Governo pressiona hotéis a reduzir preço de diária na Rio+20 em pelo menos 20%

Palácio do Planalto mobiliza quatro ministros para cobrar descontos do setor hoteleiro e exigir fim de pacote obrigatório com sete dias de estadia

Rafael Moraes Moura, Brasília, Felipe Werneck, Heloisa Aruth Sturm/ Rio, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2012 | 03h02

Preocupado com a decisão de delegações estrangeiras e até da Câmara dos Deputados de não arcar com as elevadas despesas com hospedagem durante a Rio+20, o Planalto escalou ontem quatro ministros para pressionar o setor hoteleiro e cobrar uma redução superior a 20% nas diárias.

O objetivo do governo - que também quer acabar com os pacotes que exigem uma estada de sete dias - é chegar a um acordo na segunda-feira com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (Abihrj) e a empresa de turismo Terramar, segundo informou o presidente da Embratur, Flávio Dino.

"Estamos falando de uma redução superior a 20% (no valor das diárias). Temos expectativa de chegar a uma redução superior a 30%. O porcentual final será definido na segunda-feira", disse Dino. "Estamos satisfeitos neste momento com a compreensão da indústria hoteleira e da empresa contratada. Queremos a máxima redução possível, porque acreditamos que o alinhamento de preços é importante para a imagem do País."

Coube à ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) coordenar a reunião com Dino, representantes da Abihrj e os ministros Antonio Patriota (Itamaraty), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Luis Inácio Adams (Advocacia-Geral da União). A conversa se estendeu por três horas, sem a presidente Dilma Rousseff.

De acordo com o presidente da Embratur, a tarifa diária média no Rio de Janeiro (que seria de R$ 355) já estaria sendo triplicada e até quadruplicada por conta da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

"O governo não pretende revogar a lei da oferta e da procura. O que estamos fazendo é um apelo à indústria hoteleira para que, mesmo diante do aquecimento da demanda, pratique preços mais compatíveis com o mercado de eventos", afirmou Dino. "Externamos a posição de não haver pacote mínimo de sete dias, e tanto a indústria hoteleira quanto a operadora vão abrir mão desse pacote que estava sendo exigido. Ou seja, vão valer as leis de mercado. O cidadão ou a delegação que quiser comprar um, dois ou três, quatro dias, de acordo com a disponibilidade, vai adquirir sem que haja a camisa de força do pacote mínimo." Até o fechamento desta edição, a reportagem não havia obtido resposta da assessoria da Abihrj.

Cancelamentos. O Parlamento Europeu tomou a decisão de cancelar a vinda de sua delegação ao constatar que a conta poderia chegar a 100 mil euros, dez vezes mais que o previsto. Outras delegações também reduziram o número de participantes - o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), já anunciou que "não vai pagar" o preço cobrado pelos hotéis cariocas.

Na avaliação de Dino, não há ainda um "quadro de cancelamentos" por conta de preços, e sim "algo pontual", restrito ao Parlamento Europeu e à Câmara dos Deputados.

O presidente da Embratur disse que o governo pretende fazer contato com os casos em que houve cancelamento. "Vamos mostrar que houve um avanço e, com certeza, vamos conseguir a reversão. Eram casos isolados. É importante destacar que a ação do governo foi no momento certo para evitar efeito multiplicador, porque aí sim poderia comprometer a imagem do País", afirmou.

De acordo com Dino, uma das cláusulas do acordo em negociação é a de que haverá retroação no caso da redução nas tarifas de hospedagem. "É retroativo para os contratos já efetuados, isso é um ponto já negociado", disse.

Para o presidente da Embratur, a rede hoteleira do Rio é "plenamente suficiente" para atender às delegações. "A hotelaria do Rio é apta a sediar a conferência, há oferta de quartos disponíveis para todo o período da conferência, não temos nenhuma crise de deficiência de oferta", observou.

O embaixador Luiz Alberto Figueiredo, secretário executivo da Comissão Nacional para a Rio+20, disse ontem que a mudança dos padrões de produção e consumo no mundo deve ser liderada pelos países ricos. "São aqueles que têm claramente padrões insustentáveis. Não é possível achar razoável ou exigir que a nova classe média na Índia ande de bicicleta para salvar o planeta se a classe média num país desenvolvido tem dois carrões dentro da garagem."

De acordo com o embaixador, um dos objetivos da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável é a busca de convergência em relação a esse tema, com o que ele chamou de "contração daqueles que estão abusando e aperfeiçoamento daqueles que não têm nada, de modo que se busque um padrão que o planeta aguente". Ele disse que o mais importante é que haja uma mensagem política na Rio+20 de concordância em relação aos chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Anteontem, quando indagada sobre um possível resultado concreto da Rio+20, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que seria "excepcional" se houvesse uma "obrigação para todos" em relação à produção e ao consumo sustentáveis. "Se não houver uma alteração muito clara nos padrões nós não conseguiremos a sustentabilidade", disse Figueiredo. "Queremos um compromisso forte", emendou Izabella.

Crises. Para o embaixador, os modelos de desenvolvimento aplicados hoje não apenas perderam a capacidade de responder aos novos desafios como estão gerando as crises ambientais, sociais e econômicas/financeiras que afetam o mundo. "A Rio+20 é sobre isso: como fazer certo, responder a essas crises e mudar o desenvolvimento."

Izabella também disse que o Brasil está buscando nas negociações uma mudança de patamar em relação à convenção do mar. "Queremos sair da conferência com um novo acordo, uma nova visão sobre oceanos." O embaixador disse que está sendo proposto um acordo adicional que trate de lacunas como a maneira de lidar com o material genético encontrado no fundo do mar em áreas internacionais.

Figueiredo voltou a questionar a proposta europeia de criação de uma agência ambiental global e afirmou que essa é uma "falsa discussão". "Se vai ser agência ou não, isso é absolutamente secundário", disse ele.

Sobre o Código Florestal aprovado na Câmara com modificações da bancada ruralista, Izabella disse que "não adianta só vetar, tem de ter soluções para o pequeno agricultor". "Nossa recomendação é que vai ter veto. Vamos avaliar qual o melhor tipo de veto e como se desdobra", acrescentou a ministra. Segundo ela, um retrocesso na legislação ambiental é inaceitável. "O texto que foi aprovado na Câmara lamentavelmente excluiu o que o Senado tinha buscado de soluções pros pequenos. O País tem muitos Chicos, mas também tem muitos Franciscos nos debates, e o Código Florestal tem de atender a toda a sociedade", afirmou Izabella.

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