Dida Sampaio/Estadão
Animais não encontram refúgio em meio às queimadas no Pantanal. Dida Sampaio/Estadão

Incêndios destroem 64,8% do Parque Encontro das Águas, em Mato Grosso

Governo federal reconheceu a situação de emergência no Estado de Mato Grosso do Sul. Desde a semana passada, o 'Estadão' mostra in loco a devastação no Pantanal

Vinícius Valfré, enviado especial a Poconé, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 05h00

MATO GROSSO - O governo federal reconheceu a situação de emergência no Estado do Mato Grosso do Sul em decorrência dos incêndios florestais que assolam a região. Uma mancha de cinza e lama escura se estende pela vasta área de incidência de onças-pintadas do Pantanal em Mato Grosso. Desde a semana passada, o Estadão mostra in loco a devastação na área. O fogo que destrói desde meados de julho o bioma mais úmido do planeta engoliu até agora 64,8% dos 108 mil hectares do Parque Estadual Encontro das Águas, nos municípios de Poconé e Barão de Melgaço.

Na tarde do último domingo, a equipe de reportagem do Estadão navegou pelos Rios Cuiabá, São Lourenço e Dois Irmãos, que cortam a reserva, para registrar as condições do parque, uma área de preservação criada em 2004 pelo governo mato-grossense que ainda hoje está na mira de grileiros.

Quem caminha pelo parque se depara com uma fumaça que turva a paisagem e torna difícil manter os olhos sempre abertos. Num extenso trecho percorrido pela reportagem, o cenário era de terra arrasada. As raízes e a galharia da mata da várzea dos rios viraram carvão retorcido. Pântanos e pequenos lagos evaporaram. Do alto, o impacto do fogo prolongado surge em toda sua dimensão. A reportagem sobrevoou com drone três pontos distintos do parque. Mesmo com baixa visibilidade pela fumaça, as imagens capturadas mostram ilhas de vegetação numa extensa faixa queimada.

Pelas estimativas de biólogos, aproximadamente 80 onças viviam no parque até o início das queimadas – a esperança é que a maioria delas continue lá. Até o momento, os biólogos registraram três onças da região do parque com ferimentos. Dessas, uma foi resgatada em agosto e outra na última sexta-feira – o Estadão acompanhou o momento em que um felino de cerca 2 anos apareceu com as patas feridas na beira do Rio Corixo Negro, na área do parque. Uma terceira escapou antes que pudesse ser capturada e levada para tratamento.

Os pesquisadores esperam que, pela capacidade física das onças, boa parte das espécies possa se salvar. “É difícil estimar o impacto de um fenômeno que ainda está acontecendo”, afirma o biólogo e doutor em conservação ambiental Fernando Tortato, trabalha na proteção dos felinos em Porto Jofre, localidade de Poconé.

Pesquisador da ONG Panthera, ele ressalta que o tamanho da área do parque destruída pode aumentar. “A gente ainda está tentando entender os efeitos das queimadas”, afirma. Ele observa que, nos incêndios dos anos anteriores, os animais podiam percorrer de cinco a dez quilômetros até encontrar água e proteção do fogo. Desta vez, não há refúgios para as espécies, especialmente roedores, cobras e lagartos, de menor porte. O fogo atingiu área vasta.

O Corpo de Bombeiros de Mato Grosso e voluntários delimitaram mil hectares de vegetação bem preservada dentro do parque para as espécies se abrigarem caso o fogo consuma o que sobrou da reserva. Em volta, os agentes e biólogos abriram valas com intuito de impedir a chegada de possíveis focos.

Pelo Pantanal, não faltam bandos de bichos tentando escapar do incêndio e encontrar água e comida. Voluntários espalham frutas em trechos ainda verdes da Transpantaneira, principal acesso terrestre da região. Na manhã desta segunda-feira, 14, revoadas de garças, veados e capivaras estavam nas margens cinzentas da estrada.

Crime

Focos de incêndio não param de surgir ao longo da Transpantaneira. Ao Estadão, o coronel Paulo Barroso, do Corpo de Bombeiros, disse que a estrada poderá ser fechada nos próximos dias. O bloqueio deve acontecer em frente ao posto rodoviário no km 17, exatamente onde está o simbólico portal que dá as boas-vindas a quem chega ao Pantanal. Só agentes públicos, brigadistas e voluntários que atuam no salvamento dos animais deverão ter acesso.

