Ferdinand Saumarez Smith
Ferdinand Saumarez Smith

Gravuras rupestres sagradas para tribos do Xingu são destruídas

Gruta de Kamukuwaká, tombada como patrimônio cultural pelo Iphan, tinha registros das histórias de origem consideradas sagradas para 11 povos; imagens foram depredadas e destruídas

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 20h00

Um conjunto milenar de gravuras rupestres sagradas para povos do Alto Xingu, localizado em uma gruta a sudoeste do território do Parque Indígena do Xingu, foi depredado e danificado em algum momento nos últimos meses.

A destruição do principal painel com imagens que retratam a história de origem desses povos foi descoberto em uma expedição feita ao local a partir do dia 10 de setembro, que tinha o objetivo de fazer uma reconstituição das imagens para fins de conservação. E foi comprovada em vistoria do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entre os dias 15 e 16.

O local está na área de interesse para a construção da rodovia BR-242, ainda em fase de produção de estudo de impacto ambiental, e da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste. Localizado fora da terra indígena, vem também sofrendo com desmatamento e com o assoreamento do rio.

Conhecido como Gruta de Kamukuwaká, o sítio arqueológico, às margens do rio Tamitatoala (ou Batovi), no Mato Grosso, é tombado pelo Iphan como patrimônio cultural do País desde 2010 e é considerado sagrado por 11 etnias indígenas do Alto Xingu. O povo Wauja se identifica como seus guardiões.

Para eles, é a casa do líder e herói Kamukuwaká, uma entidade extra-humana que subiu ao céu para trazer aos povos xinguanos o conhecimento ancestral ligado aos modelos éticos de chefia tradicional.

Na crença xinguana, o povo de Kamukuwaká foi uma vez atacado pelo Sol, que, com inveja do líder, atirou flechas em sua direção. “Mas ele era muito inteligente e virou o rosto. Assim a flecha acertou sua orelha. Quando o sol jogou outra flecha, ele virou o rosto de novo”, contou ao Estado Piratá Waurá, coordenador local do projeto de valorização patrimonial da gruta do Kamukuwaká. 

Daí vem o ritual de furação de orelha, em que se dá a iniciação das jovens lideranças indígenas dentro dos preceitos defendidos por Kamukuwaká. Junto com o Quarup, é uma das mais importantes cerimônias dos povos do Alto Xingu. 

Era na gruta onde tradicionalmente ela era realizada, mas perdeu essa função nos últimos anos por ter ficado muito longe de onde estão as aldeias. Segundo Piratá, é um dia e meio de viagem de barco para chegar lá, e a gruta vinha sendo usada mais para funções educativas. 

“O povo Wauja leva seus filhos para aprender músicas. Os pais e avós contam a história de Kamukuwaká, mostram os desenhos. É um lugar de aprendizagem. Na língua de vocês, é uma escola. O jovem pode se tornar cantor e grande líder, conforme a história que Kamukuwaká criou para o povo dele”, explica.

Danos

Piratá estava junto com o grupo que descobriu a depredação no início do mês. “Dá para ver as marcas de ferramenta na pedra. Parece que bateram com martelo, quebraram tudo”, disse. “É uma perda muito grande. Quando destruiu coisas tão importantes, atingiu todo mundo. Não é só do wauja, é de todo o Alto Xingu. Destruíram a história. E origem é a nossa identidade.”

A expedição, que contava com membros dos Wauja, uma equipe voluntária de assessoria arqueológica e representantes da fundação inglesa Factum Foundation e da People’s Palace Projects, ligada à Universidade Queen Mary, de Londres, faz parte de um projeto que visa registrar o patrimônio com a ajuda de tecnologias de imagens 3D. O material seria exposto na Bienal de Veneza do ano que vem.

Flávio Rizzi Calippo, diretor do Centro Nacional de Arqueologia do Iphan, disse que na vistoria que identificou o impacto às gravuras, policiais militares que acompanhavam os técnicos viram sinais de que o dano foi intencional.

