André Borges/Estadão
Maria Barros Vieira, moradora da Vila do Rosarinho, observa a movimentação externa acompanhada dos netos Eduardo e João. 'O povo ficou muito assustado', diz André Borges/Estadão

Garimpo como modo de vida: o drama ambiental que assola o Rio Madeira

Região do Amazonas assistiu à 'corrida do ouro' promovida por garimpeiros na última semana. Aparato policial conduziu operação que culminou com destruição de balsas

André Borges, Enviado especial a Autazes e Nova Olinda do Norte (AM)

30 de novembro de 2021 | 15h00

Foi pela janela de sua casa de madeira, na pequena comunidade do Remanso, que Jair Cabral Silveira viu uma horda de garimpeiros avançar com suas balsas ladeadas pelas águas do Rio Madeira. Correu para o terreiro para tentar entender o que estava acontecendo. Em seus 74 anos, o ribeirinho que vive em Autazes acostumara-se à rotina das balsas clandestinas que cortam o rio para dragar o leito do rio amazônico em busca de ouro. Mas daquela forma, agrupadas em filas de um lado a outro do rio, não.

De dia, Jair via as embarcações de madeira paradas na frente de seu povoado encravado no município de Autazes e onde vivem cerca de 50 indígenas do povo Mura. De noite, assistia assustado, pela televisão, as imagens daquela imensa curva de rio que corriam o mundo. “Já vi muita balsa nessa vida, mas daquele jeito, nunca tinha visto”, diz Silveira.

Espanto maior ainda estava por vir, quando a pequena comunidade de Remanso se deparou, cinco dias depois, com a paisagem transformada em rota de helicópteros, navios da Marinha, lanchas em alta velocidade e uma balsa gigantesca da Polícia Federal, carregada de tudo quanto é tipo de suprimento. Era a caça ao garimpo que havia iniciado, uma resposta que as autoridades se viram forçadas a dar, depois de toda a repercussão causada pela audácia dos garimpeiros.

 

Na manhã do sábado, 27, teve início a operação que, em dois dias, queimaria e afundaria nas águas turvas do Rio Madeira 131 dragas do garimpo ilegal. “Nunca teve isso aqui no Madeira. Então, o povo ficou muito assustado. O que aconteceu aqui foi uma humilhação para o garimpeiro. Ele é trabalhador, vive na balsa com a família dele.”

As palavras do ribeirinho são repetidas pelos povoados que margeiam a calha do rio. A poucos quilômetros dali, na Vila do Rosarinho, Maria Barros Vieira conta que, na manhã domingo, 28, o posto flutuante de sua comunidade, que é usado como uma estação para desembarque de quem chega com os barcos, foi transformado em um alojamento improvisado. “Ficaram sem ter pra onde ir. Tinha mulher, criança de colo. O povo estava sem ter o que comer, nem lugar pra dormir. Passaram a noite ali no flutuante. No outro dia, arrumaram umas doações pra eles. Depois, deram um jeito de ir embora”, diz.

 

A Polícia Federal afirma que, em cada uma das abordagens que realizou, deu algum tempo para que os garimpeiros, seus familiares e ajudantes retirassem seus pertences pessoais das embarcações, para então destruir a balsa, um tipo de ação que foi informada ao Ministério Público Federal e que está prevista nas próprias leis ambientais, em situações como essa. Entre os municípios de Autazes, Nova Olinda do Norte e Borba, porém, o que predomina é o entendimento de que os garimpeiros foram injustiçados.

“A gente sabe que tem gente que aluga balsa de outro pra fazer o serviço, que freta o barco pra empurrar as balsas, mas também tem gente que é dona da draga, que depende daquilo ali pra viver, então é uma coisa difícil de aceitar, ver sua balsa afundando, sem ter como fazer nada”, diz Maria.