Secretário executivo do Comitê Estadual de Gestão do Fogo do governo de Mato Grosso, Barroso diz que nas margens da rodovia as queimadas são “propositais”. Um dos objetivos da medida de restringir a circulação de pessoas é justamente prevenir novos incêndios. “Infelizmente não tivemos a oportunidade de fazer o flagrante, mas percebemos que, pelas condições que ocorrem os incêndios, algumas pessoas entram nesse ambiente e fazem fogo de forma criminosa. E esse também é um dos motivos que iremos fechar a Transpantaneira tão logo seja decretado o estado de calamidade para Mato Grosso”, afirmou o militar.

Em meio às queimadas, covid preocupa

O fogo e a fumaça são vistos a distância, mas outro inimigo que ronda o Pantanal do Mato Grosso é invisível. Apesar da pandemia de covid-19 ter reduzido o fluxo de turistas dessa época do ano, grupos de visitantes que chegam por ar e terra a partir de centros urbanos podem trazer o novo coronavírus para ribeirinhos que estão a 150 km de um hospital.

Nas comunidades localizadas na extremidade final da Rodovia Transpantaneira, a quase 300 quilômetros de Cuiabá, os protocolos sanitários inexistem. Idosos convivem sem máscaras e crianças brincam na beira de rios, de onde partem forasteiros em busca dos animais típicos.

A eventual entrada da doença na região de Porto Jofre pode ser devastadora num lugar isolado de equipamentos estatais. Para serviços médicos e fúnebres depende-se da estrutura de Poconé e Cuiabá. Não raro, nativos enterram entes em jazigos dentro das propriedades rurais. No Pantanal, predomina a versão de que o vírus não é páreo para o calor de mais de 40°C. Em bate-papo com a reportagem em uma roda, moradores justificam a falta de máscara. “Covid não sobrevive aqui não”, diz um deles, sem lembrar que o micro-organismo circula no ar e pode ser transmitido num aperto de mão.

A primeira referência médica para assuntos relacionados à covid-19 na região fica no centro de Poconé, cidade de 32 mil habitantes. Os sinais de que o Brasil vive uma pandemia que matou 3.082 pessoas em Mato Grosso estão em algumas pousadas. Os visitantes chegam de máscaras de proteção fácil, mas logo se distraem com piscinas e cervejas. O calor que chega aos 45 ºC é um desestímulo à proteção.

A população desconhece casos de infecção nas redondezas, mas quem interage mais intensamente com turistas prefere a cautela. Em uma pousada visitada pelo Estadão, às margens do Rio Cuiabá, em Porto Jofre, a 145 quilômetros de Poconé, luvas e máscaras são exigidas na retirada do café da manhã. “O coronavírus não me preocupa, eu só uso a máscara por respeito às demais pessoas”, disse o engenheiro civil holandês Jean-Paul Middel, 33 anos. Ele ostentava uma máscara com desenho de um tucano. O estrangeiro sentiu que era hora de um período fora da Europa e quis que o risco valesse à pena. Pela primeira vez, foi parar no coração do Pantanal.

A doença, no entanto, não faz distinção das vítimas. Em julho passado, um dos líderes da etnia xavante em Mato Grosso, o cacique Domingos Mahoro, de 60 anos, morreu infectado pela doença. Diabético e hipertenso, o cacique morreu na capital mato grossense após ser transferido do interior do Estado. Mahoro, que era da aldeia Sangradouro, localizada próxima do município de General Carneiro (MT), era uma importante liderança indígena para a etnia xavante da região.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Onça-pintada foi resgatada por voluntários e biólogos no Pantanal Dida Sampaio| Estadão

Fogo avança nos últimos redutos de onças no Pantanal

Estadão está em Poconé (MT) e acompanha de perto a devastação causada pelo fogo e o resgate de animais, entre eles uma onça pintada

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Onça-pintada foi resgatada por voluntários e biólogos no Pantanal Dida Sampaio| Estadão

Tarde de mormaço no Pantanal de Mato Grosso. Pelo Rio São Lourenço, corre a informação, de barco em barco, que uma onça-pintada está cercada pelo fogo na margem de um afluente do curso, a montante. Num cais da localidade de Porto Jofre, em Poconé, a 290 quilômetros de Cuiabá, o “piloteiro” Vandir Garcia, o Cabelo, diz à equipe do Estadão que pode chegar com sua voadeira até o animal em 45 minutos.

É a maior série de queimadas na região nas últimas duas décadas, informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Ibama.  “O fogo neste ano aqui está muito brabo. Os animais não conseguem escapar”, afirma, por sua vez, Cabelo, um paraguaio de 49 anos, há 30 em serviços de transporte nos caudalosos cursos de água.

