Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Fogo na Amazônia: o presidente do Brasil está cometendo ecocídio. Devemos pará-lo

'É urgente que a comunidade internacional encontre meios de influenciar países desonestos cujas políticas irresponsáveis aceleram o aquecimento global'

Lloyd Axworthy e Allan Rock, *

30 de agosto de 2019 | 12h00

A crise na floresta amazônica traz pelo menos duas lições importantes para a humanidade. Primeiro, as decisões de um governo sobre gestão ambiental podem ter consequências de vida e morte para as pessoas de todo o mundo. E segundo, é urgente que a comunidade internacional encontre meios de influenciar países desonestos cujas políticas irresponsáveis aceleram o aquecimento global e minem o esforço coletivo de enfrentar a ameaça à existência representada pelas mudanças climáticas.

As florestas tropicais são um recurso natural de valor único, não só para os países nos quais se encontram, mas para o mundo inteiro. Há evidências de que sua destruição teria um impacto devastador sobre as temperaturas globais, sobre os padrões climáticos e a agricultura.

Uma das maiores florestas tropicais do mundo está localizada na bacia amazônica. Mais de 60% dessa floresta tropical é encontrada no Brasil, onde as políticas ambientais inconsequentes e irresponsáveis do presidente Jair Bolsonaro a colocaram em risco grave. Bolsonaro convocou os interesses privados a acelerarem o desmatamento. Encorajados, fazendeiros e madeireiros voltaram suas tochas contra vastas áreas da Amazônia, onde os focos de incêndio aumentaram 80% este ano. Esses incêndios criam um duplo risco: liberam grandes quantidades de dióxido de carbono e deixam a floresta menor, absorvendo menos gases do efeito estufa.

No início, os incêndios cresceram descontroladamente, pois o governo brasileiro se recusou a combatê-los. Ante uma tempestade de críticas, Bolsonaro finalmente reverteu o rumo e convocou o exército. Ainda não se sabe se as violentas labaredas estão sendo realmente enfrentadas.

Os protestos vieram de todo o mundo porque as consequências da loucura de Bolsonaro serão sentidas em todas as regiões do globo. Cientistas que criam modelos de padrões climáticos demonstraram que, sem as florestas tropicais, a agricultura enfrentaria efeitos drásticos não só nos trópicos, mas também na América do Norte, Europa e Ásia. Os padrões de chuva mudariam, as temperaturas subiriam e eventos climáticos extremos se tornariam mais comuns. As condições em países frágeis piorariam, colocando vidas em risco trazendo conflitos e fome. O número de refugiados climáticos aumentaria, exercendo ainda mais pressão sobre uma capacidade global já tensa de gerenciar a mobilidade das pessoas deslocadas à força.

(É difícil acreditar que, há dez anos, houve sérias discussões sobre a adesão do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, dada sua - então - influência política e peso global. O assustador comportamento de Bolsonaro significa o fim dessa ambição.)

Dado o que está em jogo com as mudanças climáticas, é aceitável que um único governo possa adotar unilateralmente políticas ambientais que colocam milhões em risco? Bolsonaro reivindicou o direito soberano de fazer o que quiser no território brasileiro e descreveu como “colonialistas” todos os esforços para influenciar seu comportamento.

Mas a soberania não é absoluta. Os países membros da ONU já decidiram por unanimidade, ao adotar a Responsabilidade de Proteger, que a soberania deve ceder caminho quando um estado é incapaz ou não deseja interromper o genocídio ou outras atrocidades em massa dentro de suas próprias fronteiras. A comunidade internacional, como último recurso, atravessará a fronteira da “soberania” para impedir ou fazer parar que atrocidades em massa aconteçam - em nome da humanidade.

Certamente, a mesma lógica se aplica às circunstâncias criadas pelo governo do Brasil. A soberania não é um valor absoluto em si mesma. Não se deve proteger um regime que coloca vidas em risco por acelerar deliberadamente as mudanças climáticas, ou cuja recusa em agir coloca em risco um dos recursos ambientais críticos do planeta.

Tais governos devem saber que sua intransigência será confrontada por uma resposta coletiva. Se um tirano como Bolsonaro deliberadamente põe fogo em uma floresta tropical e se recusa a reverter o curso, por que não enviar capacetes verdes multilaterais através da fronteira brasileira para extinguir os incêndios que ameaçam a todos nós? No mínimo, devem ser tomadas medidas que levem a uma modificação de comportamento do país recalcitrante, tais como uma série crescente de denúncias, embargos e sanções.

O Grupo dos Sete teve um início modesto neste fim de semana, comprometendo-se a ajudar no combate aos incêndios. Mas o “ecocídio” de Bolsonaro deve ser confrontado mais diretamente, caso contrário, ele simplesmente encontrará outras maneiras de alcançar seu objetivo. O Canadá poderá liderar esse esforço nas Nações Unidas e em outros lugares.

Na Amazônia, está em jogo mais do que apenas o interesse soberano do Brasil. O Brasil é o administrador de um ativo global crítico. Se o governo do Brasil submete esse ativo a sério risco, pondo dessa forma em risco a vida de outras pessoas em todo o mundo, a comunidade internacional deve agir - em nome da humanidade. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*LLOYD AXWORTHY É PRESIDENTE DO CONSELHO MUNDIAL DE REFUGIADOS E EX-MINISTRO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DO CANADÁ

*ALLAN ROCK É PRESIDENTE EMÉRITO DA UNIVERSIDADE DE OTTAWA E EX-EMBAIXADOR CANADENSE NOS ESTADOS UNIDOS

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