Em Borba, município mais ao Norte do Rio Madeira e do qual a Operação Uiara chegou a se aproximar, houve uma manifestação dos garimpeiros na orla do rio, no último domingo, contra a destruição dos equipamentos. Ao menos 15 balsas estavam atracadas em frente ao acesso da cidade. O movimento foi pacífico, mas o clima é tenso nas populações locais. Em Humaitá, município mais ao sul do Madeira, a prefeitura chegou a falar em “indenização” aos garimpeiros.

Rio sujo

Esqueça os riscos de contaminação pelo mercúrio utilizado pelos garimpeiros na separação do ouro de outros elementos químicos, quando o metal passa pelo processo de filtragem na dragagem do rio. O que agora preocupa os moradores locais é a suposta contaminação da água pelas 131 máquinas e balsas que foram queimadas e afundaram nas águas do Madeira.

Apesar de tudo queimar rapidamente, os moradores afirmam que a água fica ruim para ser consumida. “Fica ruim. O rio fica sujo com esse diesel espalhado, essas máquinas, as coisas todas que eles afundaram. Queimaram balsa demais. Daqui de casa, a gente só via a fumaça subindo na beira do rio”, diz Maria.

Ao receberem mais informações sobre os riscos de contaminação que são trazidos pelo mercúrio, substância que pode comprometer o consumo do curimatã, do pacu e de tantos outros peixes abundantes na região, além da própria água, a reação geral é marcada por uma certa desconfiança. “Eles não jogam o mercúrio no rio. Isso é conversa. Aquilo é muito caro. Eles vão reutilizando sempre, porque também sabem que aquilo polui tudo”, diz o ribeirinho Silveira.

A última etapa da operação liderada pela Polícia Federal pretende responder se os ribeirinhos e garimpeiros estão livres de altas doses de mercúrio circulando em seus organismos ou se o material cancerígeno “é uma coisa que falam só para não deixar o povo trabalhar”, como afirma Maria.

Resposta na ciência

Nesta segunda-feira, 29, peritos da PF visitaram as vilas que presenciaram, por mais de uma semana, a cidade flutuante formada por mais de 300 balsas de garimpo. Os policiais colheram amostras da água do rio, plantas das margens e catalogaram o material. Depois, foram até as casas dos ribeirinhos, bateram à porta, explicaram o objetivo da pesquisa e cortaram pequenos tufos de cabelo de oito moradores. Cada amostra foi catalogada com os dados pessoais de cada um, colocada em um saco e lacrado.

“Vamos fazer essa perícia em toda a calha do Rio Madeira, desde Humaitá até a foz. As pessoas precisam entender que o preço disso tudo pode sair muito caro, no futuro, comprometendo não só o meio ambiente, mas a saúde da população”, diz o superintendente da PF no Amazonas, Leandro Almada.

Os fios dos ribeirinhos e indígenas que vivem na orla do Madeira foram enviados para o Setor Técnico da Superintendência da PF no Amazonas, que vai analisar as amostras. Os peritos dizem que o trabalho será feito com uso de uma tecnologia inédita em todo o País.

Os cabelos brancos de Jair Cabral Silveira estão entre aqueles que foram colhidos pelos peritos e guardados numa caixa. “Pode cortar, fica à vontade”, disse o ribeirinho, sentado à sombra de uma árvore, próxima à beira do rio. “Só preciso de um pouquinho, não vou cortar muito, não”, respondeu o agente policial. Cordial, Jair agradeceu aos agentes. “Acho bom fazerem isso”. Sorriu. O olhar desconfiado.

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Em áudio, garimpeiros no Rio Madeira falam em montar 'paredão' de balsas contra fiscalização; ouça

Embarcações avançam há dois dias na região dos municípios de Autazes e Nova Olinda do Norte, no Amazonas, em busca de ouro. Atividade de dragas gera extremo dano ambiental

André Borges, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 13h08
Atualizado 24 de novembro de 2021 | 19h35

BRASÍLIA – No comando de mais de 600 balsas clandestinas que avançam enfileiradas pelas águas do Rio Madeira, no Estado do Amazonas, garimpeiros prometem reação caso sejam abordados por ações de repreensão. Como mostrou nesta terça-feira, 23, o Estadão,  as embarcações avançam há dois dias na região dos municípios de Autazes e Nova Olinda do Norte em busca de ouro. A Polícia Federal prepara uma operação na área para impedir a atividade de extração, que configura crime ambiental. 