“Mas ainda estamos fazendo a avaliação se foi um ato de vandalismo, um mau uso do local ou realmente uma ação dirigida para afetar os locais sagrados dos indígenas. Ele afirma que o Iphan fez uma denúncia ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal.

“Temos a noção de que é um impacto grande, mas ainda não conseguimos detalhar quão grande. A base desse sítio, que fica na beira do rio, está coberta por areia, assoreada. O que se acredita, com base em documentos anteriores de vistoria, é que essa parte encoberta pode não ter sido impactada. Pode ser que não tenha ocorrido uma descaracterização completa”, diz.

Ele afirma que expedições anteriores não tinham observado nenhuma grande ameaça ao local. Segundo ele, o maior problema é que, como há pequenas cachoeiras e corredeiras por perto, muita gente vai se banhar e tem pesca.

Tradição

A arqueóloga Patricia Rodrigues, doutoranda em antropologia na Universidade de Notre Dame, nos EUA, e estudiosa da cultura Wauja, conta que desses ensinamentos de Kamukuwaká veio um comportamento extremamente diplomático. “Os Wauja não antagonizam com ninguém, eles negociam tudo. Ninguém ali estava pedindo para ampliar os limites das terras indígenas para abranger a gruta, mas queriam preservação conjunta dos locais sagrados.”

Ela explica que na história do confronto com o Sol, este começou a criar animais e os mandava para matar o povo de Kamukuwaká que estava escondido dentro da casa dele. 

"Mas ele era tão respeitoso que o animal virava amigo. A certo momento ele inventou os pássaros de bico duro e Kamukuwaká também o converteu como amigo e pediu para ele furar um buraco na parede para seu povo fugir. Foi por onde eles fugiram para o céu. O buraco está lá até hoje. É considerado um portal para as aldeias que existem no céu.”

Para os indígenas da região, Kamukuwaká é um modelo de chefe. “E as histórias inspiram e servem de veículo para a transmissão do conhecimento da ética e da moral de como ser chefe”, complementa a pesquisadora.

O antropólogo e arqueólogo americano Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, que há vários anos trabalha com tribos do Xingu e chegou a auxiliar o Iphan no processo de tombamento do sítio, lamentou a perda. “Depois do incêndio no Museu Nacional (que destruiu o acervo antropológico e linguístico de várias tribos indígenas), essa destruição é uma tragédia.

Segundo ele, apesar de existir arte rupestre em outras partes da Amazônia, a da gruta de Kamukuwaká era “absolutamente única”. São desenhos que não se encaixam em tradições de outras regiões, explica, com o diferencial de ainda se relacionarem com o momento atual. 

“São nitidamente desenhos xinguanos. É um caso único de tradição do passado que se liga definitivamente com um povo atual. Continua sendo um lugar dos espíritos de tempos primordiais”, explica. Ele faz essa distinção porque outros sítios com arte rupestre são de povos que se perderam no passado, mas nesse caso não.

Tanto que os rituais são mantidos até hoje, como o da furação de orelha, e as gravuras da gruta são a base de um sistema gráfico reproduzido nas pinturas feitas nos corpos dos indígenas e em seu artesanato tradicional.

Heckenberger destaca que o momento é de urgência para que a região seja escavada e investigada o mais rapidamente possível – coisa que até hoje, apesar do tombamento, ainda não foi feita. Ele conta que quando foi lá notou que o entorno da gruta provavelmente era um local de lascamento de pedra para fazer pontas de flecha e outros instrumentos.

“Há todo um sítio arqueológico ali que vai além da arte rupestre presente no abrigo. Com um martelo podem ter acabado rapidamente com as gravuras, mas acredito que uma escavação encontraria vários outros vestígios no chão que está soterrado. É super importante alguém montar um trabalho para identificar o que ainda não foi tudo destruído. Isso fica urgente agora.”

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