Há 20 mil anos, oceano ficava a 100 km da Serra do Mar

Ilhas de São Sebastião (Ilhabela), Queimada Grande, Alcatrazes, Montão de Trigo eram montanhas em terra firme

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

27 Dezembro 2008 | 17h13

Se a viagem de fim de ano dos paulistanos para passar o réveillon na praia já parece longa hoje, por causa do trânsito, imagine como era 20 mil anos atrás. Naquela época, o mar ficava muito mais distante da costa. Depois de cruzar a Serra do Mar, ainda seria necessário dirigir 100 quilômetros em linha reta até a praia mais próxima. As ilhas de São Sebastião (Ilhabela), Queimada Grande, Alcatrazes, Montão de Trigo e outras que pontuam o horizonte marítimo atual eram, na verdade, montanhas em terra firme, diretamente ligadas ao continente.  Veja também: Vida dura: anfíbio enfrenta escassez de água para sobreviver Mesmo próxima, Ilhabela também abriga espécies diferenciadas Como as ilhas viraram montanhas, e vice-versa Veja galeria de fotos   Foi só 6 mil anos atrás, ao fim da última era glacial, que a linha da costa se estabilizou na posição atual e as antigas montanhas ficaram definitivamente aprisionadas pelo mar. Nesse momento, um espantoso processo evolutivo já estava em curso. Animais e plantas que tiveram o azar - ou a sorte - de ficar isolados nas ilhas começaram a se dif erenciar rapidamente de seus familiares no continente. Algumas populações ficaram tão diferentes que se transformaram em novas espécies, restritas a uma única ilha. Algumas dessas espécies - chamadas endêmicas - já são conhecidas dos cientistas, como as famosas jararaca-ilhôa, da Ilha de Queimada Grande, e jararaca-de-alcatrazes, da Ilha de Alcatrazes. Mas muitas podem ainda estar escondidas dentro de suas pequenas florestas, aguardando para serem descobertas. Os próprios pesquisadores reconhecem que seu conhecimento sobre a biodiversidade das ilhas paulistas é muito limitado. "Comparado ao que sabemos sobre a biodiversidade do continente, é nada", diz o ecólogo Marcio Martins, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Por causa dessa falta de conhecimento, os ecossistemas marinhos - praias, manguezais e ilhas, além do próprio mar - ficaram de fora, até agora, dos mapas de áreas prioritárias para conservação produzidos pelo programa Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Pesquisadores de várias instituições, porém, estão empenhados em redigir projetos para reverter esse cenário em 2009. "Tivemos dificuldade com essa parte marinha e estamos incentivando os grupos a preencher essa lacuna agora", diz o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, coordenador do Biota e pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP). O esforço é feito em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente do Estado. O plano é apresentar propostas para três projetos temáticos sobre biodiversidade do mar, das ilhas e das praias e manguezais do litoral paulista. "Em cinco anos queremos chegar ao nível de conhecimento que temos do continente", diz Martins. "Pode esperar que vai aparecer muita coisa interessante." Laboratórios biológicos O litoral paulista tem cerca de 150 ilhas, ilhotas e lajes. Esses ecossistemas insulares são laboratórios perfeitos para o estudo de processos evolutivos. A biodiversidade de ilhas é tipicamente menor do que a do continente - em número de espécies por área -, porém altamente diferenciada. Uma vez isoladas em populações menores e geograficamente restritas, as espécies insulares tendem a mudar (evoluir) com maior rapidez. O grau de endogamia é muito maior e, por isso, genes que conferem adaptação a alguma condição ambiental da ilha se disseminam pela população com facilidade. No caso da Ilha de Queimada Grande, dez mil anos de isolamento foram suficientes para transformar radicalmente os hábitos e a aparência da jararaca comum do continente (Bothrops jararaca). As cobras da ilha ficaram menores, mais delgadas e mais amareladas. Também foram obrigadas a mudar de hábitos alimentares: sem a presença de pequenos mamíferos na ilha, aprenderam a subir em árvores e passaram a se alimentar exclusivamente de passarinhos.  "É um bicho completamente diferente", afirma Martins. O que era Bothrops jararaca virou Bothrops insularis - vulga jararaca-ilhôa. A espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção, assim como todas as cobras e anfíbios endêmicos das ilhas paulistas. Um trabalho publicado recentemente por Martins e outros especialistas estima que haja cerca de 2 mil jararacas-ilhôa nos 25 hectares de floresta da ilha - metade do que havia dez anos atrás. Pode ser uma queda natural, relacionada a eventos climáticos que reduziram a migração de passarinhos para a ilha e deixaram as cobras periodicamente sem alimento. Mas há indícios fortes também de que serpentes têm sido retiradas ilegalmente da ilha para venda como animal exótico ou para extração de veneno. Já a jararaca-de-alcatrazes (Bothrops alcatraz) seguiu um caminho evolutivo diferente. Esteticamente, ela se manteve idêntica à jararaca do continente. Só que, em vez de se virar arborícola e aprender a comer passarinhos, ela encolheu ainda mais de tamanho, permaneceu no solo e passou a se alimentar de centopéias e pequenos lagartos. Uma jararaca adulta do continente tem cerca de 1,5 metro. A de Queimada Grande chega a 1 metro e a de Alcatrazes, dificilmente passa de 50 centímetros.Tanto o nanismo quanto o gigantismo são fenômenos comuns entre as espécies insulares. Dependendo das características físicas da ilha - e das presas e predadores presentes no ecossistema - as espécies tendem a ficar maiores ou menores do que eram originalmente, mesmo que não mudem outras de suas características.

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