Em áudios obtidos pela reportagem, um homem identificado como garimpeiro fala em montar um “paredão” de balsas, com pessoas ao redor dos equipamentos, para reagir a qualquer tipo de abordagem para fiscalização. Eles lembram ainda episódios em que invadiram e queimaram unidades do Ibama e do Instituto Chico Mendes (ICMBio), após agentes dos órgãos ambientais destruírem uma de suas balsas.

Ouça abaixo

Em outubro de 2017, um grupo de garimpeiros ateou fogo em prédios do Ibama e do Instituto Chico Mendes (ICMBio), em Humaitá, na região sul do Amazonas. A ação criminosa ocorreu depois de uma operação do Ibama apreender balsas que eram utilizadas em um garimpo, durante a Operação Ouro Fino. Naquela ocasião, 37 balsas de garimpeiros foram apreendidas.

A mobilização no Rio Madeira se deve à notícia que correu entre os garimpeiros de que teriam encontrado grande volume de ouro no local. Em situações comuns, essas balsas se mobilizam de forma independente. Dessa vez, porém, mais de 600 se dirigiram para a região.

Para retirar o ouro, essas balsas utilizam longas mangueiras, que são lançadas até o leito do rio. Acionadas por geradores, elas sugam a terra e tudo o que encontram no fundo. O material revolvido é trazido até a balsa e passa por uma esteira, onde é filtrado e devolvido à água. Nesse processo, o ouro fica retido na esteira.  

Essas operações geram extremo dano ambiental, porque acabam com todo tipo de alimento de centenas de espécies de peixes, comprometem a qualidade da água e geram assoreamento.

A reportagem cobrou um posicionamento e ações sobre o tema junto ao Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa, Vice-Presidência da República e Ibama. Não houve nenhuma resposta até a publicação deste texto.

Nesta terça-feira, o Ibama declarou que “teve ciência do caso” e que, “nesta terça-feira, 23, reuniu-se com o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) para alinhar as informações, a fim de tomar as devidas providências e coordenar uma fiscalização de garimpo na região”.

O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão estadual responsável pela gestão ambiental no Amazonas, informou que "tomou conhecimento das denúncias sobre a movimentação de dragas (balsas) de garimpo na região entre os municípios de Autazes e Nova Olinda do Norte, e que será feito um diagnóstico apurando a real situação no local".

"O Ipaam informa, também, que atividades de exploração mineral naquela região não estão licenciadas, portanto, se existindo de fato, são irregulares", declarou.

O órgão afirmou ainda que "há competência de órgãos federais na referida situação, considerando a Lei Federal Complementar 140/201, que trata sobre as ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum relativas à proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao combate à poluição em qualquer de suas formas e à preservação das florestas".

O Instituto também declarou que, "em atividades como a citada, pode haver outras possíveis ilegalidades que devem ser investigadas, tais como: mão de obra escrava; tráfico; contrabando; problemas com a Capitania dos Portos. E, ainda, de ordem econômica, social e fiscal, o que requer o envolvimento de diversas forças para um enfrentamento efetivo do problema".

Segundo o Ipaam, está em andamento um plano para "realizar as devidas ações no âmbito de sua competência, integrado aos demais órgãos estaduais e federais".

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Garimpeiros começam a se dispersar antes de serem alvos de ação policial na Amazônia

Rio Madeira teve 'invasão' de balsas; grupo falava em montar um 'paredão' para resistir à chegada de agentes do Ibama e da PF

André Borges, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2021 | 13h18

BRASÍLIA – A demora das autoridades federais em reagir ao movimento de balsas de garimpeiros no Rio Madeira, na Amazônia, resultou na dispersão de grande parte das centenas de embarcações clandestinas que ficaram paradas há cerca de uma semana na região de Autazes (AM). Como revelou o Estadão, o grupo se concentra na região onde teria sido encontrada uma grande quantidade de ouro.

