Arquivo/AE
Arquivo/AE

FHC defende restrição ao desmate

Ex-presidente criticou tramitação do novo Código Florestal no Congresso e uso político da questão ambiental

Giovana Girardi, Enviada Especial, Manaus,

23 Março 2012 | 20h02

O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso disse ontem ser a favor do desmatamento zero no Brasil. "Já me manifestei a favor. Porque acho que não há por que se aceitar o desmatamento como uma técnica de utilização da floresta.

Existem experiências com comunidades extrativistas que demonstram que se pode conviver com a floresta e dar sentido econômico a ela, sem destruí-la. E a Amazônia não é só floresta, pode-se plantar onde não tem floresta, mas onde tem um bem tão grande, é melhor manter a posição mais estrita", afirmou durante o 3.º Fórum Mundial de Sustentabilidade, em Manaus, onde fez uma apresentação sobre os desafios do desenvolvimento sustentável.

Questionado sobre sua posição em relação à mudança do Código Florestal, disse que "tem de continuar firme. Tem de manter de toda a maneira as restrições para preservar o meio ambiente". Depois, quanto à votação, mandou uma espécie de recado ao Congresso em relação à disputa de partidos que se formou em torno da questão. "Eu tenho medo que a votação seja utilizada para outros fins que não de dizer se é bom ou mau. Nessa matéria acho que a gente tinha de ter uma posição de convergência nacional. Se é meio ambiente, é uma discussão nacional, não de partido."

FHC lembrou que desde 1972, quando os problemas do meio ambiente começaram a ganhar destaque, com a conferência de Estocolmo, o mundo avançou na compreensão do problema e na aceitação de que ambiente e crescimento não são discordantes. "Já sabemos que é possível ter desenvolvimento e respeito à natureza juntos.

Sabemos o que tem de ser feito e como ser feito. Mas o problema é que isso é urgente. E isso ainda não foi entronizado pela sociedade brasileira nem pelas sociedades de outros países. E ainda não vi muita clareza nessa questão, não há um projeto nacional que entrelace as duas coisas. Não é uma questão se vai ganhar mais ou menos com isso, é um desafio moral, porque o valor que tem nisso é o valor da vida."

O ex-presidente também falou sobre as expectativas para a Rio+20. Segundo ele, o foco deveria ser nos problemas ambientais. "A questão social está ligada à questão ambiental, mas tem de fazer essa ligação. Na África, em Durban (na conferência do clima da ONU no ano passado), os africanos insistiram na pobreza, na questão social, e isso vai aparecer no Rio, mas não podemos perder o foco. Se não cuidarmos do ambiente, quem vai pagar o pato são os mais pobres. A questão central é a do efeito estufa, não temos políticas adequadas até hoje em compatibilizar desenvolvimento e respeito ao ambiente. É uma questão moral, e por isso política."

FHC comentou ainda sobre a proposta de se substituir o PIB por uma outro tipo de medida que leve em conta o capital natural. Disse que de fato é preciso levar em conta o efeito do crescimento sobre a qualidade de vida. "As pessoas comparam que não crescemos como a China. Mas não precisamos crescer como a China. Nos últimos 10 anos, tivemos um crescimento de 4%, não é tão alto, mas houve uma mudança grande nas condições de vida. Só crescemos 10% no regime militar. São Paulo crescia e a pobreza aumentava" E emendou sobre como isso pode ser relacionado com o momento de crise econômica. "Já que temos o desafio de fazer a economia funcionar de novo, que seja de um modo novo, da economia verde."

Nesse sentido, ele lembrou que é preciso também pensar com antecipação sobre a necessidade energética, quando questionado sobre o que achava da construção da usina de Belo Monte. "Há 20 anos, 30 anos, teríamos de ter pensado em uma matriz que não precisasse de tantas hidrelétricas com grande inundação, em aumentar a energia eólica, ou fazer uma poupança de energia. Não fizemos isso. E como precisamos de energia para manter um certo nível de crescimento econômico, não tem outro jeito e lá vai Belo Monte.

Mas o problema é que se não começarmos a pensar já em alternativas a nossa matriz energética, daqui a pouco precisaremos de outra Belo Monte. A tendência no Brasil é de que é melhor usar o potencial hídrico porque ele é grande, é renovável e é energia limpa. É verdade, mas vamos tentar usar melhor. Se fala muito, mas não se faz. As pequenas quedas d'água, em conjunto, podem ser tão eficientes quanto uma grande usina, mas não fazemos isso. Falamos, mas não fazemos."

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.