Figueiras, vespas e sexo a distância

Com desmatamento, vespas voam em média 88 quilômetros para polinizar figueiras

Fernando Reinach*,

28 Janeiro 2010 | 10h32

Plantas e insetos selaram um pacto. Os insetos voam de flor em flor, transportando o pólen necessário para fertilizar os óvulos. Em troca, coletam o néctar que necessitam para se alimentar. Para grande parte das plantas e insetos, é uma relação promíscua, onde diversas espécies de insetos polinizam uma mesma espécie de vegetal.

 

Mas a fidelidade impera na relação entre a figueira africana Ficus sycomorus e a vespa Certosolen arabicus. A vespa é o único inseto capaz de polinizar a figueira, que por sua vez é a única fonte de alimento da vespa. Seus destinos estão intimamente interligados. A vespa nasce no momento em que a figueira produz suas flores do sexo masculino, ricas em pólen e pobres em néctar. Como só vive dois dias e a figueira na qual nasceu só vai produzir flores femininas semanas depois, resta à vespa procurar alimento nas figueiras da vizinhança. Ao penetrar nas flores femininas, a vespa deposita o pólen, sorve o néctar e coloca seus ovos. Novas vespas eclodem na próxima floração e o ciclo se repete.

 

Com o desmatamento, a distância entre as figueiras vem aumentando. Os cientistas temiam que, de um momento para outro, a distância entre as árvores se tornaria maior que a autonomia de voo das vespas. Sendo assim, vespas e figueiras desapareceriam.

 

Era preciso descobrir a autonomia de voo das vespas. O truque foi estudar as figueiras ao longo do Rio Ugab, no deserto da Namíbia. Como o rio corta o deserto e as figueiras só se desenvolvem nas margens úmidas, cientistas percorreram os últimos 253 quilômetros do rio e identificaram as figueiras que cresciam nas margens.

 

A localização de cada uma das 79 figueiras foi determinada com um sistema de GPS. As distâncias entre as árvores variaram de alguns metros a 84 quilômetros. Folhas de cada uma delas foram coletadas e seu DNA, extraído. De cada uma das árvores também foram coletadas sementes, que, após germinarem no laboratório, tiveram seu DNA purificado.

 

De posse das amostras de DNA, os cientistas utilizaram um teste de paternidade, semelhante aos que identificam o pai de uma criança, para descobrir a árvore “pai” – aquela que havia produzido o pólen para fecundar o óvulo – de cada semente. Assim, por exemplo, foi descoberto que uma semente produzida pela árvore nº 1 tinha como pai a nº 3.

 

Como os dados do GPS permitem calcular a distância entre a árvore nº 1 e a nº 3, foi possível deduzir a rota percorrida pelas vespas carregando o pólen das flores macho da árvore nº 3 para as flores fêmeas da nº 1. Esse tipo de análise foi repetido para cada uma das dezenas de sementes coletadas. Os resultados demonstram que a menor distância entre uma árvore doadora de pólen e uma produtora de semente foi de 14,2 quilômetros, que a maior foi de 160 quilômetros e que a distância média voada pelas vespas carregando pólen foi de 88,6 quilômetros.

 

O resultado é surpreendente, uma vez que essas pequenas vespas só vivem dois dias e voam somente durante a noite. O que se acredita é que as vespas são carregadas pelo vento e, ao sentirem o cheiro do néctar, voam ativamente em direção às figueiras em flor.

 

Essa experiência demonstra que, utilizando sua colaboração com as vespas, as figueiras são capazes de praticar sexo mesmo quando o parceiro está localizado a mais de 150 quilômetros de distância. O time figueira/vespa, com seus milhões de anos de cooperação, é sem dúvida o campeão na prática do sexo a distância.

 

* Fernanda Reinach (fernando@reinach.com) é biólogo.

 

Mais informações: Wind-borne insects mediate directional pollen transfer between desert fig trees 160 kilometers apart. PNAS, vol.106, pag. 20.342, 2009.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.