CRISTINA QUICLER / AFP
Greta discursa na COP-25, em Madri, para líderes mundiais CRISTINA QUICLER / AFP

Greta Thunberg é eleita Personalidade do Ano pela revista 'Time'

Publicação norte-americana destacou ativista ambiental de 16 anos como símbolo do 'poder da juventude'; sueca se tornou a pessoa mais jovem da história a receber o reconhecimento

Giovana Girardi *, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 10h15

MADRI - A ativista ambiental sueca Greta Thunberg, de 16 anos, foi escolhida como Personalidade do Ano pela revista norte-americana Time. Ela se tornou a pessoa mais jovem a receber o reconhecimento, criado em 1927. A imagem de capa da publicação traz a jovem perto do mar junto da frase "o poder da juventude". 

Greta se tornou uma grande porta-voz das novas gerações em cerca de 16 meses. "Ela se dirigiu a chefes de estado na ONU, reuniu-se com o papa, brigou com o presidente dos Estados Unidos e inspirou 4 milhões de pessoas a se unir à greve climática global em 20 de setembro de 2019, na maior demonstração climática da história da humanidade", destaca a Time.

A jovem está desde quinta-feira, 5, em Madri, onde participa da Conferência do Clima da ONU. No evento, toda vez que aparece causa comoção: pessoas tentam se aproximar e os eventos que participa ficam lotados, com filas do lado de fora.

Na terça-feira, 10, a ambientalista foi criticada pelo presidente Jair Bolsonaro, que a chamou de pirralha. Em resposta, ela adicionou o termo à descrição do perfil que mantém no Twitter.

"Sua imagem foi comemorada em murais e fantasias de Halloween, e seu nome foi atribuído a tudo, desde ações de bicicletas a besouros. Margaret Atwood comparou-a a Joana d'Arc. Depois de perceber um aumento de cem vezes no seu uso, os lexicógrafos do Collins Dictionary nomearam a ideia pioneira de Thunberg, greve climática, a palavra do ano", justifica a revista Time.

"Conseguiu criar uma mudança de atitude global, transformando milhões de vagas ansiedades em um movimento mundial que pedia mudanças urgentes. Ela ofereceu um apelo moral para aqueles que estão dispostos a agir e lançou vergonha para aqueles que não o são", reitera a Time. "Ela concentrou a atenção do mundo nas injustiças ambientais que jovens ativistas indígenas protestam há anos. Por causa dela, centenas de milhares de adolescentes 'Gretas', do Líbano à Libéria, deixaram a escola para liderar seus colegas nas greves climáticas em todo o mundo."

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, assassinado em 2 de outubro de 2018 no consulado do seu país em Istambul, e outros jornalistas de Estados Unidos, Filipinas e Mianmar foram escolhidos as Personalidades do Ano pela Time no ano passado.  Em 2017, a publicação selecionou as pessoas que "quebraram o silêncio" diante do assédio sexual, em meio a acusações contra homens poderosos em diferentes partes do mundo.

Trajetória da ativista começou como um protesto solitário

A ativista começou a ganhar atenção em agosto do ano passado, quando iniciou um protesto solitário na frente do Parlamento sueco. Todas as sextas-feiras, ela passou a faltar às aulas e, portando apenas um cartaz com os dizeres “em greve escolar pelo clima”, distribuía folhetos com uma lista de fatos científicos sobre as mudanças climáticas e explicações sobre por qual motivo ela estava em greve.

O ato era simples, mas firme: ela estava decidida a manter seu manifesto silencioso por todas as sextas-feiras até que o governantes do seu país tomassem medidas concretas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Sua reivindicação era que a Suécia se adequasse à meta estabelecida pelo Acordo de Paris de conter o aumento da temperatura do planeta a bem menos de 2ºC até o final do século.

Por algum desses motivos difíceis de entender, visto que a adolescente sueca não foi a primeira jovem bem articulada a protestar pelo clima, o protesto de Greta ganhou o mundo e foi o início de um movimento chamado “Fridays for Future” - sextas pelo futuro, que mobiliza milhões de pessoas, em sua maioria jovens, em todo o planeta. 

