Fundo para Amazônia muda paradigma, diz especialista

No entanto, especialista acredita que US$100 mi iniciais teriam um impacto apenas marginal sobre a devastação

STUART GRUDGINGS, REUTERS

14 Agosto 2008 | 21h04

Um fundo internacional lançado neste mês pelo Brasil para proteger a Amazônia marca uma mudança de paradigma no desenvolvimento sustentável da floresta, disse um especialista nesta quinta-feira, 14.     Veja também: Fundo para a Amazônia mostra aumento de auto-confiança do Brasil, diz 'Economist' Fundo mundial para Amazônia terá US$1 bilhão, diz BNDES Mas Carlos Nobre, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), acha que os 100 milhões de dólares prometidos inicialmente pela Noruega teriam um impacto apenas marginal sobre a devastação, mesmo que se repita durante 20 anos. Porém, ao criar o precedente de investimentos alternativos, o fundo poderia estimular indústrias sustentáveis, como o da borracha, capaz de ser muito mais lucrativa do que a pecuária e a extração de madeira, atividades hoje dominantes na Amazônia. "Esse tipo de dinheiro não vai mudar nada. Entretanto, vejo esses fundos iniciais como sendo elementos importantes na criação de um novo paradigma econômico para a Amazônia. É muito mais importante que [os fundos] sejam usados para desenvolver alternativas, não só na fiscalização das leis", afirmou. "Do contrário, será difícil mesmo com grandes aportes de dinheiro proteger a floresta, porque é quase necessário um Estado policial, é quase necessário colocar o Exército em toda a Amazônia. Isso só adia o desmatamento, mas não é uma solução final. O jeito é criar uma nova economia que gere empregos para milhões de pessoas". O novo fundo, criado por decreto presidencial, pretende arrecadar 21 bilhões de dólares ao longo de 13 anos para financiar a conservação e o desenvolvimento. Nobre disse que há mercado potencial para 50 a 100 produtos sustentáveis da Amazônia, embora poucos sejam explorados atualmente. "A Amazônia precisa desesperadamente de empreendedores, talvez seja a coisa de que mais precisa, ir lá com boas idéias e traduzir riqueza de biodiversidade em riqueza econômica", declarou Nobre. Após três anos de declínio no desmatamento da Amazônia, é provável que a taxa tenha voltado a subir nos últimos 12 meses, apesar das ações do governo. Muitos especialistas dizem que a inflação global, puxada pela demanda por alimentos, estimula a ocupação e devastação da Amazônia. EMPRÉSTIMOS VETADOS Em fevereiro, o governo lançou a operação "Arco de Fogo", de combate a madeireiras clandestinas, mas especialistas dizem que seu alcance é limitado devido à falta de estrutura para fiscalizar e punir irregularidades. Nobre disse que o Ibama parece mais empenhado na preservação da Amazônia neste ano, usando com freqüência os satélites do Inpe para localizar áreas a serem fiscalizadas. Ele também considerou "de tremenda importância" a nova lei que proíbe empréstimos bancários para quem destruir a floresta ilegalmente. "Pode-se até imaginar agora um sistema em que, usando o satélite, você localiza o desmatamento e meses depois essa pessoa, se não conseguir explicar que aquilo é legal, imediatamente vai para uma lista-negra de empréstimos", disse. Nobre é um dos cientistas que mais se destacam nas pesquisas sobre em que momento o desmatamento e a mudança climática atingiriam um ponto em que haverá desertificação espontânea da Amazônia. No atual ritmo, isso deve acontecer dentro de 50 a 60 anos, segundo ele. Mas essa previsão não leva em conta as diversas políticas nacionais dos países sul-americanos e o aumento da freqüência das queimadas florestais, entre outros fatores. "Mesmo que todos os países parem o desmatamento amanhã, [mas] se dentro de cem anos o aquecimento global mudar a temperatura em mais 4-5C -- aí pode esquecer, o ponto de desequilíbrio terá sido atingido".

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