Breno Fortes/CB/D.A Press
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Incêndio destrói 22% do Parque da Chapada dos Veadeiros, em Goiás

Propagação do fogo é considerada a pior da história da unidade, que protege o Cerrado e atrai cerca de 60 mil turistas por ano

O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2017 | 09h31
Atualizado 25 Outubro 2017 | 13h55

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, uma das mais importantes unidades de conservação do Cerrado, está sendo consumido pelas chamas, no que já é considerado o pior incêndio de sua história recente. Em uma semana, o fogo, classificado pela direção do parque como criminoso, já devastou mais de 54 mil hectares – ou 22% da área total. E, até a noite desta terça-feira, 24, não dava sinais de que estava sob controle.

Com uma visitação de cerca de 60 mil pessoas por ano, o parque teve seus limites triplicados em junho pelo governo federal, passando de 65 mil hectares para 240 mil hectares. A comunidade do entorno e pesquisadores que atuam na região suspeitam que o fogo possa ter sido uma forma de retaliação contra a ampliação do parque.

O crescimento atendia a uma demanda de ambientalistas e cientistas de se criar uma proteção maior a uma área riquíssima do Cerrado – que abriga ao menos 34 espécies da fauna e 17 da flora ameaçadas de extinção. Ali têm abrigo os icônicos pato-mergulhão, onça-pintada, lobo-guará e cervo-do-Pantanal.

Além disso, o bioma, apesar de ser o segundo maior do País (perdendo em tamanho só para a Amazônia), tem apenas 8% de sua área protegida em unidades de conservação, ante 27% da floresta tropical. Por outro lado, tem taxa de desmatamento cinco vezes maior que a da Amazônia. Uma área protegida maior na chapada era importante para, por exemplo, conter o avanço da soja.

A expansão, porém, levou vários anos para se concretizar por enfrentar resistência do governo estadual e de algumas famílias de produtores rurais que vivem em áreas para onde o parque cresceu. “Durante as consultas públicas, pessoas se manifestaram dizendo que iam queimar se fosse ampliado. Teve uma declaração de guerra”, afirma o biólogo Reuber Brandão, da Universidade de Brasília (UnB), que acompanhou o processo.

Perícias serão realizadas para identificar a origem e as causas do incêndio que teve início na terça-feira da semana passada, mas há indícios de premeditação. Um dos focos está nas áreas posteriores àquelas onde o aceiro (barreira para contenção do fogo) já havia sido feito, e teria começado entre as 10 horas e as 15 horas, facilitando a propagação.

“O fato de o incêndio ter surgido no interior do aceiro, me leva a crer que alguém adentrou no parque e botou fogo. Não temos elementos para dizer quem é o responsável, mas podemos dizer, com certeza, que é criminoso”, disse ao Estado o diretor do parque, Fernando Tatagiba. Ele explica que botar fogo na mata, de modo acidental ou intencional, é enquadrado na lei de crimes ambientais. A punição prevista é de dois a quatro anos de prisão. 

Natural x crime

O Cerrado é um bioma que, na sua história natural, convive com o fogo. “Mas isso não tem nada a ver com o incêndio que estamos testemunhando”, explica Ane Alencar, especialista em Cerrado do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam). “O fogo natural ocorre em períodos com raios, quando a chuva vai começar. Não é tão intenso, não se alastra muito nem é tão catastrófico. Não é o caso agora, que é gravíssimo.”

Para se ter uma noção da dimensão, um grande incêndio que atingiu o parque em novembro de 2015 destruiu cerca de 15 mil hectares, segundo os Bombeiros, o que correspondia à época a 25% da vegetação. A situação crítica levou as prefeituras de Alto Paraíso e Cavalcante, cidades da região, a decretarem emergência. Esta última chegou a ter 80% de seu território atingido pelo fogo.

O nível de destruição atual também não se assemelha ao fogo natural. “Vi vegetações super sensíveis, veredas lindíssimas sendo afetadas. Para esse tipo de vegetação, a recomposição natural vai ser mais lenta. Na nossa escala temporal pode ser irreversível", afirma Tatagiba.

Tempo quente

Para o diretor do parque, tudo isso mostra que esse cenário só pode ter sido criado por humanos. E foi piorado pela intensa seca no Centro-oeste, a mesma que levou à crise hídrica em Brasília. “Está mais seco que o normal este ano, as temperaturas estão altas e os ventos, fortes. Isso favorece grandes incêndios”, diz. “Impossível afirmar quando o incêndio vai terminar, pela intensidade e pelas condições meteorológicas. Mas se não chover logo, esse incêndio não vai ser controlado tão cedo.”

A situação de calamidade vivida pela Chapada dos Veadeiros ajuda a puxar o número recorde de incêndios que estão derrubando as florestas nacionais neste ano.

O sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou 237 mil focos de incêndio no País entre 1.º de janeiro 23 de outubro. O total é 54% maior que o identificado no mesmo período de 2016, que contabilizou 154 mil focos de queimadas. É um recorde desde que o órgão passou a monitorar esse dado, em 1998.

‘Só a fumaça já mata filhotes de aves’

Depoimento de Veri Viana, guia de turismo e voluntário no combate ao fogo

Ajudei no combate ao incêndio e estamos nos revezando. Não se aguenta ficar muito tempo: o calor é demais e é muito seco. Nos anos anteriores, os focos eram mais centralizados, mas, neste ano, são muitos, em vários locais e distantes. Pontos considerados cartões-postais, como o Jardim de Maitreya, já queimaram. E esses locais são de veredas, que jamais poderiam queimar porque ajudam a segurar a água para os rios. 

Vários animais já foram queimados, como os veados. E as aves, nem se fala. Nesse momento, em que começam as chuvas, as aves estão criando penas: o pato-mergulhão, em extinção, e filhotes de arara. Elas não conseguem voar: o fogo vem e a fumaça já é suficiente para matá-las. 

À tarde e à noite até conseguem apagar o fogo, mas, no outro dia, reacende. Já tive três grupos de turistas ligando para cancelar passeios. As pessoas têm medo.

A 220 km da capital, área é refúgio de brasilienses

A Chapada dos Veadeiros é um dos principais refúgios dos moradores do Distrito Federal em fins de semana e feridos. São cerca de 220 quilômetros ao norte de Brasília até chegar a Alto Paraíso de Goiás, a mais relevante das diversas cidades e povoados da região. De todas elas, “Alto”, como a chamam os brasilienses com mais intimidade com o município, é a que tem mais estrutura para receber visitantes. Seu turismo é predominantemente ligado à espiritualidade. 

A 30 quilômetros de Alto fica a Vila de São Jorge, distrito que pertence a Alto Paraíso e localizado na entrada do Parque Nacional. A maior parte das ruas são de terra e o público difere do que procura Alto. A terceira principal referência da Chapada é o município de Cavalcante, a 80 quilômetros ao norte de Alto. Nessa cidade, onde moram 10 mil pessoas, se encontra a maior parte do Parque Nacional. 

Nos últimos dias, pessoas têm se mobilizado para apagar as chamas. Mensagens pedindo doações de remédios para socorrer animais e divulgando financiamentos coletivos para ajudar na operação circulam pelos celulares. / ANA PAULA NIEDERAUER, ANDRÉ BORGES, CAIO JUNQUEIRA, GIOVANA GIRARDI, JÚLIA MARQUES e MARÍLIA NOLETO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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