Um resultado inesperado visto que, quando teve a ideia da greve escolar, Greta conta que buscou a adesão de outros colegas, mas sem sucesso. Poucos meses depois, porém, no final do ano passado, ela já tinha ganhado tanta projeção que foi convidada a se dirigir a diplomatas, ministros e chefes de estados na Conferência do Clima da ONU, na Polônia.

Em janeiro deste ano, discursou no Fórum Econômico Mundial, em Davos: “Os adultos continuam dizendo: ‘Devemos dar aos jovens esperança’, mas eu não quero sua esperança. Eu não quero que você seja esperançoso. Eu quero que você entre em pânico. Eu quero que você sinta o medo que sinto todos os dias. E então eu quero que você aja.”

As Sextas pelo Futuro continuaram atraindo cada vez mais gente. Em março, ela foi indicada por um deputado do Partido Socialista norueguês ao prêmio Nobel da Paz. “Se não fizermos nada para conter a mudança do clima, ela será a causa de guerras, conflitos e refugiados”, disse o deputado Freddy André Øvstegård. “Greta Thunberg lançou um movimento em massa que eu vejo como a maior contribuição para a paz.”

Sua figura magrinha, diminuta, séria, serena e decidida influenciou pessoas com mais força e rapidez do que qualquer outra tentativa anterior de manifestação ambientalista. A menina se transformou em uma liderança climática e um símbolo de esperança.

Diagnosticada com a síndrome de Asperger, um tipo leve dentro do espectro do autismo, Greta tem uma clareza impressionante. Seus discursos baseados no melhor conhecimento científico sobre o problema são precisos, duros, diretos, convincentes. E ela não poupa ninguém.

Neste ano, na marcha pelo clima em Nova York que antecedeu a Cúpula do Clima da ONU, ela falou: “As pessoas que têm poder em todo o mundo são iguais em promessas vazias, em mentiras, em inação. A gente não tomou as ruas, não sacrificou nossa educação para fazer selfies com políticos que dizem que nos admiram. O que queremos é um futuro seguro. Estamos aqui para acordá-los”, disse a ativista. “Somos uma onda de mudanças”.

Três dias depois, ela abria a cúpula convocada pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, para que os países apresentassem planos mais ambiciosos para conter a crise climática. Greta proferiu seu discurso mais emotivo desde o início da sua jornada. Suas feições deram a impressão que ela estava sofrendo ao dizer tudo aquilo.

“Isto está completamente errado. Eu não deveria estar aqui. Eu deveria estar na minha escola, do outro lado do oceano. E vocês vêm até nós, jovens, para pedir esperança. Como vocês ousam?”, afirmou.

“As pessoas estão sofrendo e estão morrendo. Os nossos ecossistemas estão morrendo. Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem?”, continuou.

Em entrevista ao Estado concedida em março, por email, quando as “sextas pelo futuro” já atraíam milhares de pessoas no mundo, Greta contou que realmente a consciência da crise do clima era algo que a atormenta desde muito cedo. “Acho que eu tinha uns 9 anos. Pensei como era estranho que uma coisa que parecia tão importante não estava sendo levada a sério por ninguém. Os professores diziam uma coisa e ainda assim todo mundo estava fazendo exatamente o oposto”, disse.

“Eu via filmes impactantes na escola, com potencial de mudar vidas, e ainda assim ninguém parecia se importar. Eu fiquei deprimida e parei de ir à escola. Então meus pais começaram a me ouvir. E uma das coisas que mudaram foi sobre pegar aviões. Quando eu percebi o quanto voar era ruim (em relação a emissões de gases de efeito) em um nível individual e ainda assim ninguém se importava… Minha mãe sempre voou muito a trabalho (Malena Erman é cantora de ópera). Depois de muita conversa meus pais acabaram ficando sem desculpas nem argumentos. Então minha mãe decidiu que ia parar de voar. E isso mudou tudo, me deu energia para ser ouvida por outras pessoas”, contou.

