Werther Santana / Estadão
Werther Santana / Estadão

Guia para uma vida sustentável

Para virar a chave, não é necessário jogar nada fora: reutilize o que for possível!

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Calma, você não precisa jogar fora seus potinhos plásticos. Essa é a primeira regra: não jogue nada fora! Virar a chave não significa trocar tudo o que já tem em casa. A economia circular e a economia doméstica são irmãs. Por isso, reutilize tudo o que for possível! O copo de plástico do liquidificador que trincou pode virar um vaso, por exemplo. Outra dica é repensar o consumo: preciso de tudo isso? Essa pergunta simples começa a contribuir com a diminuição da produção de resíduos. Numa ida ao supermercado, por exemplo, não são necessárias várias sacolinhas de plástico. Basta levar a sua própria. A retomada verde de cada dia começa por aí...

Os hábitos sustentáveis são simples e devem ser adotados aos poucos, um pouquinho de cada vez, sem estresse ou ansiedade. É o que receitam as pessoas que incorporaram as práticas ambientalistas há décadas. “Não adianta pensar no todo, que é um desafio muito grande. É mais fácil fazer pequenas coisas que, na verdade, representam uma grande contribuição”, diz a empresária norte-americana Lori Ann Vargas, que vive há 12 anos no Brasil.

Criada em uma fazenda no interior de Nova Iorque, a empresária de 45 anos aprendeu desde criança a ter um contato estreito com a natureza. Quase toda a alimentação era feita em casa, respeitando a época das frutas. Hoje, ela faz suas próprias massas em casa, transforma restos de alimentos em produtos de limpeza e fez sua visão de mundo seu próprio negócio. Lori é uma das sócias da loja Mappei – uma vida sem plástico, especializada em produtos com baixo impacto ambiental. Em 18 meses, ela se orgulha de ter impedido o descarte de quase oito mil embalagens de xampu, por exemplo.

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É mais fácil fazer pequenas coisas que, na verdade, representam uma grande contribuição 
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Lori Ann Vargas, Empresária

Existem oportunidades em cada canto da casa. Coisas simples, sem revolução. Primeiro, o banheiro. Já parou para pensar quantas embalagens plásticas de xampu e condicionador a gente joga fora? As opções sólidas, sem plástico, tendem a durar mais do que as líquidas. Na cozinha, o desafio é evitar o lixo. Com a quarentena está mais fácil fazer as refeições em casa e controlar os resíduos (os lanches comprados na rua tendem a vir com muito plástico e, às vezes, até isopor).

Na hora de trocar as esponjas para lavar louça, seria bom pensar em opções sem plástico, como bucha vegetal, por exemplo. Escovas de piaçava para o banheiro, vassouras de fibras naturais, panos de prato e de chão em algodão seguem o mesmo princípio.

Como já deu para perceber, cada cômodo da casa traz uma chance de fazer algo diferente em relação à economia circular. Até no quarto, dentro do guarda-roupa. Thalita Skarsgard, de 23 anos, postou uma divagação em sua conta no Twitter. “Pensando em consumo consciente e me questionando por que nunca comprei em brechó.” Ela pretende mudar isso em breve. “Além de ter um custo-benefício melhor, porque a gente consegue comprar peças de marcas boas, é bom pela questão do meio ambiente, porque é como se a gente estivesse reciclando as roupas, trocando o guarda-roupa de forma mais consciente.”

E, se não der para evitar... Reutilize! Garrafas de vidro (as de tampas rosqueáveis, como as de sucos e vinhos, são ótimas para isso), potes de vidro (como os de conservas) e potes de plástico (sorvete, requeijão, manteiga) são bastante versáteis em casa: dá para guardar tempero, chás ou podem ser utilizados como vaso. Sempre pense se realmente não dá para reutilizar algo antes de jogar no lixo...

O que fazer com o lixo?

Um dos passos mais importantes para virar a chave envolve a relação com o lixo. Essa mistura de resíduos recicláveis, compostáveis e rejeitos entope bueiros, gera alagamentos e enchentes, transmite doenças e contamina os solos. Passados dez anos da promulgação da lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2010, o Brasil avançou pouco nas ações previstas, principalmente quanto à geração de lixo. Em uma década, o País viu a produção de resíduos sólidos urbanos crescer 11%, passando de 71,2 milhões de toneladas por ano em 2010 para 79 milhões de toneladas agora.