Informações obtidas pelo Estadão apontam que a maior parte das balsas já deixou o local. Trocas de mensagens entre os garimpeiros sinalizam que parte deles já está subindo o Rio Madeira, sentido Humaitá, na fronteira do Amazonas com Rondônia. A região é conhecida pela aglomeração dessas embarcações. Muitos garimpeiros deixaram Autazes e já estão próximos do município de Nova Olinda do Norte (AM).

Desde a terça-feira, 23, reportagem feita pelo Estadão já trazia detalhes sobre a aglomeração de centenas de balsas, todas elas atuando em situação irregular, na extração de ouro do Rio Madeira. Na quarta-feira, os garimpeiros já trocavam mensagens entre si, a respeito de reações caso houvesse algum tipo de ação repreensiva por parte dos órgãos policiais e de repreensão.

Em mensagens de áudio divulgadas pelo Estadão, os garimpeiros falaram na possibilidade de montar um “paredão” de balsas para reter a ação policial, chegaram a falar em tocaias na floresta e em “mandar bala” nos agentes.

O Ministério da Justiça mobilizou a Polícia Federal, além das Forças Armadas e agentes do Ibama para realizarem uma ação na região. Até o momento, porém, nada ocorreu efetivamente. Informados sobre a mobilização, os garimpeiros também avaliavam a alternativa de deixarem o local.

Como seus equipamentos são irregulares, eles sabem que não há outra opção em casos de abordagem policial: tudo tem que se apreendido ou destruído no próprio local.

As autoridades federais não deram detalhes sobre seus planos na região, mas o que se articulava vinha sendo chamado internamente, pelos membros do governo, de uma “operação de guerra”, com bloqueio de passagens pelo Rio Madeira e por estradas que chegam à região onde estavam as embarcações.

Agentes ouvidos pela reportagem acreditam que a situação pode, de certa forma, facilitar a abordagem policial, porque evita conflitos com grande aglomeração. Além disso, as balsas se movem lentamente.

 

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Estadão acompanha operação da PF de destruição de garimpo ilegal no Rio Madeira; veja vídeo

Com a queima de balsas e dragas ao longo do Rio Madeira, no Amazonas,os agentes destroem as máquinas e evitam que elas voltem a ser utilizadas. Medida é regulamentada e tem previsão legal

André Borges, Enviado especial a Autazes (AM)

28 de novembro de 2021 | 17h44

As ações federais de repressão ao garimpo ilegal ao longo do Rio Madeira, no Estado do Amazonas, avançam no segundo dia, com a destruição de todas as balsas e dragas encontradas pelos agentes da Operação Uiara, batizada com a palavra que tem origem na língua tupi e significa “mãe da água”.

Ao menos 31 balsas e 69 dragas, que são os equipamentos usados para sugar o leito do rio, já foram destruídas pela operação, que reúne agentes da Polícia Federal, Ibama, Marinha e Aeronáutica. Parte dos equipamentos está sendo queimada pelos agentes. O que se pretende com esse gesto, que é frequentemente criticado pelo presidente Jair Bolsonaro, é inviabilizar o maquinário utilizado para a prática do crime ambiental.

Neste domingo, 28, duas pessoas foram detidas durante a abordagem policial. Elas estavam com ouro e foram encaminhadas à superintendência da Polícia Federal do Amazonas, em Manaus. A operação policial começou na madrugada do sábado, 27. Depois de dezenas de abordagens feitas na região de Autazes e Nova Olinda do Norte, no Estado do Amazonas, ela segue para o trecho do rio que corta o município amazonense de Borba.

A ação de queimar os equipamentos tem previsão legal e é regulamentada. Dessa forma, os agentes destroem as máquinas e evitam que estas voltem a ser utilizadas, de alguma maneira. O prejuízo financeiro causado aos donos dos equipamentos também é mais um reflexo desse tipo de medida, o que acaba retardando os planos dos empresários do garimpo de retomarem as operações.