Na viagem para localizar a onça, o “piloteiro” demonstra incômodo também com o nível do mormaço. O horizonte no estirão do rio ganha um tom avermelhado e o calor torna-se mais intenso. Focos de incêndio surgem de um lado e outro. Uma densa fumaça encobre o céu. A fuligem está em toda parte. A visibilidade é limitada. Nos trechos mais abertos, é possível ver tuiuiús, martins-pescadores e biguás nos remansos.

Antes de sair do cais na voadeira pilotada por Cabelo, na última sexta-feira, o Estadão se certificou que uma rede formada por moradores, voluntários, biólogos de uma ONG de defesa de animais e donos de pousadas seria informada da localização da onça assim que terminasse uma outra missão de resgate.

Após alguns minutos de viagem, o barco entra no Rio Corixo Negro, que deságua no São Lourenço, área de presença constante de jacarés e sucuris. O braço é mais raso e um descuido pode prender a embarcação na galharia do leito.

Foram apenas 35 minutos para a equipe avistar a onça estirada num trecho da margem esquerda. É um macho jovem. Tem aproximadamente dois anos e pesa cerca de 100 quilos, estima Cabelo. Um ribeirinho que passou por ali jogou uma piranha para a onça, que não teve forças para se alimentar.

Da voadeira, o Estadão registra o momento em que o animal se levanta, caminha e logo depois interrompe o deslocamento. As patas estão feridas, em carne viva. Lambidas na parte de baixo das patas removem a pele queimada em uma tentativa de amenizar o sofrimento. Possivelmente, a onça fez um grande esforço para chegar à beira do rio, área onde poderia se salvar. Antas, capivaras, cobras, veados e aves morrem por asfixia ou queimaduras ainda dentro da mata.

O Estadão aguarda o grupo de salvadores de animais para que a onça não desapareça. Uma hora depois, os integrantes da rede encostam seu barco. A missão em que estavam não teve bom resultado. Ainda no dia anterior, o grupo chegou a usar tranquilizantes em um animal que agonizava, mas o bicho se assustou e voltou para a mata.

A operação para retirar uma onça-pintada de seu habitat, mesmo quando debilitada, é complexa e perigosa. Requer paciência. O grupo de salvamento é liderado por Eduarda Fernandes Amaral, de 20 anos, natural de Cuiabá. Ela é uma liderança em Porto Jofre que faz a interlocução entre donos de pousadas, Corpo de Bombeiros, ONGs e agentes ambientais do governo do Mato Grosso. “O Pantanal é muito grande para os poucos bombeiros que vieram”, afirma.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
As pessoas dirigem na Transpantaneira, veem o fogo, mas não imaginam o que acontece no coração do Pantanal. Não tem brigadista, não tem ninguém.
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Eduarda Fernandes Amaral

Assustada

Os veterinários logo percebem que o caso da onça do Corixo Negro é crítico. Assustada, magra e sem forças, tem dificuldades para manter-se de pé. O barco do grupo de salvamento e a voadeira do guia do Estadão são manobrados para forçá-la a se deslocar para um local específico da beira do rio. Dali, um médico veterinário tentaria se desvencilhar dos galhos e acertar uma zarabatana com sedativo.

O animal resiste e se abriga sob raízes em um barranco. As manobras prosseguem ao longo de uma hora. Finalmente, o veterinário Jorge Salomão, 36, da ONG Ampara Animal dispara a zarabatana para atingir a corrente sanguínea da onça. Em dez minutos, o felino “dorme”, de olhos abertos. A partir daí, começa outra corrida contra o tempo para suspendê-lo e colocá-lo numa jaula, onde serão feitos os primeiros socorros.

Uma base instalada em uma pousada à margem da Transpantaneira, estrada que passa pela região, recebe o animal provisoriamente, até que começa outra etapa do processo de salvamento. É preciso providenciar helicóptero ou caminhão para levar o bicho para tratamento. Por fim, a onça foi levada de helicóptero para um centro especializado na Universidade Federal de Mato Grosso. O último boletim médico-veterinário informava que ela resiste.

Como o governo federal não enviou agentes ambientais ou homens das Forças Armadas ou da Força Nacional suficientes para combater as queimadas que se prolongam há meses, os próprios pantaneiros se unem numa ofensiva sem muitos recursos e estrutura em defesa do Pantanal.

