Gaúcha migra para Santa Catarina para 'encantar baleias'

Karina Groch estuda e ajuda a preservar a espécie franca do animal, que passa o inverno na costa catarinense

Paula Pereira , O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 18h57

De junho a novembro, a bióloga gaúcha Karina Groch, de 32 anos, migra para as praias do sul de Santa Catarina, como as baleias francas que estuda e ajuda a preservar. Deixa o apartamento da mãe, em Porto Alegre, e instala-se numa casa pintada de hortênsia na praia de Itapirubá, 80 quilômetros ao sul de Florianópolis, sede recente do Projeto Baleia Franca. Lá aguarda os primeiros sinais de cetáceo à vista - telefonemas de pescadores ou acrobacias discretas na rebentação. Começa a temporada das baleias.   Todos os anos, uma centena de baleias francas - a segunda espécie mais ameaçada entre as 11 existentes no mundo - se refugia do inverno antártico em determinadas praias da costa catarinense para procriar e cuidar dos filhotes. Desapareceram na década de 70 por causa da pesca para extração de óleo. Mas, desde que meia dúzia de ambientalistas abnegados como Karina deu início a um trabalho de pesquisa, conservação e lobby nos anos 80, elas vêm voltando em grupos crescentes, à proporção de 14% ao ano. Em 2002, um recorde de 120 animais foi avistado na região.   "Eu nem sabia que tinha baleia no Brasil", confessa Karina. Ficou sabendo ao conhecer, num seminário, a bióloga Marcia Engel, que trabalha com pesquisa e conservação de baleias jubarte na costa capixaba há 14 anos. Hoje a proteção das baleias que freqüentam regularmente o litoral brasileiro é coordenada por essas duas mulheres, Marcia e Karina. Elas integram a delegação que representa o País na Comissão Internacional da Baleia - fórum mundial que reúne campos opostos, ambientalistas e baleeiros.   Até saber do trânsito de baleias em águas brasileiras, Karina queria mesmo era estudar golfinhos rotadores em Fernando de Noronha, onde o Ibama desenvolve um projeto de proteção. Como a candidatura a um estágio exigia experiência, escreveu cartas para mais de dez bases de observação marinha do órgão no País. Uma respondeu. E ela trancou a matrícula na Faculdade de Biologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para fazer um estágio sobre baleias jubarte no Espírito Santo, com Marcia Engel.   Karina parou a faculdade mais duas vezes: para estudar tartarugas no Projeto Tamar, na Bahia, e os sonhados rotadores de Noronha. Mas as baleias já haviam conquistado seu interesse.   "Gosto de bichos grandes", constata. A franca atinge até 18 metros de comprimento e 60 toneladas. "É uma baleia gorda", explica, porque se submete às baixas temperaturas da Antártida, onde passa três meses se alimentando de minúsculos crustáceos. E tem estranhas calosidades distribuídas pela cabeça mais ou menos como os pêlos no rosto de um homem (barba, bigode, sobrancelha...). Feias, são sua impressão digital.   Karina aprendeu a reconhecer alguns indivíduos que retornam a Santa Catarina na temporada só de olhar suas verrugas bizarras - as francas são fiéis e repetem mais ou menos as mesmas rotas ao longo de seus 80 anos de vida. "A B52 é uma que reconheço na hora", diz Karina. Felícia ela identifica pela cicatriz na cauda desenhada por uma hélice de barco. Queixinho, que apareceu nas temporadas de 95 e 98, tem uma mancha branca inconfundível espalhada pelo ventre desde o 'queixo'.   Saltando de um estágio mal remunerado a outro, Karina se formou bióloga, fez mestrado e doutorado. Sobre baleias, claro. Com o lucro da venda de camisetas e produtos da empresa de serigrafia do namorado - que conheceu entre o segundo e o terceiro estágios - mais parte dos quase R$ 800 mensais de uma bolsa do governo federal, comprou um Uno usado para percorrer as praias catarinenses em busca de baleias. Nessa época de ambientalista nômade, sem vínculo empregatício nem patrocinador além do pai empresário, cooptava donos de pousadas na Praia do Rosa para a boa causa da proteção de baleias, fazendo dos quartos divididos com outras militantes sedes itinerantes de trabalho.   Seu primeiro contracheque foi pago em julho. O patrocínio fixo da Petrobrás, que dá R$ 400 mil por ano ao projeto desde 2002, permitiu a construção da sede e a contratação de três funcionários - ela inclusive. Pouco mais de R$ 2 mil por mês. "Dá pra juntar uns pila e construir uma casa." O terreno já está comprado. Fica do outro lado da estrada que cruza Itapirubá, um dos pontos da região mais freqüentados pelas baleias.   A franca é uma baleia que se vê de terra. Gosta do mar grosso, das ondas rebentando perto da areia. A gordura facilita a flutuação: pode gastar até um mês em peripécias na mesma praia. Quando isso ocorre em Itapirubá, o segundo pavimento da sede do projeto fica apinhado. "A cozinha lota quando tem baleia aqui na frente." Os bichos ficam perto da areia, mas nunca encalham, garante Karina, que já viajou 150 quilômetros apenas para convencer um pescador teimoso de que uma franca estava só brincando e não precisava de ajuda.   Quando um estagiário do projeto ou pescador ou turista avista baleia em qualquer ponto da costa que não diante da sede, o telefone toca. Karina sobe em uma caminhonete e segue na direção indicada, carregando um auxiliar. "Ficamos bisbilhotando a vida das baleias." Cada saída pode render horas de bisbilhotice científica e até três anotações por minuto. O filhote fez um borrifo. O filhote fez um borrifo e nadou. Tudo codificado em abreviações para facilitar o registro.   Além da observação em praias, dunas e morros, uma vez por mês Karina faz um sobrevôo para fotografar os animais e depois identificar um a um fora da temporada. Nesse período, retorna a Porto Alegre e faz viagens esporádicas à sede para dissecar as anotações, comparar fotografias, checar quem voltou do inverno passado, quem não voltou e, por fim, tirar conclusões sobre o comportamento desses mamíferos marinhos.   Um terço das cerca de 500 baleias francas que vêm ao Brasil são fêmeas, outro terço, seus filhotes. Seus movimentos são menos performáticos que o de outras espécies. Se o filhote se exibe demais, a mãe nada longe, emborca a barriga para cima, arrebatando a cria - ensina a prudência de não chamar a atenção de predadores. No fim da temporada, os filhotes devem estar prontos para empreender uma viagem de três meses à Antártida, onde vão se alimentar de algo diferente do leite materno.   O espetáculo da mãe com o filhote é o mais freqüente, comovente até, mas não mais interessante que a corte. Seis, nove machos nadam ao redor da fêmea, batem cabeça, encurralam a baleia, exibem-se em acrobacias. Ela vai copular com quantos quiser e escolher por qual será fecundada. Cada jato de esperma limpa o anterior. Portanto, o último parceiro é o eleito para gerar o filhote, numa gestação que dura um ano.   Karina admira essa emancipação da franca. "Acho fantástico ter um monte de homem correndo atrás de ti e ainda poder escolher!", brinca a moça de cabelos escuros e olhos azuis, transparentes como nunca se vê o mar turvo das baías catarinenses, para desapontamento dos observadores de baleias.Os dois projetos de proteção a baleias no Brasil são dirigidos por mulheres. Karina é uma delas.   Matéria publicada originalmente em 8 de março de 2006

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