Fundo climático proposto em Copanhague ainda não saiu

Autoridades já falam em acordo voluntário e extensão do Protocolo de Kyoto

The Guardian

04 Novembro 2010 | 16h31

Os governos do mundo industralizado devem ter um plano de emergência climática claro para os países em desenvolvimento se quiserem evitar um fiasco na Conferência do Clima em Cancún, no México, este mês, advertiu a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

 

Em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian antes das reuniões preparatórias para a COP-16, ela afirmou que os negociadores precisavam mostrar que podem produzir acordos concretos para restaurar a fé nas conversas internacionais por um acordo climático global.

 

Um elemento-chave seria fixar um acordo sobre o financiamento das mudanças climáticas, disse Izabella. "É preciso adotar ações que mostrem que é possível fazer algo até que consiga formalizar um acordo internacional. Precisamos mostrar ao mundo que, a despeito do processo político, nós podemos trabalhar juntos".

 

O Brasil está tentando ter um papel maior nas negociações sobre o clima da ONU mostrando seu comprometimento com o corte de emissões antes mesmo da Conferência de Cancún.

 

No mês passado, o país anunciou que havia reduzido suas emissões de gases causadores do efeito estufa em 34% sobre números dos últimos cinco anos, o que capacita o País a atingir sua meta de 39% de redução antes mesmo do prazo, que é 2020.

 

"Se mantivermos esta toada - e tudo indica que vamos fazê-lo - vamos cumprir nossa meta de redução voluntária de dióxido de carbono em 2016, quatro anos antes do prazo estipulado", diz o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está deixando o cargo mas fez sua sucessora, Dilma Roussef.

 

Quase toda a redução brasileira aconteceu por conta da queda nos índices de desmatamento, com a fiscalização mais severa sobre operações de corte e comércio ilegal de madeira. O Brasil reduziu o desmatamento na Amazônia em 70% nos últimos sete anos. O País também foi o primeiro a instituir um fundo para adaptações climáticas financiado pelos lucros do petróleo. O governo espera que o fundo gere US$ 132 milhões no próximo ano.

 

Lula afirmou esperar que essas iniciativas ajudem a encorajar os países industrializados a tomar atitudes engajadas na Conferência das Nações Unidas para o Clima em Cancún, a partir do dia 29 deste mês.

 

O Brasil, como outros países em desenvolvimento, está fazendo pressão para que as nações ricas cumpram seus compromissos - assumidos na COP 15, em Copenhague, ano passado - de levantar fundos de US$ 100 bilhões ao ano até 2020 para pagar pela redução de emissões e pelas ações de adaptação às mudanças climáticas no mundo em desenvolvimento.

 

O fundo climático foi a única decisão concreta resultante da reunião em Copanhague. Era para ter sido lançado com um orçamento inicial de US$ 30 bi entre 2010 e 2012. Mas Cancún está se aproximando e nem mesmo este fundo tomou forma, conforme reclamou o Ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh.

 

"Os US$ 30 bi prometidos não saíram. O máximo que podemos esperar conseguir é US$ 8 bi, ou US$ 9 bi, o que são migalhas", disse Ramesh.

 

Um conselho de economistas e políticos da ONU deve se pronunciar nesta sexta-feira sobre como a comuidade internacional pode levantar os tais US$ 100 bilhões.

 

Em uma iniciativa paralela, o ex-vice primeiro ministro do Reino Unido, Lord John Prescott conclamou os países em Cancún a estabelecer um acordo voluntário temporário para reduzir emissões, ao invés de um legalmente vinculante. Sem nenhuma garantia de que os EUA possam aprovar medidas legais para cortar emissões, o mundo deveria estender o protocolo de Kyoto por mais cinco anos e assim permitir que as nações tenham tempo de instituir um sistema de redução voluntário e passível de verificação, disse ele. O Protocolo de Kyoto expira em 2012.

 

"Esqueçam o acordo legal - não poderemos alcançá-lo. É a realidade. Os americanos não poderão apresentar nada e mesmo que quisessem tentar algo via COngresso, não conseguiriam. Vamos buscar um acordo voluntário. Vamos parar o relógio. Ao invés de Kyoto expirar em 2012, vamos dar a ele mais cinco anos, o suficiente para desenvolver um sistema de verificação de emissões", opina Prescott.

 

Mais conteúdo sobre:
Cancún, clima, México, Kyoto

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.