A guerra declarada pelo presidente Jair Bolsonaro às ONGs que atuam na preservação ambiental não faz eco entre os pantaneiros. Os donos de pousadas abriram as portas dos quartos e puseram voadeiras à disposição dos biólogos e veterinários das entidades de proteção de animais que ajudam a movimentar a indústria do turismo. “As consequências do incêndio só não estão sendo piores porque houve uma união. A gente se juntou", afirma Marcos, gerente de uma pousada em Porto Jofre. Os pantaneiros resolveram salvar por conta própria as onças, símbolos de um País solidário, ainda selvagem e fascinante.

Em nota, o Ministério da Defesa diz que o governo federal atua "decididamente e sem poupar esforços" no combate aos incêndios no Pantanal por meio das Forças Armadas. A pasta ressaltou que pôs um helicóptero da Marinha para ajudar em dois resgates de onças. Quanto à crítica por falta de efetivo na região, o ministério ressalta que engaja 200 militares nas atividades. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, disse que enviou para a região cinco aviões, dois helicópteros do Ibama, 80 viaturas e 400 brigadistas.

Segundo a Defesa, estima-se que os focos de incêndio concentrados em Poconé, Barão de Melgaço (MT), e uma área em Porto Jofre, já tenham passado por redução superior a 72%, conforme relatório emitido em 23 de agosto pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso. Os focos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, uma das áreas mais afetadas, diminuíram em 97%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

'Pantanal está triste', diz produtor

Pela estrada até Poconé, Estadão viu de perto a devastação do fogo que consome a vegetação nativa desde julho

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT), O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 14h00

O drama da maior série de queimadas no Pantanal pode ser visto bem longe das matas e várzeas da região e foi presenciado pelo Estadão. No centro de Cuiabá, em Mato Grosso, as máscaras de pano anticovid-19 não evitam o cheiro forte da nuvem cinzenta sobre a cidade. Os termômetros registram 33ºC. O clima é abafado e quente. Neste fim de semana, a fumaça dos incêndios no bioma e na Amazônia começou a chegar aos Estados do Sudeste e do Sul.

Pela estrada até Poconé, primeiro município da região pantaneira a partir da capital mato-grossense, é possível ver a devastação do fogo que consome a vegetação nativa desde julho. Também fica visível a ausência de ações intensivas do Poder Público para conter os focos.

Há quatro dias em viagem pelo Pantanal, o Estadão se deparou com equipes reduzidas do Corpo de Bombeiros e nenhum contingente das Forças Armadas - geralmente os militares são empregados em catástrofes ambientais.

A destruição atinge desde propriedades particulares a áreas de grande interesse científico e ambiental. O governo de Mato Grosso estima que mais da metade dos 108 mil hectares do Parque Estadual Encontro das Águas, onde está a maior concentração de onças-pintadas no planeta, foram queimados. A unidade ecológica fica na localidade de Porto Jofre, a 290 quilômetros de Cuiabá. É dali que saíram, no começo da semana, as primeiras imagens de onças com patas feridas e enfaixadas.

Queimadas numa região de produção de bois e secas prolongadas são corriqueiras. As deste ano, porém, alcançaram dimensão avassaladora e inédita para sitiantes, barqueiros e boiadeiros que carregam a experiência de uma vida inteira enfrentando as estiagens. Pequenos pecuaristas revelam o medo de perder a fonte de renda porque pastos que já eram modestos foram reduzidos a cinzas.

Montado em um alazão, o produtor Celso Rondon vistoria queimadas nas redondezas de Poconé, a 103 quilômetros de Cuiabá. Além do sobrenome e dos traços físicos, o encanto com os temas do sertão também o assemelha ao marechal Cândido Mariano, desbravador do Centro-Oeste. Com a sabedoria de quem vive há 64 anos no Pantanal, diz nunca ter visto sua pequena criação de bezerros ameaçada.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Este Pantanal é um Pantanal muito feliz. Nosso Pantanal é cheio de alegria. Agora, você só vê tristeza. Nosso gado está morrendo de fome
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Celso Rondon, produtor

O Estadão encontrou Rondon no final da Rodovia Transpantaneira. A estrada de 145 quilômetros começa logo depois do perímetro urbano de Poconé. É o início do Pantanal mato-grossense – dos 150 mil quilômetros quadrados do bioma no território brasileiro, 65% estão em Mato Grosso do Sul e 35% em Mato Grosso. O bioma ocupa ainda áreas da Bolívia e do Paraguai, num espaço total que equivale ao Estado de São Paulo.

Às margens do caminho de terra e cascalho, a paisagem pantaneira se revela com a presença dos primeiros jacarés e tuiuiús – e com as primeiras grandes áreas em cinzas. Corpos de bichos de pequeno e médio porte que não conseguiram escapar do fogo estão por todos os trechos da estrada.