 

O Estadão acompanhou uma dessas destruições nas margens do Rio Madeira, na altura do município de Nova Olinda do Norte, por agentes da Polícia Federal. Ao abordarem a balsa, peritos da PF colheram itens pessoais deixados pelos garimpeiros e material retirado pelas dragas.

A queima da estrutura é feita com o próprio combustível encontrado nas estruturas, que normalmente carregam grandes tanques de plástico com centenas de litros de gasolina. Em cerca de cinco minutos, o fogo se alastra e coloca tudo abaixo. Com o calor extremo, os equipamentos de ferro costumam dilatar, comprometendo uma nova utilização. Com o afundamento no leito do rio, torna-se item irrecuperável.

O recolhimento desse material também não costuma ser feito pelos agentes, dadas as difíceis situações logísticas nas quais são encontrados. O transporte do equipamento, além de ser complexo, também pode colocar os próprios agentes em novas situações de risco.

Centenas de garimpeiros subiram o Rio Madeira, sentido Humaitá, na última sexta-feira, 26, um dia antes de ser deflagrada a operação que reúne agentes da Polícia Federal, Ibama e Marinha, de vários Estados. Muitos garimpeiros abandonaram as balsas nas margens do rio e fugiram pela.

Apesar da estrutura precária das balsas que diariamente é encarada pelos garimpeiros que operam os equipamentos – muitas vezes acompanhados de suas famílias –, geralmente estes não são os donos do equipamento. Trata-se, na maioria dos casos, de pessoal que presta serviços para terceiros que financiam a operação.

As balsas em si são baratas, por se tratar de estruturas feitas, basicamente, de madeira. O maquinário colocado sobre elas, porém, é equipamento pesado, com preço que pode oscilar de R$ 50 mil a R$ 1 milhão. Em alguns casos, estruturas mais bem equipadas chegam a ultrapassar esse valor, segundo os agentes policiais.

 

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Operação contra balsas de garimpo no Rio Madeira destruiu 131 dragas

Equipamentos eram utilizados ilegalmente na busca por ouro no Amazonas; garimpeiros chegaram a fazer protestos contra ação

André Borges, enviado especial a Autazes e Nova Olinda do Norte

29 de novembro de 2021 | 09h12
Atualizado 29 de novembro de 2021 | 14h58

Após três dias de incursões contra balsas clandestinas de garimpo ao longo do Rio Madeira, a Operação Uiara destruiu 131 dragas, principal equipamento usado nas embarcações para sugar o leito do rio, em busca de ouro. Foram 69 dragas destruídas no sábado e outras 62 no domingo. O trabalho foi executado por grupamentos táticos da Polícia Federal, Ibama e Marinha.

Não houve nenhum registro de violência, uso de força ou disparo de arma de fogo, segundo o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Leandro Almada. Entre sábado e domingo, três pessoas foram conduzidas à delegacia da PF no Amazonas por terem sido encontradas com certa quantidade de ouro. “Tínhamos que dar uma resposta forte e a gente conseguiu. Esse é o resultado em 48 horas de operação”, disse Almada.

O trabalho foi realizado com apoio de equipes que seguiram de helicóptero e embarcações, a partir de Manaus (AM). As aeronaves seguiam diariamente entre a capital do Amazonas e as áreas do Rio Madeira onde estavam as balsas. As embarcações seguiram pelo Rio Amazonas, até acessar o Madeira e, a partir daí, apoiar as abordagens.

Protestos

Parte dos garimpeiros estava concentrada em áreas dos municípios de Autazes e Nova Olinda do Norte. As ações policiais se concentraram neste trecho. Em municípios acima, como Borba e Manicoré, houve concentração de balsas. Nestas duas últimas cidades, os garimpeiros também chegaram a fazer manifestações de protesto, de forma pacífica, contra os atos de repreensão.

Entre os agentes, houve apreensão de que uma investida da operação nestas novas aglomerações, que neste domingo, 28, chegaram a concentrar cerca de 20 balsas em Borba, pudesse gerar uma situação de risco. O superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Leandro Almada, disse, porém, que a decisão de não ir até a região deve-se a uma questão de autonomia dos equipamentos utilizados na operação.