* A repórter viajou a convite do Instituto Clima e Sociedade (iCS)

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Em Madrid, Greta Thunberg tem recepção de celebridade

Com um blusa de capuz rosa enfiado na cabeça, um moletom por cima, mochila nas costas e um cartaz debaixo dos braços, Greta chegava à capital espanhola para participar da Conferência do Clima da ONU

Giovana Girardi*, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 19h33

MADRI - Com um blusa de capuz rosa enfiado na cabeça, um moletom por cima, mochila nas costas e um cartaz debaixo dos braços, uma garota pequena e magra desceu de um trem vindo de Lisboa para Madri na última sexta-feira, 6, antecedida por vários cliques de uma máquina fotográfica.

Na plataforma, alguns seguranças a esperavam, assim como dezenas de fotógrafos e câmeras de TV. Era a adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que chegava à capital espanhola para participar da Conferência do Clima da ONU e de uma grande marcha de jovens marcada para o final daquele dia para cobrar ações urgentes contra as mudanças climáticas.

Apesar de parecer apreensiva em vídeo que captou o momento, ela reagiu com bom humor ao assédio em sua conta no Twitter, que tem mais de 3,2 milhões de seguidores. “Consegui com sucesso me infiltrar em Madri nesta manhã! Acho que ninguém me viu… De qualquer forma, é ótimo estar na Espanha!”, escreveu.

Algumas horas depois, participaria, com outros jovens de todo o mundo, de uma coletiva de imprensa, e naquela fria noite de quase inverno europeu, foi a estrela da marcha que reuniu mais de 500 mil pessoas.

Greta se tornou um símbolo da luta contra as mudanças climáticas e virou uma celebridade nesse meio. Nas três vezes em que esteve no centro de convenções onde ocorre a COP, gerou uma intensa comoção, mesmo em um ambiente geralmente sisudo de negociação internacional. No primeiro dia, as pessoas tentaram chegar perto dela para tocá-la. E todos os eventos dos quais ela participou ficaram lotados, com filas do lado de fora.

Greta se tornou a musa do clima após ter iniciado, há pouco mais de um ano, greves escolares às sextas-feiras em seu país para exigir dos governantes que agissem conforme o que foi previsto no Acordo de Paris, de manter o aquecimento do planeta a no máximo 1,5ºC até o final do século.

Ela inspirou jovens em todo o mundo com suas greves escolares que se transformaram na ação global Fridays for Future. Com discursos enfáticos, ela cobra responsabilidade dos adultos pela mudança que passa o planeta.

Acabou sendo alvo de críticas e fake news quase na mesma medida em que foi elevada ao nível de ídolo foi chamada de pirralha presidente Jair Bolsonaro, ao que respondeu colocando a palavra em seu perfil no Twitter.

Como disse um observador da sociedade civil que acompanha há mais de dez anos essas conferências, Greta talvez cause toda essa comoção porque ela realmente sente o pânico que todos deveríamos sentir diante de um planeta aquecido em 3ºC ou mais.

Em sua última aparição na COP, na manhã desta quarta-feira, 10, antes de iniciar a viagem de volta para casa, ela questionou os que se queixam do seu tom.

“Como ouvir alguns esses números e não ficar ao menos em algum grau em pânico? Como ouvir isso, sabendo que praticamente nada está sendo feito, e não ficar ao menos com um pouco de raiva? Como comunicar isso sem parecer alarmista? Eu realmente gostaria de saber”, disse em um plenária da COP.

"Eu ainda acredito que o maior perigo não é a inatividade, o real perigo é quando políticos e CEOs estão fazendo parecer que uma movimentação real está ocorrendo quando, na verdade, quase nada é feito além de contabilidade inteligente e relações públicas criativas", acrescentou.

Para ela, ainda há esperança. “Eu tenho visto isso. Mas ela não vem dos governos nem das empresas", e sim da sociedade e das pessoas, que "começam a despertar" e liderar ações contra essa emergência.

* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE (ICS)

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