É um percurso formado por uma centena de pontes de madeira, muitas em péssimo estado de conservação. As estruturas são desafios à segurança de moradores e viajantes. Com o incêndio, o que era inseguro ficou ainda mais. O fogo derrubou a sustentação de algumas pontes e não há qualquer aviso a respeito. Na sexta-feira, 11, uma das estruturas sem desvios não resistiu ao peso de um ônibus. O fluxo foi interrompido. A dica dos pantaneiros para evitar acidentes é explorar ao máximo os desvios que existem ao lado das pontes, o que aumenta o tempo da viagem. Em alguns momentos da viagem, o fogo ameaçava "abraçar" a estrada para chegar ao outro lado e o mais prudente era acelerar o carro.

 O Estadão acolheu a orientação quando adentrou a Transpantaneira, por volta das 13 horas da quinta-feira, 10. No caminho, colheu relatos sobre animais em apuros por parte de brigadistas, veterinários e nativos. Militares locais disseram que o ponto mais crítico era aos fundos de uma fazenda vizinha ao Parque Encontro das Águas. Duas dezenas de bombeiros tinham a atribuição de não permitir que o fogo atravessasse um acesso preparado desde a véspera.

A estratégia confidenciada pelos bombeiros não era a de por fim ao fogo - uma missão considerada impossível diante da falta de estrutura. Está de bom tamanho tentar proteger apenas as áreas mais sensíveis e deixar que a natureza decida quando quer por fim às queimadas, afirmaram em caráter reservado ao Estadão.

O fogo que rompe à noite deixa rastros pela manhã. A fumaça forma uma neblina desde as primeiras horas do dia. O cheiro da queimada e a fuligem são permanentes, o que compromete uma frente de ação contra os incêndios.

Em Porto Jofre, quatro aeronaves agrícolas foram deslocadas para lançar, a cada sobrevoo, dois mil litros de água sobre focos de incêndio. Sem visibilidade segura, os aviões permaneceram em solo na quinta-feira, 10, e na sexta-feira, 11. “Com essa visibilidade de 100 metros não tem condições de subir”, relata o piloto privado Gustavo Borges, 33 anos. “Operamos aqui dois dias, mas já temos dois dias sem operar.”

O incêndio é mais um golpe para a indústria do turismo que já vinha mal por conta da covid-19. Com menos clientes, os proprietários podem, no entanto, dedicar todo o tempo e esforço para proteger a região e ajudar a resgatar animais.

Ao chegar na madrugada de quinta-feira a Porto Jofre, um povoado com iluminação noturna precária, o Estadão não encontrou pousadas abertas. Após alguma procura e campainhas tocadas em vão, restou adentrar a varanda de uma delas e pernoitar em redes na noite enfumaçada do Pantanal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Após Estadão mostrar devastação no Pantanal, Marinho oferece ajuda a estados para combate a incêndio

Ministro do Desenvolvimento Regional afirmou que enviará neste domingo um representante da Pasta ao local; equipe do Estadão está em Poconé e mostra o avanço do fogo na região

Fabrício de Castro e Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 12h27

BRASÍLIA E POCONÉ (MT) - Após reportagem do Estadão revelar o efeito devastador das queimadas sobre as matas e os animais do Pantanal, o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, afirmou que enviará neste domingo ao local um representante da Pasta. Em mensagem nas redes sociais, Marinho também ofereceu ajuda aos governos do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul para o combate ao fogo.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Pantanal enfrenta a maior série de queimadas das últimas duas décadas. As labaredas engoliram dois milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio de Janeiro juntos, destaca o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Como mostrou o Estadão, alguns dos animais símbolos da região, como a onça-pintada, estão acuados pelo fogo. ONGs, Corpo de Bombeiros, agentes ambientais e até empresários da área de turismo se esforçam para salvar os animais.

Na noite de sábado, 12, Marinho tratou do assunto pelo Twitter. "Hoje, por orientação do PR (presidente) @jairbolsonaro, entrei em contato com os governadores de MT e MS para reiterar a oferta de ajuda para combate aos incêndios", escreveu o ministro. "Através da defesa civil nacional estamos monitorando o problema e desde o dia 02 de setembro já começamos a liberar recursos."

Marinho afirmou ainda que o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Alexandre Lucas Alves, viajará neste domingo, 13, ao Pantanal. "Às 15 horas nosso secretário nacional da defesa civil estará no local dos incêndios levando apoio técnico e financeiro para apoiar estados e as suas respectivas equipes no enfrentamento do desastre", disse Marinho. "A orientação é não faltar meios para debelar o fogo que ameaça o pantanal." A assessoria do Ministério do Desenvolvimento Regional confirmou que o secretário desembarcará em Campo Grande (MS) às 15 horas deste domingo.

