EVELSON DE FREITAS/ESTADÃO
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Ibama estuda mudanças nas regras da caça ao javali

Animal é o único selvagem com a caça autorizada no Brasil; espécie causa problemas ambientais em vários Estados

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2015 | 17h27

SOROCABA - O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) estuda mudanças no controle do javali europeu, único animal selvagem que tem a caça autorizada no Brasil. A espécie, considerada exótica e invasora, tornou-se uma praga e causa problemas ambientais em vários Estados. O controle através do abate é autorizado desde 2013, mas a população continua aumentando. Apenas no Estado de São Paulo, estima-se um rebanho de cinco mil animais. 

De acordo com o Ibama, cerca de 7 mil pessoas se cadastraram para abater javalis em todo o Brasil, mas nem todos exercem regularmente a atividade. Em 2013, apenas 583 espécimes foram abatidos, 105 no Estado de São Paulo - o órgão ainda não compilou os dados de 2014 e 2015. O advogado Mardqueu França Filho, um dos autorizados ao abate em território paulista, diz que o número de animais abatidos está bem aquém da capacidade de reprodução da espécie.

Só ele abateu 84 javalis desde que iniciou o controle, no início deste ano. Três animais adultos foram mortos na noite de terça-feira, 13. Outros integrantes de seu grupo abateram 23 espécimes. "Estamos perdendo essa corrida", disse. Entre as mudanças já pedidas ao Ibama está o aumento na validade do certificado de registro ambiental de três meses para um ano. O documento, que autoriza o controle, é de porte obrigatório. Também é preciso que a validade da guia de tráfego das armas de caça, fornecida pelo Exército, seja compatível com a do registro ambiental. "Hoje, a cada três meses a pessoa cadastrada precisa iniciar um novo processo, o que exige tempo e gera custos."

Pela norma atual, quem abate o javali não pode comercializar a carne, nem é remunerado por esse controle ambiental. As armas devem ser de calibre superior a 38 para garantir a letalidade e não são permitidas armadilhas de caça. Os caçadores querem autorização para usar o calibre 38, mais comum e de menor custo. De acordo com o Ibama, as mudanças nos procedimentos estão sendo analisadas e serão efetivadas, caso sejam necessárias. O instituto ainda não dispõe de um levantamento da população desses animais no País.

Os ataques dos javalis têm sido relatados em quase todas as regiões do Estado. Em Monte Azul Paulista, região de Ribeirão Preto, 36 hectares cultivados com amendoim foram devastados. Os agricultores estão sendo obrigados a instalar cercas elétricas em pomares, hortas e plantações de mandioca. "Os porcos passaram a atacar plantações de milho, que ocupam áreas grandes e não há como cercar", contou o auxiliar de campo da Casa da Agricultura, Luiz Guerreiro. Segundo ele, porcos selvagens já foram vistos na área urbana.

Em Guapiaçu, região de São José do Rio Preto, os animais invadiram granjas de frangos de corte, matando centenas de aves. Bandos de javalis derrubaram seringais na região de Barretos e lavouras de sorgo em Dracena, no oeste paulista. Áreas cultivadas com abóboras foram destruídas em Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema. Em Itapeva, no sudoeste, houve ataques em laranjais. Um proprietária rural de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, contou que os javalis destruíram uma nascente para chafurdar na lama.

De acordo com o biólogo Rodrigo Angelini, a fêmea do javali pode ter duas crias por ano, com até seis filhotes cada, reprodução superior à de porcos silvestres brasileiros, como o cateto e a queixada, cuja caça e abate são proibidos. Os animais exóticos foram introduzidos no Brasil através do Rio Grande do Sul, provenientes de criações do Uruguai e Argentina. Em São Paulo, muitos criadores importaram javalis europeus na década de 1990, mas acabaram desistindo da criação - muitos animais escaparam ou foram soltos e se tornaram selvagens.

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