“Nossa avaliação é de que o resultado já foi alcançado. Chegou a ser melhor do que esperávamos, principalmente após aquele primeiro movimento de evasão”, comentou. “O trabalho acabou avançando em uma área até maior do que imaginávamos. Mas é claro que, se vierem de novo, haverá nova operação.”

Nesta segunda-feira, agentes da PF devem recolher amostras de cabelo de moradores da região de Autazes. O objetivo é verificar, a partir de testes, se há alguma quantidade de mercúrio presente no organismo da população.

O produto químico utilizado no processo de separação do ouro de demais substância é extremamente prejudicial à saúde e ao meio ambiente. “Vamos fazer esse levantamento e buscar a prova material da contaminação”, disse Almada.

Mourão diz garimpo já foi dispersado

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta segunda-feira que o garimpo no Rio Madeira “já foi devidamente dispersado”. 

“O garimpo já foi devidamente dispersado, vamos dizer assim. Mas tem que manter vigilância constante, porque tem ouro lá. Se não houver vigilância constante, o pessoal volta”, afirmou Mourão na chegada ao Palácio do Planalto. “Tinha que ter feito da forma como foi. Quem está ilegal, tem que ter equipamento destruído ou apreendido”, acrescentou. 

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Garimpeiros deixam para trás comida pronta e celular ao fugir de fiscalização; veja vídeos

Estadão esteve em balsa de garimpo ilegal abandonada no Rio Madeira; no local, vivia uma família inteira, inclusive com criança

André Borges, Enviado especial a Autazes e Nova Olinda do Norte

29 de novembro de 2021 | 15h00

Não deu tempo para nada. Do jeito que estava, a família de garimpeiros que ocupava uma das balsas abandonadas na margem do Rio Madeira, na altura do município de Nova Olinda do Norte, largou tudo para trás e fugiu pelo mato com a roupa do corpo.

O Estadão esteve na balsa abandonada um dia depois da fuga. Os pertences deixados pelo chão comprovam que ali vivia e trabalhava uma família inteira, inclusive, com criança. Na pressa por deixar tudo e escapar da fiscalização, um celular de capa rosa ficou para trás, caído no assoalho de madeira do andar de cima da balsa.

 

 

No espaço usado como dormitórios, redes ficaram penduradas. Roupas e toalhas balançavam nos varais improvisados. A fuga ocorreu pouco antes do almoço. Sobre o fogão, uma panela de comida ainda estava cheia. No isopor, o gelo seguia bem conservado.

Uma agenda com anotações sobre pagamentos e contatos ficou perdida no meio da roupa jogada no chão. Ao lado, alguns brinquedos velhos e uma mamadeira. Na parede de um dos cômodos, um único adorno com uma pequena placa trazia a palavra “Fé”.

Em outro cômodo, um modem velho pendurado se prestava a alguma tentativa de acesso à internet em uma região onde comunicação é luxo. Era uma família garimpeira, como centenas de outras que, há décadas, mergulham na água turva do Madeira em busca de ouro.

A concepção de que o garimpo é um crime ambiental se diluiu na mente de muita gente que tenta a sorte nas águas dos rios da Amazônia há décadas. As dragas que sugam o rio geralmente não pertencem a quem está na operação, mas é bancado por financiadores.

Paralelamente, autoridades também já identificaram a participação de criminosos ligados ao narcotráfico atuando conectados com o garimpo, mercado ilícito que se apropriou das rotas fluviais do Norte. Na ponta deste processo, porém, muitas vezes, estão famílias tentando se virar como podem para sobreviver.

Como um camelô que vende seus produtos clandestinos nas grandes cidades, essas famílias sabem que atuam numa atividade paralela e irregular, mas se apegam à necessidade de sobreviver e se negam a reconhecer que são peça de uma engrenagem nesta roda do crime que assola a Amazônia e avança de forma descontrolada em toda a região.