Nas áreas atingidas pelo fogo, a percepção é de que o governo federal não enviou agentes ambientais ou homens das Forças Armadas ou da Força Nacional suficientes para combater as queimadas que se prolongam há meses. O Estadão está Poconé (MT) e verificou que os próprios pantaneiros se uniram numa ofensiva, sem muitos recursos e estrutura, em defesa do Pantanal.

Em nota, o Ministério da Defesa diz que o governo federal atua "decididamente e sem poupar esforços" no combate aos incêndios no Pantanal por meio das Forças Armadas. A pasta ressaltou que pôs um helicóptero da Marinha para ajudar em dois resgates de onças. Quanto à crítica por falta de efetivo na região, o ministério ressalta que engaja 200 militares nas atividades. O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, disse que enviou para a região cinco aviões, dois helicópteros do Ibama, 80 viaturas e 400 brigadistas.

Segundo a Defesa, estima-se que os focos de incêndio concentrados em Poconé, Barão de Melgaço (MT), e uma área em Porto Jofre, já tenham passado por redução superior a 72%, conforme relatório emitido em 23 de agosto pelo Corpo de Bombeiros de Mato Grosso. Os focos na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, uma das áreas mais afetadas, diminuíram em 97%.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo Dida Sampaio| Estadão

Pantanal virou cemitério de animais a céu aberto

O Estadão esteve em áreas às margens da rodovia Transpantaneira e encontrou dezenas de animais carbonizados

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo Dida Sampaio| Estadão

Segurança não é uma característica da Rodovia Transpantaneira. A paisagem, com suas árvores, áreas alagadas e fauna, ao longo de 145 quilômetros de perigo, permite uma sensação de prazer. Com as queimadas, porém, terrenos secos, habitats dos animais, se transformaram em cemitérios para as espécies.

Na companhia de biólogos que atuam no salvamento de animais, o Estadão esteve em áreas às margens da estrada com dezenas de serpentes carbonizadas. Cascavéis e sucuris morreram contorcidas presas pelo fogo que se alastrou pela mata da várzea e pelos pastos nativos.

Um jacaré queimado, de ponta cabeça, indica que ele pode ter morrido se debatendo, segundo os especialistas. Outro da mesma espécie chegou a identificar a presença de água e partiu em direção a uma área com tímida presença de vegetação. O instinto acertou ao prever a água no local, mas ela estava sob depósitos de cinzas. As patas traseiras estendidas indicavam, segundo biólogos, um esforço extremo do jacaré para correr o mais rápido que pôde.

A única estratégia para poupar vidas de animais que ainda não foram consumidos pelas chamas é espalhar alimentos e água por locais estratégicos. São as ONGs, entidades empurradas por trabalhos de voluntários, que mais se dedicam à tarefa.

A bióloga Karen Domingo contou ao Estadão que sai de Cuiabá aos finais de semana para auxiliar no amparo a animais. Os voluntários gastam para comprar os próprios equipamentos de segurança, dormem em instalações improvisadas e se lançam em missões sem estrutura.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Eu acho que o Pantanal é a minha casa. Tenho que dar a minha contribuição
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Karen Domingo, bióloga

O professor de biologia Luiz Solino também tem dedicado os finais de semana ao trabalho. “Acho que preciso dar uma resposta pra sociedade porque fiz meu mestrado em faculdade, e fiz aqui no Pantanal. De alguma forma aproveitei isso”, conta. “São pessoas que estão aqui sem receber um real. Muita gente não acredita, acha que é fake. Mas é o maior evento atípico do Pantanal e quem está atuando são os próprios afetados”, disse Ilvânio, presidente da ONG Ecotrópica, às quais Solino e Karen são ligados. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bois correm para se proteger do fogo que avança na região da Transpantaneira Dida Sampaio| Estadão

Fogo cerca rebanhos no Pantanal

Estadão mostra o Brasil que produz dentro das regras, mas sofre com as queimadas. Equipe de reportagem acompanha a situação em Poconé e traz os relatos de quem vem sendo atingido pelos incêndios

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT) , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Bois correm para se proteger do fogo que avança na região da Transpantaneira Dida Sampaio| Estadão

O velho fazendeiro e trinta de seus bois estavam encurralados pelo fogo. Jamil Costa, 71 anos, cada minuto da idade vivido neste rincão do Pantanal do Mato Grosso, tentava guiar de caminhonete os animais desgarrados de um rebanho de duas mil e quinhentas cabeças pela Rodovia Transpantaneira quando foi surpreendido pelo bloqueio do caminho. De repente, o incêndio veio ainda, ao longe, de outras frentes. “Estou dentro de um círculo de fogo”, disse por rádio a uma filha, desesperado. “Que seja feita a vontade Dele.”

