Utpal Baruah/Reuters
Utpal Baruah/Reuters

Fome e desperdício de comida preocupam cada vez mais, dizem especialistas

Entidades brasileiras veem aumento do risco de subnutrição por piora na economia, quanto perda de alimentos no Brasil chega a mais de 40 mil toneladas por dia

O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 21h51

O risco de aumento da fome no País voltou ao radar de entidades responsáveis por monitorar o cumprimento da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), que estabeleceu os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030. Em julho, vinte dessas entidades divulgaram um relatório alertando para o risco do Brasil voltar ao Mapa da Fome, elaborado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), que aponta os países nos quais pelo menos 5% da população é subnutrida.

No último relatório da FAO sobre segurança alimentar, lançado na última sexta-feira (15), o País se manteve fora do Mapa da Fome, com o índice de subnutrição abaixo de 2,5% da população. Para sair do mapa, é preciso ter menos de 5% da população com subnutrição - meta que o Brasil atingiu em 2014. O relatório apontou que a fome alcançou 2,4 milhões de pessoas a mais na América Latina e no Caribe, passando de 40,1 para 42,5% na comparação entre 2015 e 2016.

Mesmo com o Brasil  fora do Mapa da Fome, o problema continua preocupando os especialistas, pela instabilidade econômica. “A velocidade dos efeitos (da economia na fome) vai depender de aspectos como queda de renda, desemprego e, sobretudo, da capacidade do sistema de proteção social garantir o atendimento de necessidades básicas", diz o economista Francisco Menezes, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e da ActionAid Brasil, entidades que monitoram o cumprimento dos ODS no País e que estão entre as que divulgaram o relatório em julho. “A cada dia cresce entre nós a apreensão de que o que era antes risco, agora vai se tornando realidade”, ele conta.

Além da piora em índices socioeconômicos, como renda e emprego, pesquisadores citam o próprio dia a dia das entidades que apoiam como sinal da piora no quadro da fome. Em Pernambuco, uma das organizações que coordena o grupo de trabalho da Agenda 2030 teve de assumir novas atribuições por causa dos problemas.

A ONG Gestos, focada no auxílio ao tratamento de HIV para pessoas de baixa renda, passou a ser a única fonte de alimentos para cerca de 30 famílias em Recife. “A quantidade de alimento que distribuímos hoje em dia é, no mínimo, 400% maior do que distribuíamos três anos atrás”, conta a coordenadora da Gestos, Alessandra Nilo. “Várias organizações estão tendo de lidar com esse agravo de pobreza.”

Desperdício. Apesar do risco da fome aumentar no Brasil, o País perde 41 mil toneladas de alimentos por dia, segundo estimativa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Diariamente milhares de toneladas de alimentos ficam pelo caminho entre a colheita e a mesa de jantar. A perda ocorre no transporte sem cuidado, no armazenamento impróprio, por problemas de refrigeração e conserva, no descarte de itens que ainda poderiam ser consumidos e também no consumo excessivo. Ineficiência na distribuição, desperdício e excesso no consumo levam à perda de um a cada cinco quilos de comida no mundo, segundo estudo da Universidade de Edinburgo.

Especialistas ressaltam que a redução do problema traria benefícios como o aumento da remuneração de produtores rurais, crescimento da oferta de alimentos, redução de custos operacionais e redução de impactos ambientais.

“Quando se desperdiça um alimento, está se jogando fora todos os recursos naturais utilizados para a sua produção: água, solo e recursos da biodiversidade”, explica a coordenadora de Mudanças Climáticas do World Resources Institute (WRI) Brasil, Viviane Romeiro. “A quantidade de alimentos desperdiçados na América Latina e Caribe poderia alimentar 30 milhões de pessoas.”

Para ela, soluções como a padronização de embalagens, investimento em logística e transporte, além de melhorias na integração entre varejistas, atacadistas e produtores, poderiam diminuir as perdas.

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