Sean Marc Lee/ The New York Times
Sean Marc Lee/ The New York Times

Grou siberiano causa furor em observadores de pássaros de Taiwan

Aves podem viver até 80 anos, mas estão ameaçadas; menos de 20 ainda vivem no oeste da Sibéria, migrando para o Irã no inverno

Austin Ramzy, The New York Times

15 Junho 2016 | 07h00

JINSHAN, TAIWAN – Havia dezenas de paparazzi reunidos, enfrentando o frio, a chuva e o calor pegajoso. Algumas vezes, sua presa magra os levava em longas perseguições. Em outras, a celebridade cooperava, principalmente se havia um caranguejo ou caracol em oferta, atraindo grandes multidões para esta aldeia agrícola na costa norte de Taiwan cada vez que era avistada.

O objeto de tanta adoração não era um Mandopop (astro da música pop mandarim) adolescente procurando se esconder, mas um pássaro – um grou siberiano, um dos menos de quatro mil exemplares do mundo e o único já visto nesta ilha asiática à beira dos trópicos.

Os ambientalistas o chamaram de pequeno grou branco de Jinshan, o nome do distrito rural onde ele passou a maior parte do tempo e teve seus movimentos acompanhados pelo Facebook e pela mídia local. Depois de se aventurar brevemente para o sul sobre as montanhas e se refugiar temporariamente em um estacionamento de uma estação de metrô de Taipei, caminhões-satélite fizeram fila nas estradas rurais para monitorar seu retorno.

O governo local contratou um guarda-costas em tempo integral para cuidar do grou, que enfrentava ameaças de cães selvagens e tufões poderosos. Mas o maior problema foram os curiosos.

“Eles são difíceis de controlar. Queriam chegar perto e tocá-lo”, conta Chuang Kuo-Liang, o guarda do pássaro.

Tive meu primeiro contato com observação de aves em Taiwan quando morei em Taipei em 2014. É só andar em qualquer parque da cidade ou pedalar pelas ciclovias que acompanham os rios que você inevitavelmente encontrará um bando de observadores de pássaros com câmeras montadas em tripés. Eles ficam plantados em margens lamacentas e circulam em volta de árvores com ninhos, esperando pacientemente por um vislumbre da criatura estimada.

“Você precisa esperar porque não sabe quando ele vai voltar”, explica Kao Twan-Kao, engenheiro civil aposentado que estava observando o ninho de um barbet de Taiwan em uma tarde chuvosa no Parque Florestal Taipei´s Daan. “De vez em quando você consegue vê-lo apenas uma vez, em intervalos de algumas horas.”

O barbet de Taiwan é conhecido em chinês como “o pássaro de cinco cores” por causa de sua plumagem verde, vermelha, amarela, azul e preta. Um estava esperando no ninho, um buraco em um tronco de árvore fino, enquanto seu companheiro procurava comida. Tivemos sorte. Depois de alguns minutos o pássaro de cores vivas colocou a cabeça para fora e encarou a luz do dia.

“Esses passarinhos são muito bonitos. Por isso, todos queremos protegê-los e proteger o meio ambiente”, afirmou um dos observadores, Chen Jia-Hu, enquanto olhava pela lente da câmera.

Chen pegou seu celular para me mostrar uma página no Facebook com imagens incríveis de pássaros que fotografou nos parques de Taipei. Alguns, como as barulhentas e gregárias gralhas azuis de Taiwan, são endêmicas da ilha, o que significa que este é o único lugar onde vivem e se reproduzem na natureza. Outras, como o savacu-malaio, que agita o pescoço enquanto se alimenta de insetos e minhocas, podem ser encontradas em grande parte da Ásia.

Vários pássaros migratórios, incluindo os ameaçados colhereiros-de-cara-preta, também passam os invernos na ilha.

O grou siberiano foi uma anomalia. O pássaro tinha menos de um ano quando chegou, em dezembro de 2014, com suas penas cor de canela nas costas e na cabeça. Depois de um tempo, sob a vista dos fãs apaixonados de Taiwan, essas cores deram lugar a um branco puro, com penas primárias pretas.

Grous siberianos podem viver até 80 anos, mas estão criticamente ameaçados. Menos de 20 ainda vivem no oeste da Sibéria, migrando para o Irã no inverno. Já a população da Sibéria central, que costumava ir para a Índia no inverno, desapareceu mais de uma década atrás.

Os grous restantes estão na região leste da Sibéria e passam o inverno no sudoeste da China, rio abaixo da Barragem das Três Gargantas no Lago Poyang, o maior de água doce do país, que passou por períodos de seca extrema nos últimos anos. O escritório de meio ambiente local algumas vezes espalha milho na área para garantir que os pássaros tenham um fornecimento adequado de alimentos.

“No passado sempre houve um equilíbrio, mas agora, por causa das mudanças climáticas e do controle humano sobre a água, os grous estão encarando uma situação em que dependem dos homens que os alimentam para sobreviver”, explica Chiu Ming-yuan, vice-diretor executivo da Fundação de Engenharia de Desenvolvimento Ecológico de Taiwan. “E todos os grous siberianos do mundo estão em um lugar só. É uma situação muito perigosa.”

O grou de Jinshan, no entanto, aparentemente se perdeu enquanto voava para Poyang com seus pais, aterrissando 644 quilômetros ao sudoeste em Taiwan para a felicidade dos ávidos observadores de pássaros da ilha. Ele tem quase 1,5 metros de altura, com pernas longas e finas e asas que, quando abertas, se estendem por mais de 2,1 metros. Passou seus dias vasculhando os campos alagados e dando piados lamentosos enquanto procurava por caracóis e peixes.

Chiu, cuja organização assumiu a causa da proteção da ave, diz que de 50 mil a 60 mil pessoas viajaram para ver o animal em Jinshan, que fica em uma faixa de planícies entre as montanhas do Parque Nacional de Yangmingshan e o Mar da China Oriental.

“Quando esse pássaro chegou aqui, não só atraiu muitos fotógrafos, como crianças que vieram com suas escolas. E começamos a pensar no que podemos mudar em Taiwan e no que podemos mudar no mundo”, conta Chiu.

Em maio, o grou de Jinshan fez algumas viagens ao longo da costa norte de Taiwan e depois, um dia, se foi. Os pesquisadores dizem que provavelmente voou sobre o estreito de Taiwan para a China continental e depois em direção ao norte para se reunir com seus camaradas da Sibéria.

Apesar de os fazendeiros pretenderem continuar abstendo-se de usar herbicidas e pesticidas, ninguém sabe se o grou vai voltar.

“Se ele quis ir embora, devemos apoiá-lo”, diz Huang Cheng-Chun, um dos fazendeiros cujo campo de arroz o grou usou como casa. “Espero que tenha uma viagem tranquila para encontrar sua família. E que, no ano que vem, volte com uma namorada.”

Mais conteúdo sobre:
FacebookÁsiaIrãÍndiaChina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.