As preces do pantaneiro a São Benedito e a São José se sucediam no ritmo do aumento do bafo da queimada que se aproximava. Entre uma oração e outra, ele viu o fogo dar trégua num dos lados e, no rumo das labaredas mais baixas, acelerou o carro na esperança de que por lá o foco fosse curto. Aproveitou a ajuda da Providência para escapar. Por horas, as chamas tomaram um vasto trecho da rodovia e de suas margens. “Mirei meu gado e esqueci de mim”, disse, à noite, com a cabeça no gado deixado para trás. Uma relação intensa, de homem e bichos, se rompera.

Dias antes, contou ele ao Estadão, o fogo engolira 90% do pasto nativo da fazenda de 40 mil hectares de Jamil em Porto Jofre, localidade de Poconé, a 290 quilômetros de Cuiabá. Ele decidiu, então, arrendar um curral a quilômetros dali para transferir a boiada. Mas a vida do pantaneiro não é fácil. Os focos também apareceram na nova área e o produtor teve de transferir os animais novamente de lugar.

O cerco do fogo ocorreu nessa segunda transferência. Numa tarde do começo de setembro, Jamil aproveitou o descanso do rebanho na beira da estrada para ajudar um grupo de amigos também fazendeiros a conter uma queimada que atingia uma ponte de madeira. Foi nesse momento que, afastado dos demais, tentou trazer os animais desgarrados para onde estava a maior parte do rebanho e se viu cercado pelo fogo.

Durante uma semana, o fazendeiro e seus vaqueiros não conseguiram ir atrás e saber o paradeiro dos animais – a fumaça densa impedia o monitoramento à distância e as condições de um resgate eram ainda difíceis. Jamil temia que boa parte dos bois tivesse tido o mesmo fim que capivaras, antas, veados e onças mortas nos últimos dias.

Para a surpresa dele e dos boiadeiros, os bichos reapareceram dias depois, ilesos. Tinham feito um caminho próprio para se salvar das labaredas. “É um incêndio criminoso”, esbraveja o fazendeiro numa conversa com o Estadão, marcada pela emoção do pantaneiro.

Ele direciona a denúncia para pecuaristas e peões sem conhecimento da região e preocupação com o meio ambiente que chegaram recentemente ao Pantanal. Jamil se abre para dizer que produz dentro das regras impostas por uma legislação ambiental, implantada a partir dos anos 1980, que pouco trouxe de impedimentos à criação tradicional do gado pantaneiro. 

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Fogo dessa dimensão ninguém nunca viu. Uma seca igual a que estamos passando eu só vi nos anos 70. E agora veio a seca, o fogo e o vento
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Jamil Costa, fazendeiro

O rebanho de Jamil é resultado de um trabalho centenário iniciado por seu pai e seu avô numa época em que o peão que matava onça que ameaçava o gado tinha a façanha premiada com um casal de bezerros. Hoje, a preservação do felino é fundamental para milhares de pantaneiros que complementam a renda proporcionada nos currais e baias com o turismo. A partir de junho, quando a água das planícies começa a baixar, estrangeiros, sobretudo, chegam por terra e ar para conhecer o bioma e observar onças-pintadas em seu ambiente natural. Os onceiros viraram guias. De março para cá, contudo, uma nova realidade se impôs. O fogo atinge a pecuária na mesma velocidade que o coronavírus fechou as portas do turismo.

Tradição

O fazendeiro faz parte de uma geração de pantaneiros que insiste contra as intempéries da criação de bovinos no Pantanal. O ecoturismo é uma atividade muito mais estável. Turistas pagam caras diárias para temporadas de aventuras. De outro lado, até que um bezerro desmamado possa ser vendido por R$ 1.400, é preciso trabalhar duro por dois anos, diante do temor de catástrofes. De março para cá, contudo, uma nova realidade se impôs.

Aqui, a ideologia de “passar a boiada” pregada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, de desrespeitar normas legais da área - ou impostas pela natureza -, não faz parte da trajetória dos produtores tradicionais. No Pantanal, a pecuária se desenvolve há quase 300 anos, desde muito antes do boom de abertura de fazendas após a Guerra da Tríplice Fronteira (1864-1870), sem alterar a dinâmica do meio ambiente. A figura do boiadeiro incorporada à paisagem natural tem bases reais. Tradição e modernidade sempre estiveram juntas.

