André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Goiás quer montar rede própria de preservação das áreas de Cerrado

Estado é o único presente na 40ª Sessão do IPCC, em Copenhague

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2014 | 18h02

COPENHAGUE - Único dentre os 26 Estados brasileiros presente na 40ª Sessão do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), em Copenhague, Goiás quer adotar uma versão local do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e montar sua própria rede de preservação do bioma do Cerrado. As iniciativas têm uma motivação urgente: a maior parte do desmatamento no Brasil se dá justamente na região do Cerrado, que superou a Amazônia como líder nesse passivo desde o início de 2011.

Pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal de Goiás (UFG) apontou que, em 2011, 6.418 km² de floresta amazônica foram devastados. No Cerrado, foram 7.415 km². No ano seguinte, o desmatamento na Amazônia caiu para 4.571 km², enquanto em áreas de Cerrado houve aumento para 7.653 km², especialmente provocado pelas atividades agropecuária e de produção de carvão vegetal. O Cerrado abrange oito Estados brasileiros - Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Bahia, Maranhão - e o Distrito Federal. Goiás é o único que tem 100% do seu território no Cerrado. 

A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás (Semarh) prefere não apontar o número para o desmatamento no Estado porque haveria controvérsias sobre a estimativa. Mas estudo do economista Millades de Carvalho Castro publicado na página da Secretaria de Planejamento de Goiás na internet aponta ter havido desmatamento anual de 1.493 km² no Estado entre 2002 e 2009. No período, 3,3% de áreas naturais de Goiás vieram abaixo. Até 2002, diz o estudo, 203,8 mil km² - 61,8% do cerrado goiano - já tinham sido desmatados.

"O desmatamento cresce muito em Goiás porque o Estado ainda tem muitos ativos ambientais (áreas intocadas). Enquanto tivermos área agricultável e solo bom, teremos aumento do desmatamento", afirmou Jacqueline Vieira da Silva, titular da Semarh. "Mas precisamos correr contra o desmatamento. Ao proteger o Cerrado, protegemos também a Floresta Amazônica, que dele depende."

Segundo Jacqueline, um dos graves problemas a ser contornado é a queimada durante a estação de seca no Parque das Emas, região próxima ao DF considerada como o "berço das águas". Dali nascem rios que fluem e dão volume para o Amazonas, o São Francisco e o Paraná. 

O diálogo de sua secretaria com os grandes produtores de gado e grãos, cujas atividades estão legalmente amparadas, tem sido considerado franco e bom. Com os pequenos produtores ainda há dificuldade. A construção do cadastro estadual, em sua opinião, daria maior autonomia para a Semarh atuar especialmente nessa frente, sem depender do amparo e da visão do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O novo cadastro, que deve ser criado até o final de dezembro, igualmente facilitaria a adoção de iniciativas da rede de proteção do bioma do Cerrado no Estado.

O governo federal atua na região com base no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado (PPCerrado), apoiado pelo Ibama, Instituto Chico Mendes, Agência Nacional de Águas (ANA) e Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Segundo o MMA, o Cerrado responde por 5% da biodiversidade do planeta e é a mais rica região de savana do mundo. Até 2008, perdeu 204 milhões de hectares em área e 47,8% de sua cobertura vegetal, conforme dados do Projeto de Monitoramento do desmatamento nos Biomas Brasileiros por Satélite, executado pelo Ibama.

Até 2002, foram desmatados 890,6 mil km². Nos seis anos seguintes, mais 85,1 mil km². O desmatamento é contabilizado como emissão de gases do efeito estufa, mesmo que não seja causada por queimadas. Parte do esforço brasileiro para cumprir seus compromissos voluntários de redução das emissões - entre 36,1% e 38,9% até 2020 - depende dos resultados a serem extraídos no Cerrado. Para essa região, especificamente, o Brasil se comprometeu em 2009 a cortar 40% das emissões geradas pelo desmatamento. 

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