Ludovic Marin / AFP
Ludovic Marin / AFP

G-20 defende redução de emissões de gases estufa, mas não chega a consenso sobre prazos

Grupo de países mais ricos ficou longe do acordo de neutralidade (saldo zero) de carbono em 2050; China, Rússia e Índia se opuseram a essa meta

Sandy Oliveira, Célia Froufe e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 15h37

O grupo das 20 maiores economias do globo (G-20), que inclui o Brasil, se comprometeu a reduzir "significativamente" as emissões coletivas de gases do efeito estufa, mas não chegou a um consenso sobre prazos. A resistência de países como China, Índia e Rússia tirou da declaração final a previsão para 2050 da neutralidade de carbono – equilibrar todo CO2 liberado com absorção equivalente desse gás, com o reflorestamento, por exemplo. China e Rússia adiam esse prazo para 2060, e a Índia ainda não deu datas. Parte dos líderes viu o acordo do G-20 como insuficiente. 

Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia já se comprometem com a neutralidade em 2050. Mesmo o Brasil – sob desconfiança global por causa da alta do desmate na Amazônia na gestão Jair Bolsonaro – já disse que seguirá essa data.

Diante do dissenso, o grupo optou por escrever "neutralidade de carbono por volta de meados do século". Após um fim de semana de reuniões em Roma, a declaração foi divulgada neste domingo, 31, quando começa a Cúpula do Clima das Nações Unidas, a COP-26, decisiva para conter o aquecimento global.

A neutralidade de carbono exige mudar vários setores da economia – redução drástica de combustíveis fósseis, fontes de energia renováveis e processos industriais mais limpos. Requer ainda combater o desmate – responsável por metade das emissões do Brasil. 

China, Rússia e Índia estão entre os cinco maiores poluidores, junto de Estados Unidos e Brasil. A resistência dos três emergentes dá lugar ao principal obstáculo de acordos climáticos nos anos anteriores: o ex-presidente americano Donald Trump, de posição negacionista. O substituto, Joe Biden, expressou decepção com as ausências de Xi Jinping e Vladimir Putin em Roma. "A decepção está ligada ao fato de que Rússia e China não se manifestaram em termos de compromissos para enfrentar a mudança climática", disse ele, que também criticou a ausência da Arábia Saudita, outra defensora do prazo de 2060.

Desafios

Apesar da falta de mais compromissos concretos e datas, segundo apurou o Estadão, a avaliação na Itália foi de que houve progresso. Isso porque na reunião anterior, não houve menção ao tema. No documento, foram citadas as metas do Acordo de Paris, pacto climático firmado em 2015. "Continuamos comprometidos com a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C e juntar esforços para limitá-lo a 1,5°C acima do nível pré-industrial", escreveram no documento ontem. Segundo o último relatório do IPCC, painel intergovernamental da ONU para as mudanças climáticas, se o planeta não frear o aquecimento global, haverá alta significativa de eventos extremos, como secas, inundações e queimadas. 

Os líderes concordaram em encerrar o financiamento público para gerar energia à base de carvão no exterior, mas também não deram prazos para a eliminação gradual do carvão no mercado interno. 

Ministro da Economia, Paulo Guedes destacou discussões no G-20 sobre a crise energética e a alta global dos preços do petróleo, em meio a necessidades de mudanças por causa da crise climática. "Vamos ter de fazer essa transição em meio à crise energética."

As divergências no G-20 expõem as dificuldades para a COP. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que houve "progressos razoáveis", mas afirmou que "ainda não são suficientes". O premiê estimou em 60% as chances de êxito na Cúpula do Clima, que ocorre no Reino Unido. 

Já o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que suas expectativas foram "descumpridas", mas "não enterradas". Na abertura da COP ontem, a secretária da Convenção do Clima, Patricia Espinosa, disse não ser uma "questão de ambiente, mas de paz". O papa Francisco pediu para que a "voz da Terra" seja ouvida. No fim de semana, milhares de manifestantes foram às ruas de Bruxelas e Glasgow. /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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