéu.

O sofrimento da vida selvagem resulta da grande expansão corporativa em uma economia em desenvolvimento colidindo com questões ambientais na era da mudança climática.

A Indonésia aprovou concessões de terras para cultivo de óleo de palma em cerca de 6 milhões de hectares de áreas de turfas na última década; quando a turfa queima, emite altos níveis de dióxido de carbono e o fogo é extremamente difícil de extinguir.

As multinacionais de óleo de palma, as companhias de papel e celulose, os grandes produtores que são seus fornecedores, os fazendeiros e até mesmo os trabalhadores contratados, todos contribuem para o problema. Grupos como o Greenpeace e o Fórum Indonésio do Meio Ambiente culpam as grandes plantações pelas queimadas, usadas para limpar a terra.

Esse método é proibido pela lei local, mas o controle é pouco eficiente. As autoridades abriram investigações criminais contra pelo menos oito empresas ligadas aos incêndios do ano passado, mas nenhum caso de destaque chegou aos tribunais.

O governo em Jacarta, a capital, proibiu recentemente a drenagem e a limpeza de todas as regiões de turfas para uso agrícola e ordenou que os governos provinciais adotassem métodos de controle de fogo mais eficientes, mas isso não correspondeu aos pedidos públicos de prevenção, tais como reprimir as operações de corte e queima feitas por grandes empresas de óleo de palma.

"Investimento é bom, mas o meio ambiente também é. Tem que haver um equilíbrio", disse Eman Supriyadi, diretor de um centro de reabilitação menor onde dois orangotangos órfãos - Oka, de 6 meses, e Otong, de 3 anos - são alimentados com mamadeira de leite em pó infantil e dormem em berços de bambu.

O governo admitiu que "errou" na concessão de extensas faixas de terra para grandes corporações que exploram o óleo de palma e para empresas de papel e celulose nos últimos 10 anos, disse Luhut B. Pandjaitan, ministro de Coordenação de Assuntos Políticos, Legais e de Segurança.

"O governo tomou medidas sérias para brecar novas concessões para essas grandes indústrias. Estamos encorajando-as a ampliar sua eficiência para que a produtividade cresça sem a necessidade de mais terra", disse ele.

No entanto, acrescentou que a principal causa dos incêndios de 2015 foi a destruição ambiental já existente, combinada com o ciclo climático do El Niño.

Katty, a orangotango de aproximadamente nove meses de idade, foi encontrada por aldeões em uma floresta queimada em Kalimantan Central, em outubro passado, e acabou sendo levada para o centro de Nyaru Menteng, estabelecido pela Fundação para Sobrevivência do Orangotango de Bornéu, em 1999.

Ela agora vive com 20 outros pequenos, em uma velha casinha térrea de madeira convertida em um berçário de orangotangos, que dormem lado a lado em cestas de plástico coloridas forradas com folhas.

Eles vão passar os próximos sete anos ou mais aprendendo com seus tratadores humanos a subir em árvores, fazer um ninho de folhas, encontrar frutas comestíveis na floresta e a evitar cobras e outros predadores antes de serem devolvidos à selva quando estiverem um pouco mais velhos.

Todos os dias às sete da manhã, grupos de três ou quatro são postos em alguns carrinhos de mão e levados para uma área cercada de floresta, a uns cem metros de distância, para terem as aulas de sobrevivência. Eles se alimentam de frutas, principalmente bananas e rambutã, e de leite em pó infantil.

Os tratadores tomam cuidado para não serem excessivamente carinhosos com seus adoráveis pupilos: os orangotangos precisam aprender a evitar os seres humanos e a não se habituar com sua presença, parte da preparação para seu regresso à selva.

A maioria dos orangotangos mais velhos do centro também é órfã; muitos foram encontrados sozinhos e resgatados por conservacionistas ou habitantes locais ou confiscados de pessoas que os mantêm ilegalmente como animais de estimação.

O centro procura devolver às florestas 68 animais jovens por ano. Quando são soltos, cada animal é controlado por um chip implantado perto da base do pescoço, que envia sinais para o centro por cerca de dois anos.

O programa de devolução à natureza também foi comprometido pelo fogo, que reduziu drasticamente o possível habitat do orangotango.

Ao longo dos anos, milhares de quilômetros quadrados foram desmatados para plantações, a maioria em terras baixas, que são o principal habitat dos orangotangos. Os incêndios no ano passado destruíram mais de 4.270 quilômetros quadrados de floresta apenas em Kalimantan Central, ou 16% do total.

"Nosso problema é que agora, quando somos informados de que há orangotangos precisando de resgate, não sabemos para que lugar devolvê-los, porque não há mais floresta em Kalimantan Central. A cada dia, estima-se que perdemos áreas florestais do tamanho de um campo de futebol e elas são o habitat desse animal", disse Denny.

Desde 2012, o centro de reabilitação devolveu 158 orangotangos a uma floresta protegida de 320 quilômetros quadrados, conhecida como Batikap, mas, segundo Denny, ela já atingiu sua população máxima recomendada.

Ele contou que o centro está negociando com o governo federal para estabelecer uma reserva de 745 quilômetros quadrados no Parque Nacional Bukit Baka-Bukit Raya, nas províncias de Kalimantan Central e Kalimantan Ocidental, para futuras solturas dos animais.

Os incêndios do ano passado causaram tamanho clamor que o governo provincial e os chefes distritais de Kalimantan Central não aprovaram novas concessões de óleo de palma este ano.

Mas, com o clima que continua seco, novos incêndios começaram. Em março, o governador da província de Riau, em Sumatra, declarou estado de emergência por causa deles, e a Agência Indonésia de Meteorologia, Climatologia e Geofísica emitiu um aviso sobre o aumento do risco de incêndios em Sumatra e Bornéu até o final de abril.

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