Greenpeace contesta estratégia energética mexicana

ONG diz que há campanha ‘pró-nuclear’ no governo do México; em documento enviado à procuradoria de Angra dos Reis, entidade pede paralisação de Angra 3

Karina Ninni, com agências, estadao.com.br

17 de março de 2011 | 20h16

O Greenpeace quer que o México reveja sua estratégia energética, a exemplo de países como Alemanha, Áustria, China, Chile, Suíça e Venezuela. De acordo com o escritório da ONG no México, o Ministério de Energia desencadeou uma campanha "pró-nuclear" no país.

Segundo a ONG, o México estaria minimizando o acidente com a usina de Fukushima, no Japão, assim como os riscos da opção de geração de energia via tecnologia nuclear. Após o vazamento de radiação de Fukushima, parlamantares mexicanos exigiram do governo uma avaliação da segurança nas instalações nucleares mexicanas.

"O Greenpeace vem se mobilizando há algum tempo para pedir que os governos adotem uma política energética mais limpa, voltada para a revolução energética, com base em fontes renováveis. E, desde que houve o vazamento no Japão, vários escritórios estão adotando estratégias de acordo com os locais em que atuam", afirma Leandra Gonçalves, coordenadora da campanha de oceanos do Greenpeace.

Ela diz que o momento é delicado e a situação requer cautela. "Estamos tomando muito cuidado para não causar a impressão equivocada de que vamos nos aproveitar da tragédia alheia para fazer campanha anti-nuclear. Nosso escritório no Japão está priorizando o apoio às vítimas, a solidariedade e a ajuda humanitária. E também fazendo um grande esforço para manter a equipe da organização e suas famílias em segurança." 

O México tem dois reatores nucleares na Central de Laguna Verde na cidade de Alto Lucero, a 290 quilômetros da capital. O governo mexicano, em resposta à demanda dos parlamentares, anunciou a visita de uma comitiva ministerial para supervisar o funcionamento dos complexos nucleares.

Brasil

O escritório de Greenpeace no Brasil pediu à Justiça na última segunda-feira a suspensão da licença de operação concedida à terceira fase da planta de Angra 3, em 2010. O pedido veio na esteira das declarações dadas nesta quarta-feira pelo presidente da Comissão Nacional de Energia Atômica, Odair Gonçalves, de que o governo deverá rever as normas de licenciamento das usinas nucleares no Brasil.

Em documento enviado ao Procurador do Ministério Público Federal em Angra dos Reis (RJ) Fernando Lavieri, a ONG argumenta que:

"Devido à clara necessidade de se revisar as regras de licenciamento para construção, instalação e operacionalização de instalações nucleares, solicitamos a adoção de medidas administrativas e jurídicas para suspender a licença de operação concedida à terceira fase da Usina Termonuclear de Angra (Angra III) em 2010, até que essas novas normas de licenciamento sejam fixadas, protegendo a vida e a integridade física dos habitantes de Angra dos Reis e de todo o estado do Rio de Janeiro."

Mas, de acordo com  Leonan dos Santos Guimarães, da Eletronuclear (Eletrobrás), a construção de Angra 3 vai continuar a pleno vapor.

"Há 2.300 operários no canteiro de obras", afirmou Guimarães em evento realizado nesta quarta na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP para discutir a questão da energia nuclear.

"No plano energético do Brasil para 2030 está previsto um aumento de 4 mil MW (megawatts) em geração de energia nuclear, sendo 2 mil no Nordeste e 2 mil no Sudeste. Mas todas as fontes devem aumentar sua participação na geração de energia até 2030, inclusive as consideradas limpas, como eólica e solar", argumenta Guimarães.

O físico José Goldemberg, ex-reitor da USP e também presente no debate, afirmou que os planos energéticos no Brasil estão assentados sobre uma premissa simplista.

"Conecta-se o crescimento do PIB ao aumento de consumo de energia. Nos países desenvolvidos, essa correlação não existe mais. Nos EUA, e até na China, a eficiência energética é crucial no planejamento. Aqui, não se leva em conta a eficiência energética nos planos pra geração de energia em longo prazo", afirma.

Se for terminada, a nova usina terá uma potência bruta elétrica de 1.405 MW, podendo gerar cerca de 10,9 milhões de MW/h por ano - energia equivalente a um terço do consumo do Estado do Rio de Janeiro.

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