Como acontece nas águas do Tapajós e do Xingu, o garimpo é realidade há décadas ao longo do Rio Madeira. Nesta ocasião, porém, a exploração do ouro no leito do rio só chamou a atenção de autoridades dentro e fora do País pelo impacto de imagens que revelaram a audácia dos garimpeiros, agrupados numa marcha fluvial, uma cidade flutuante que serviu para mostrar o vigor da exploração ilegal do ouro do País.

Nas vilas ribeirinhas que se espalham pela orla do Madeira, em municípios como Autazes, Nova Olinda do Norte e Borba, muitas famílias construíram suas vidas em volta dessa atividade e não veem opção para seguir adiante. O cooperativismo e a regulamentação das atividades de extração são demandas antigas, mas que acabam perdidas em iniciativas locais, sem poder efetivo de transformar a realidade caótica do comércio de ouro no País.

Em conversas com ribeirinhos e com garimpeiros, é comum ouvir a afirmação de que são apenas trabalhadores que atuam em uma atividade pesada e arriscada. Predomina a percepção de que não estariam cometendo crime nenhum, porque suas ações não teriam impacto no meio ambiente, mesmo após revolver todo leito do rio e filtrar sua água e terra, manipulando poeira de ouro presa nos tapetes das esteiras de madeira, para depois tratar tudo com mercúrio.

 

 

Na última semana, em reação à operação policial que se ensaiava para reprimir o crime na região, garimpeiros chegaram a trocar mensagens em tons de ameaça, esboçando que poderiam organização uma suposta reação à polícia, com a formação de “paredões” e “tocaias” na floresta. O fato é que ninguém resistiu a qualquer ato de repreensão.

Aqueles que não fugiram a tempo acabaram por ser abordados pelos agentes da Operação Uiara, nome que tem origem no tupi e faz referência à “mãe da água”. Sabendo que famílias inteiras, muitas vezes, costumam ocupar as balsas, os agentes deixavam que retirassem seus pertences e partissem, para depois destruir o equipamento de garimpo.

“Há crianças, mulheres. Famílias inteiras. Ninguém aqui pretende usar da força ou causar qualquer revolta na população. Por isso, deixamos que retirem suas coisas pessoais e que saiam. Essas pessoas são identificadas, mas são liberadas”, disse o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Leandro Almada.

Manivelas

O trabalho em família deve-se à necessidade de passar longos períodos no rio, sobre as balsas, que funcionam como verdadeiras casas para o garimpeiro. O funcionamento da draga usada para chupar o leito do rio precisa da participação de, no mínimo, de três pessoas. Enquanto uma gira a manivela que sobe e desce a mangueira até o fundo da água, outra some rio adentro para direcionar o tubo em diferentes áreas, um mergulho que, normalmente, é feito sem nenhum tipo de equipamento de apoio. É na base da apneia mesmo. Uma terceira pessoa fiscaliza a chegada do material que é despejado na esteira e o funcionamento do motor que suga o que encontra pela frente.

Uma vez que o material é trazido à superfície, cai sobre uma esteira de madeira coberta com um tapete ralo. Ali, o pó do ouro é retido, por ser um metal mais pesado que os demais sedimentos, enquanto o resto volta para o rio. É um processo repetido à exaustão, até que depois aqueles tapetes são retirados e “batidos”, para soltar o ouro que ficou impregnado. A partir daí é que se usa o mercúrio, responsável pela separação final do metal nobre.

O trabalho prossegue durante todo o dia. Em situação precária, os garimpeiros passam meses viajando pelo rio, principalmente nos períodos de menos chuva, quando a água ainda não se adensou e é mais fácil chegar ao fundo.

Na semana passada, quando correu a informação de que alguém teria “bamburrado” no Madeira, na altura de Autazes, a corrida de garimpeiros se formou, atrás da mesma sorte. A notícia era de que estavam tirando “um grama de ouro por hora”. Muitos não encontraram o que queriam. Acabaram por ter os equipamentos apreendidos pela fiscalização e destruído. Tudo foi queimado e deixado no local. Está, agora, no fundo do rio.

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