O ritmo da água dos rios da Bacia do Paraguai, na avaliação de especialistas, impôs limites à presença humana e forçou a integração entre o setor produtivo e o meio ambiente. No chuvoso, que começa no próximo mês e vai até março, as águas inundam as terras baixas e retilíneas onde estão as fazendas e, entre abril e setembro, a seca permite aos animais crescerem e engordarem.

Neste tempo de seca, os pantaneiros sempre fizeram queimadas para renovar a pastagem, mas nada na proporção que impactasse a paisagem ou causasse atritos com os órgãos ambientais. A água das inundações ajuda bem mais na limpeza das ervas daninhas. O gado é criado solto. O fazendeiro não se sente obrigado a grandes cuidados nem a gastar com agrotóxicos, deixando para a própria natureza o cuidado diário dos animais. Daí a necessidade de saber os limites e reconhecer o ciclo da vida como parceiro.

No sangue

A variação entre secas prolongadas e enchentes exige habilidade e conhecimento elevados para manejar rebanhos de pasto a pasto sem que o custo das transferências por pontes precárias de madeiras ao longo de dias inviabilize a atividade. É uma destreza que pecuarista recém-chegados não carregam no sangue e que, segundo os antigos, acaba prejudicando todo o ecossistema.

Um hectare de terra no Pantanal pode ser comprado por R$ 300 a R$ 1,2 mil. O valor é irrisório, se comparado com terras produtivas de São Paulo e Minas Gerais, por exemplo. “Vendem uma perninha da terra deles lá e compram uma porção de terra aqui. Vêm numa empolgação, mas não conhece os problemas. Na primeira paulada que levam, abandonam, vão embora e torcem para alguém comprar a fazenda”, diz Jamil ao Estadão.

Ele explica que o gado ajuda a manter a vegetação rente ao chão. Pastos abandonados aumentam o acúmulo do material orgânico que pode alimentar queimadas. “Se não voltarem os pantaneiros para o Pantanal, isso (fogo) aqui não vai parar por aqui”, diz.

No início da tarde deste domingo Jamil voltou ao combate com o fogo. Ele liderou um grupo de cinco peões para combater um novo foco de incêndio em suas terras. O grupo contava com um trator e um carro-pipa. Jamil subiu no trator e avançou para cavar uma vala e interromper as labaredas. "Esse homem é louco, esse cara vai morrer aí", pensou alto o operador da mangueira.

Só com profundo conhecimento é possível, no tempo de chuva, enxergar os caminhos de terra firme numa paisagem de tanta água. Mas, no tempo de queimada sem fim e disputas ideológicas sem conexão com a vida rural, até os velhos fazendeiros sofrem para identificar trilhas e salvar a boiada do fogo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Queimadas são consequência de incêndios criminosos e desequilíbrio climático

Com nível de chuvas 40% menor que em 2019, o desmatamento nas cabeceiras dos rios que convergem para campos alagados completou o efeito explosivo

Vinícius Valfré e Dida Sampaio, enviados especiais a Poconé (MT), O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2020 | 14h00

Na avaliação de especialistas ambientais ouvidos pelo Estadão, a maior série de queimadas no Pantanal dos últimos tempos ocorre numa combinação de incêndios criminosos e um desequilíbrio hídrico e climático decorrente de problemas ambientais em outras regiões do País. O nível de chuvas neste ano no Pantanal foi 40% menor que em 2019. O desmatamento nas cabeceiras dos rios da Amazônia e do Cerrado que convergem para seus campos alagados completou o efeito explosivo.

Dados da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de Mato Grosso apontam que a maior parte dos focos de calor surge justamente em propriedades privadas. Mais de cinco mil foram registrados dentro de áreas cercadas. Nas estimativas oficiais, 15% da cobertura natural pantaneira virou pastagem.

O bioma vive seu momento mais difícil desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a registrar focos de calor. Em julho, o número desses focos no bioma chegou a 1.684, ultrapassando os 1.259 registrados em 2005. A tragédia continuou. Ainda assim, em 28 de agosto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a suspensão já precária das ações de combate ao fogo tanto no Pantanal quanto na Amazônia.

O ministro informou que R$ 60 milhões da pasta tinham sido bloqueados pela Casa Civil. A repercussão negativa da declaração de Salles levou o vice-presidente Hamilton Mourão a dizer que o ministro tinha “se precipitado” e o dinheiro estaria à disposição.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.