GABRIELA BILO/ESTADAO
GABRIELA BILO/ESTADAO

Fogo não era para ser comum na Amazônia, diz biólogo

Fernando Reinach, colunista do 'Estado', participou do espaço O Leitor Entrevista, com transmissão da conversa ao vivo pelo Facebook. Ele comentou a crise na floresta e a reação do governo

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 22h55

O biólogo e colunista do Estado Fernando Reinach participou nesta quarta-feira, 4, da primeira edição do espaço O Leitor Entrevista, conversa com transmissão ao vivo pelo Facebook, onde respondeu a perguntas do público. O tema foi a crise na Amazônia diante do avanço nas queimadas e no desmatamento e as medidas tomadas pelo governo como reação à situação.

Ele esclareceu uma dúvida recorrente sobre a relação das queimadas com o bioma. “Há ecossistemas, como o Cerrado, onde a queimada é uma constante. É um lugar muito seco, pega fogo e as plantas lá já são acostumadas a queimar e brotar de novo”, explicou. Na Amazônia, ponderou, a situação é diferente: ‘Não é um ecossistema onde a queimada faz parte da vida, da história natural. A grande parte das queimadas que acontecem são de pessoas que derrubam o mato, tiram a madeira nobre e depois põe fogo no local. Uma grande parte dessas queimadas, quando se vê as fotos, são lugares já cortados”.

Abaixo, leia alguns pontos abordados por Reinach e assista ao vídeo na íntegra:

Fenômenos naturais?

"Há ecossistemas, como o Cerrado, onde a queimada é uma constante. É um lugar muito seco, pega fogo e as plantas lá já são acostumadas a queimar e brotar de novo. É um lugar onde a queimada faz parte da vida daquele ecossistema. Na Amazônia, também existem queimadas naturais, quando cai um raio, mas elas são muito raras. Não é um ecossistema onde a queimada faz parte da vida, da história natural. A grande parte das queimadas que acontecem são de pessoas que derrubam o mato, tiram a madeira nobre e depois põe fogo no local. Uma grande parte dessas queimadas, quando se vê as fotos, são lugares já cortados. Põe fogo na coisa cortada, não se faz um aceiro em volta e o fogo entra na floresta e aí essa queimada passa direto para a floresta. "

Discurso do governo e fiscalização

"O que o governo fez tem um discurso e a prática. Não é que o governo deu uma ordem: pessoal, vamos lá queimar a Amazônia. Mas se você relaxa...Na hora que começa a falar para todo mundo: Olha, não vamos pegar muito pesado.... 

Acho interessante conversar sobre como controlar uma área tão grande quanto a Amazônia. É um ponto central. Como funciona o radar de carros: você anda na estrada, tem um radar, ele manda uma onda e vê que você está andando muito rápido. O computador reconhece que o carro está vindo rápido e a máquina fotografa a frente do carro. Com a placa, o Detran fala de quem é aquele carro. O computador emite uma multa e chega na minha casa.

Existe um sistema idêntico para monitorar a Amazônia. O satélite passa por cima, acha um desmatamento, tira uma foto e compara com a foto de antes. Reconhece que a área foi desmatada. Próximo passo: identificar o responsável pela área. Existe um instrumento que foi criado nos últimos dez anos que se chama CAR (Cadastro Ambiental Rural). Cada dono de propriedade tem que colocar num mapa o limite da sua propriedade e onde está a casa, onde está a reserva que não posso queimar, onde está meu pasto, minha plantação. E essa cadastro diz se tá tudo legal. Esse cadastro pode ser posto em cima do mapa, do mesmo jeito que o Google coloca em cima do mapa de São Paulo as ruas, os endereços. Com isso, é possível identificar de quem é a terra. Ele disse que era uma uma reserva legal, mas queimou bem aqui. Teve autorização do Ibama? Se não teve, emite a multa. Na Amazônia, tem muita área que não é de ninguém, mas tem que passar a ter um CAR e ter um responsável." 

Responsabilidade do atual governo

"Os governos anteriores tinham um problema muito maior. O pico das queimadas e desmatamento aconteceu no governo Fernando Henrique e nos primeiros anos do governo Lula. O que aconteceu? Nessa época, as pessoas começaram a se organizar. Montaram o monitoramento do Inpe, passaram leis e conseguiram abaixar. Estávamos chegando no nosso objetivo do Acordo de Copenhague e agora relaxou e vai voltar a subir. Se olhar a série histórica, verá que Bolsonaro deu uma subidinha, mas não é esse o problema. É que a “subidinha” está sendo rápida depois de um esforço enorme da sociedade para segurar. É um esforço de controle que deve haver um compromisso de se manter."

'Queimadas europeias’

"Essas queimadas e essas destruições ocorreram numa época que a humanidade não tinha uma percepção desse conceito que vivemos em um planeta limitado e que temos de tomar cuidado. Vivíamos em um tempo que não tinha esse conceito. Não dá para comparar com o que aconteceu na Europa na Idade Média, quando os castelos desmatavam tudo em volta, porque eram pessoas que não sabiam das consequências disso. Não é uma comparação justa. Aprendemos a partir disso."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.