Individualmente, os cidadãos geraram cerca de 1,6% mais lixo: antes, eram 373 quilos anualmente por indivíduo e agora são 380 quilos. Esse incremento também veio acompanhado de leve aumento na cobertura de coleta, que foi de 89% para 92% em todo o País. “Não existe jogar fora. Não existe 'fora'. O que descartamos permanece no planeta”, diz a psicóloga e empreendedora Flavia Cunha, idealizadora do movimento Casa Causa e Lixo Zero.

Hoje, 6,3 milhões de toneladas de lixo continuam abandonadas no meio ambiente a cada ano. Mas é possível gerar menos lixo ou descartar corretamente aquele que não pode ser evitado. Aqui, vale a regra dos 5Rs: repense, recuse, reduza, recicle e reuse. No Brasil, os resíduos são caracterizados da seguinte forma:

a) Compostáveis ou orgânicos: voltam para a natureza como adubo após o processo de compostagem. São cascas de frutas e verduras, cascas de ovos, guardanapos, saquinhos de chá, restos de comida, carnes, laticínios, borra de café com filtro, palitos de madeira, podas de plantas. 

b) Recicláveis: serão aproveitados na fabricação de novos produtos após a coleta seletiva. São vidro e plástico, papel e papelão, isopor, latas e metais, embalagens de alimentos.

c) Rejeitos: tudo o que não tem jeito mesmo e vai para o aterro sanitário. São tecidos, fraldas, lenços descartáveis, adesivos, papel higiênico, fitas adesivas, chicletes, papel filme e papel higiênico, fio dental e absorventes, fraldas descartáveis. Há itens que não podem ser descartados no lixo comum. É o caso do óleo de cozinha, remédios, pilhas, baterias e colchão com espuma de poliuretano. Existem componentes nesses produtos que podem poluir ainda mais o meio ambiente. O ideal é contatar o fabricante ou entidades específicas para o descarte correto. É a chamada logística reversa!

 

Seis dicas uma retomada verde na sua vida

Veja algumas dicas do Instituto Akatu, organização que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente e a transição para estilos sustentáveis de vida:

1. Economize!

Saiba a procedência do que você compra e tente revezar ou substituir por uma versão mais sustentável. A produção de um quilo de carne vermelha, por exemplo, gasta 15 mil litros de água; já a de um quilo de carne de frango, 4,5 mil litros. Roupas também consomem muitos recursos durante a produção. São necessários 10,8 mil litros de água para uma calça jeans, e a produção de uma camiseta emite 1,4 quilos de gás de efeito estufa.

2. Conserte!

Em vez de descartar itens duráveis, veja se não é possível fazer reparos. No caso de eletrônicos e eletrodomésticos, o melhor é buscar peças originais ou de boa qualidade, além de estabelecimentos autorizados. Já no caso de peças de vestuário e móveis, procure profissionais autônomos como costureiras, marceneiros, sapateiros, etc.

3. Reaproveite!

O ciclo de uma máquina de lavar consome, em média, 96 litros de água. Direcione o cano de despejo da máquina para um balde, em vez do ralo, para reaproveitar a água na descarga.

4. Olha a água!

Se não conseguir descongelar um alimento naturalmente, utilize uma bacia com água, em vez de água corrente. Ao lavar a louça, retire o excesso de alimentos dos pratos com os talheres. Use água somente para tirar o detergente. O mesmo vale na hora de escovar os dentes.

5. Menos energia

Tirar os equipamentos da tomada ajuda a economizar energia. Por mais que uma TV não esteja funcionando, se ela estiver no modo stand-by, o aparelho está consumindo energia. Produtos concentrados, como amaciantes e sabonetes, costumam render o mesmo que produtos diluídos, mas demandam menos energia e matéria-prima para serem embalados.

6. Compras locais

Incentivar a produção local favorece economicamente o desenvolvimento da região, reduz os impactos ambientais associados às emissões de gases no transporte e armazenamento dos produtos. 

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